Com o aumento dos desastres naturais face às alterações climáticas ou o aquecimento das tensões geopolíticas internacionais, as crises parecem estar a bater à porta dos cidadãos um pouco por todo o planeta.
A Europa não é exceção, até porque tem um conflito armado dentro do mapa há três anos, desde que a Rússia invadiu a Ucrânia. Por isso, quando, na semana passada, a União Europeia lançou um kit de emergência, já depois de países como a França ou a Alemanha o terem feito, algumas vozes, como a do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, se ergueram a dizer que Bruxelas “se estava a preparar para a guerra”, cita-o a Euronews.
Não se fala em guerra no vídeo publicado nas redes sociais pela comissária europeia Hadja Labib com o mote: “Prontos para tudo. Este deve ser o nosso novo modo de viver europeu”. Em pouco mais de minuto e meio a responsável pela pasta da Preparação e Gestão de Crise, com uma pequena bolsa na mão, aconselha os 450 milhões residentes na Europa a terem determinados artigos prontos, como dinheiro vivo ou um canivete suíço para sobreviver numa crise.
https://twitter.com/hadjalahbib/status/1904858985972351264
A “bolsa de sobrevivência” da comissária (cujo conteúdo passa no final para uma mochila azul com os logótipos da UE) inclui ainda cópias dos documentos, água, uma fonte de luz (seja lanterna, fósforos ou isqueiro), medicamentos, comida não perecível como enlatados ou barritas de cereais, carregadores, powerbanks (baterias portáteis) e ainda um rádio. E um baralho de cartas, “porque um pouco de distração nunca fez mal a ninguém”, diz a sorridente comissária.
“Isto é tudo o que precisa para sobreviver nas primeiras 72 horas de uma crise“, disse Hadja Labib no vídeo, sendo que os primeiros três dias são os mais difíceis, explicou a UE quando lançou o kit. .
https://observador.pt/2025/03/25/uniao-europeia-apresenta-kit-de-emergencia-para-a-guerra/
A União Europeia não foi a primeira a avançar com o kit de emergência. Vários países anteciparam-se e outros atualizaram instruções que possuem há anos para que os seus cidadãos estejam preparados em caso de guerra, de ataques terroristas ou atos de sabotagem, pandemias ou catástrofes naturais. E claro, não são todos iguais. Alguns exemplos:
França, as cópias das chaves de casa e jogos de mesa
A França foi um dos primeiros países a anunciar, este ano, a distribuição de um panfleto a explicar como fazer um “kit de urgência”. Para além de alguns que constam na “bolsa” de Hadja Labib, os franceses são aconselhados a ter roupas quentes e mantas, um estojo de primeiros socorros, cópias das chaves de casa e do carro, mas também jogos de mesa para “ocupar o tempo” e comida para os animais, por exemplo.
https://observador.pt/2025/03/19/franca-vai-distribuir-manual-sobre-como-sobreviver-em-tempos-de-crise/
As autoridades francesas sublinham que uma mochila assim preparada permitirá aos cidadãos ficar em casa mais serenamente enquanto esperam pelo socorro e ser-lhes-á útil em caso de uma partida repentina. Por isso, avisam, é boa ideia ter a mochila num local de fácil acesso e de rever uma vez por ano o seu conteúdo, substituindo o que passou de validade como, por exemplo medicamentos e comida.
https://twitter.com/AntoineBondaz/status/1905002233298813272
Bélgica, comprimidos de iodo e listas de evacuação
Na Bélgica, os “kits de emergência” recomendados também este ano pelo governo são em tudo semelhantes aos indicados pela UE, prontos para “fugir rapidamente ou passar algumas horas sem eletricidade”.
Porém, devido às três centrais nucleares ativas no país, os habitantes na proximidade de 10 a 20 quilómetros das infraestruturas têm também direito a comprimidos de iodo gratuitos. A medicação, recomendada para contrariar os efeitos da radioatividade, está disponível nas farmácias destas zonas.
A procura por estes comprimidos aumentou significativamente, com mais de 300 mil cidadãos a aprovisionarem-nos, por precaução, nas semanas que se seguiram ao início da guerra da Ucrânia, disse a agência federal belga responsável.
