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(A) :: Contra fatos inflacionados não há argumentos

Contra fatos inflacionados não há argumentos

O tipo de pessoa que faz as contas do jantar de grupo, divide por todos menos um e acaba por comer de borla. Que estaciona no lugar de deficiente e obriga a mulher a sair do carro a coxear.

José Diogo Quintela
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A campanha eleitoral ainda nem começou e Luís Montenegro já conseguiu provar que é o melhor candidato a líder do Governo. Montenegro disse ao tribunal que o fato que usava quando o activista climático lhe despejou tinta verde em cima custava 1500 euros, quando na verdade apenas valia 700.

De uma penada, Montenegro dobrou o valor do fato. Se replicar esta peta por todo o sector têxtil, o Primeiro-Ministro terá feito mais pela recuperação de uma indústria fulcral do País do que as políticas económicas de todos os seus antecessores. Só os empresários do calçado é que não devem estar radiantes, pois Montenegro esqueceu-se de fazer o mesmo com os sapatos. Tirando isso, é uma estupenda medida. Um homem que dobra a roupa é um bom filho, um que dobra o valor da roupa é óptimo Primeiro-Ministro.

Aposto que Luís Montenegro disse que o fato estava arruinado mas pô-lo a lavar à mesma, para ficar com o fato e empochar os 1500 euros. É de um homem destes que Portugal precisa para sacar bom dinheirinho à Europa. Alguém que apresente um orçamento de 100 milhões para uma obra que já está feita e só custou 50. O tipo de pessoa que faz as contas do jantar de grupo, divide por todos menos um e acaba por comer de borla. Que estaciona no lugar de deficiente e obriga a mulher a sair do carro a coxear. Que chocalha a caixa de esmolas para parecer, pelo tilintar, que lá deixou umas moedas.

São competências que o seu adversário não possui. Pedro Nuno Santos ficou conhecido para sempre como o Ministro que autorizou o pagamento de uma indemnização milionária a Alexandra Reis. Se fosse Luís Montenegro, fazia com que fosse Alexandra Reis a pagar à TAP e ainda ficava com metade, à laia de comissão.

Não posso falar por todos os eleitores, mas para mim  é uma novidade refrescante. Estou habituado a que me aldrabem sobre o preço da roupa, mas geralmente é a minha mulher a jurar que três sacos da Zara a abarrotar custaram só 35 euros, estava tudo em saldos. Quando se mente em relação ao preço da roupa, costuma ser para dizer que foi mais barata. As pessoas gostam de se convencer que são boas a encontrar pechinchas. É bom saber que Montenegro não alinha com a carneirada e, quando ludibria com o valor, é para cima.

Por outro lado, agora que o Chega fez os cartazes a compará-lo a José Sócrates, Luís Montenegro perdeu uma boa oportunidade de se distanciar do antigo PM socialista. Bastava ter dito a verdade sobre o preço do fato. José Sócrates nunca seria apanhado a vestir a linha baixa de um pronto-a-vestir como a Hugo Boss. A última vez que Sócrates usou roupa tão barata foi obrigado a isso. Eram as regras do alojamento em Évora.

O rapaz condenado teve pouca sorte. Pelo que se tem verificado nos últimos tempos, Montenegro é impermeável, nada agarra nele. Por azar do activista, logo no dia em que lhe despejou tinta em cima, Montenegro não estava a usar um fato borrifado com Teflon.