A recente declaração do presidente Trump sobre a venda de caças a aliados com capacidades reduzidas (“redux”) levanta uma série de questões preocupantes sobre a confiança dos parceiros internacionais nos EUA como fornecedor de defesa. A comercialização de versões com capacidades reduzidas não é, contudo, uma novidade absoluta: Em 1970, o MiG-23MS tinha sido concebido apenas para o mercado externo para ser menos capaz que as versões soviéticas. O regresso assumido e proclamado de Trump a esta opção “redux” de aparelhos de combate que representam para quem os adquire um pesado investimento (apenas em aquisição as variantes do F-35 custam entre €70,1 a €92,7 milhões). Qual será então a lógica de investir num F-47 (em que “47” é uma homenagem a Trump, o 47º presidente dos EUA) que será ainda mais dispendioso e num compromisso que durará entre uma ou até mesmo duas décadas? (Em Portugal os F-16 estão em uso desde 1994.)
A proclamação de que o F-47 será exportado numa versão “redux” é, ademais, um autêntico tiro nos pés, para a capacidade de exportação do aparelho: ou a redução de capacidades do aparelho reduz extraordinariamente o custo do aparelho ou este será o pior discurso de venda por parte de quem fez carreira como “vendedor”.
A política errática da Administração Trump, aliada à crescente desconfiança sobre a dependência tecnológica dos caças americanos, torna a questão ainda mais complexa. A discussão sobre um possível “kill switch” no F-35, apesar de negada oficialmente, reforça a ideia de que estes dispendiosos aparelhos podem ser inutilizados remotamente ou tornar-se inoperantes sem o suporte directo dos Estados Unidos. Mesmo que não haja um botão mágico para os desligar, a cadeia de manutenção e a necessidade de suporte técnico permanente colocam os compradores numa situação de vulnerabilidade. Se estas questões existem no F-35 ainda se colocarão com maior propriedade com o F-47 que será ainda mais sofisticado e complexo que o F-35.
Países como Canadá e Portugal já indicaram que estão a reconsiderar as aquisições do F-35 devido ao “ambiente geopolítico”. Este movimento de refluxo pode ser apenas o começo de um afastamento gradual das nações aliadas do mercado de defesa americano, abrindo espaço para fabricantes europeus e até mesmo chineses e russos não apenas na Europa mas também fora do espaço “NATO”. Se a tendência continuar, os EUA correm o risco de perder a sua hegemonia como principal fornecedor de tecnologia militar para o Ocidente.
Além disso, a disputa pela fabricação do novo caça de sexta geração F-47 (NGAD) adiciona outra camada de incerteza. A decisão entre Lockheed Martin e Boeing não é apenas uma escolha empresarial, mas também uma definição estratégica sobre o futuro do poder aéreo americano. Caso a Lockheed seja preterida, isso pode impactar ainda mais a confiança dos compradores internacionais no seu portfólio. A Boeing tem atravessado uma crise profunda que se exprime em problemas com os seus aviões civis e com a própria nave espacial Orion cujas “anomalias” deixaram astronautas abandonados na ISS durante mais de nove meses.
No final de contas, estas declarações de Trump e as políticas adoptadas pela sua Administração podem acelerar a erosão da influência americana no mercado global de defesa. Ao tratar aliados como clientes de segunda classe ou até – mesmo – como inimigos (caso do Canadá e da Dinamarca) e ao demonstrar um grande nível de instabilidade política, os EUA estão a empurrar nações antes amigas para alternativas mais previsíveis e confiáveis. O preço dessa perda de confiança pode ser elevado e irreversível.
Se a política externa americana continuar a privilegiar a incerteza e o unilateralismo, os aliados extra-europeus poderão considerar uma maior integração com fabricantes europeus como a Airbus Defence and Space, com operações na França, Alemanha e Espanha, a Dassault Aviation, a britânica BAE Systems, a italiana Leonardo e a Saab sueca. A Europa tem investido fortemente em projectos como o FCAS (Future Combat Air System) e o GCAP (Global Combat Air Programme), que devem competir futuramente com caças como o F-35 e F-47. Com estas alternativas disponíveis a partir de 2040 (FCAS) e o GCAP a partir de 2027 ou 2030 (ou seja praticamente ao mesmo tempo que o F-47 estará operacional) antevejo grandes dificuldades para os fabricantes americanos de aparelhos de combate.
Esta tendência pode remodelar significativamente o sector aeroespacial militar global, reduzindo a dependência dos EUA e fortalecendo a autonomia de outras potências e estas declarações de Trump irão acelerar este processo e criar problemas adicionais à indústria exportadora americana e, muito concretamente, à Boeing.