Já no início de 2024, o governo federal lançou uma campanha de sensibilização para a gratuitidade dos comprimidos. “Mesmo que o risco seja baixo, é importante estar informado e preparado. Obtenha a sua caixa gratuita de comprimidos de iodo junto do seu farmacêutico”, apelou o Centro de Crise do governo belga.
https://twitter.com/CrisiscenterBE/status/1749369973540086158
“Os desenvolvimentos geopolíticos no mundo podem também ameaçar a segurança do nosso próprio país. Por exemplo, a guerra na Ucrânia pode levar a um aumento de certos riscos, como a desinformação, a segurança do abastecimento de gás e a ameaça de conflitos armados noutras partes da Europa”, afirmou o governo belga ao sugerir este kit de emergência, lembrando ainda que é necessário verificar listas de evacuação do local onde se encontra.
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Finlândia, o essencial para uma semana
Os comprimidos de iodo não são um exclusivo belga. Partilhando a fronteira com a Rússia, em meados de novembro passado, a Finlândia publicou online (poupando milhões) o manual “Preparação para emergências e crises”, dando seguimento à estratégia lançada pelo governo em 2022 após a invasão da Ucrânia. Nele lembrava que face à vizinhança russa e à sua história, o país “sempre esteve preparado para a pior ameaça possível: a guerra”.
https://observador.pt/2024/11/19/suecia-finlandia-e-noruega-distribuem-panfletos-sobre-preparacao-para-guerra/
O guia tem instruções para múltiplos cenários: desde o que fazer em caso de atentado terrorista — com indicações sobre como parar uma hemorragia — até como lidar com fenómenos meteorológicos, a propagação de agentes patogénicos ou um ataque nuclear. E é aqui que recomendam que as pessoas tenham consigo comprimidos de iodo.
O governo finlandês foi mais longe do que as 72 horas. Pediu aos cidadãos que se munissem do necessário para se poderem manter autónomos durante, pelo menos, uma semana para que as autoridades se concentrassem nos que mais precisam.
Suécia, o pesto e a manteiga de amendoim
A Suécia seguiu rapidamente os passos de Helsínquia. O país nórdico que tem, tal como a Finlândia, sentido a ameaça de Putin, decidiu emitir uma nova versão do seu panfleto de preparação para guerras criado antes da II Guerra Mundial conhecido pelo título “Se a guerra vier“.
“Atualmente, estão a ser travados conflitos armados no nosso canto do mundo. O terrorismo, os ciberataques e as campanhas de desinformação estão a ser utilizados para nos minar e influenciar”, lê-se no prefácio do panfleto sueco, de 32 páginas.
Na quinta vez desde a Segunda Guerra Mundial a Suécia distribuiu um folheto com dezenas de conselhos. “Em tempos de incerteza, é importante planear. Os níveis de ameaça militar estão a aumentar. Temos de estar preparados para o pior dos cenários: um ataque armado à Suécia”, lê-se nas primeiras páginas, antes de acrescentar: “Não nos renderemos, qualquer sugestão em contrário é falsa”.
A Suécia pede vastas medidas de precaução para garantir que os cidadãos estejam fornecidos com o essencial: água, comida, aquecimento, dinheiro ou mesmo formas de usar a casa de banho em caso de falta de energia ou de água.
O guia para uma crise recomenda o armazenamento de alimentos ricos em energia e em gordura, como pesto, tomates secos ao sol em óleo, manteiga de amendoim, nozes e sementes e sugere que as pessoas optem por alimentos que possam ser preparados rapidamente com muito pouca água.
O governo recomenda também que os suecos levem consigo um mapa e uma bússola para se orientarem e ainda informações importantes sobre si escritas num papel, tais como números de telefone e informações sobre seguros. E pede que não esqueçam os seus animais de estimação e a respetiva comida.
Noruega, 20 litros de água por pessoa e lenha
Um outro vizinho nórdico, lançou também um guia de 20 páginas onde explica em pormenor o que fazer para sobreviver em caso de “catástrofes naturais, sabotagem, terrorismo ou atos de guerra”. A água potável, é uma das principais recomendações: noruegueses devem armazenar cerca de 20 litros por pessoa, o mínimo para uma semana.
Depois de fazer as habituais sugestões de comida não perecível, medicamentos, lanternas a pilhas, o manual aconselha também a ter à mão roupas quentes, como cobertores e sacos-cama, e não esquece as toalhitas e produtos menstruais. A imagem do kit noruegués apresenta ainda uma originalidade: entre os vários artigos figura a lenha.

Aconselha ainda conhecimentos e equipamento básicos de primeiros socorros, uma vez que nas fases iniciais da crise pode ser “difícil aceder ao número de emergência médica ou aos serviços de emergência por telefone”.
Dinamarca, água em sítio escuro e fresco e enlatados de que a família gosta
Ainda nos nórdicos, a Dinamarca também optou por não imprimir manuais como fizeram a Suécia e a Noruega e enviou um email com indicações sobre a comida, a água, e os medicamentos que deveriam ter à parte para atravessar uma crise durante três dias. Nas recomendações presentes no site da agência de emergência, estão os três litros de água por dia por pessoa, ensinando a preservá-la durante vários meses: num sítio escuro e fresco.
Para além dos artigos comuns à maioria dos kits como comida não perecível, fontes de energia, e roupa quente, a Dinamarca sublinha também a importância de ter comprimidos de iodo, e sublinha um aspeto: os alimentos enlatados devem ser aqueles de que a família gosta e consome habitualmente.
Rússia, talheres descartáveis, fios e agulhas
Também a Rússia, o vizinho que os escandinavos tanto temem, país que iniciou a guerra na Ucrânia, se tem preparado. Em 2023, o ano a seguir à invasão do território ucraniano, as autoridades russas instalaram um vídeo num ecrã eletrónico do Parque Gorky, no centro da capital de Moscovo, que mostrava aos cidadãos como criar um kit pronto para sobreviver em caso de emergência, assim como instruções para fazer uma ligadura.
A “mala de sobrevivência” indicada na campanha do Ministério das Emergências no cartaz requeria água e comida para pelo menos três dias, assim como um kit de primeiros socorros, uma lanterna, um rádio, fósforos, uma navalha, fios e agulhas, talheres descartáveis, produtos de higiene pessoal e roupa interior.
https://observador.pt/2023/03/30/campanha-com-instrucoes-para-preparar-kit-de-sobrevivencia-chama-a-atencao-na-russia/
Estados Unidos, a máscara para poeiras e a tesoura
Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, o Departamento de Segurança Nacional tem disponível, no site dedicado à preparação para uma crise ready.gov, várias indicações para construir um kit para “sobreviver sozinho durante vários dias”.
O governo norte-americano recomenda, por exemplo, que os cidadãos tenham consigo uma máscara indicada para proteger de pós e poeiras; assim como placas de plástico, tesoura e fita para selar portas e janelas. Segundo o site, selar uma sala ou uma casa é indicado para situações em que o ar esteja contaminado, sendo assim necessário criar uma “barreira” para o exterior.
As quantidades de água e comida devem também servir para vários dias, sendo recomendado que sejam guardados mais de três litros de água por dia para cada pessoa, servindo para beber e para higiene. A imagem do kit recomendado tem uma particularidade: um urso de peluche, a lembrar a necessidade de um brinquedo para as crianças.
https://twitter.com/Readygov/status/1868717276028940444
Japão, as noodles e o capacete
No Oriente, no caso do Japão, que no passado foi afetado por terramotos, tufões ou desastres como o da central nuclear de Fukushima, existem medidas específicas para cada região.
No guia oficial do governo local da cidade de Tóquio, por exemplo, para além de recomendações básicas como água e fontes de luz, é recomendado que os cidadãos tenham consigo noodles instantâneas, um alimento não-perecível e também um marco cultural do país. Para além disso, o guia refere também um capacete e luvas de trabalho como bens essenciais a ter à mão numa mochila de emergência.
Já o guia do município de Hiroshima recomenda que os cidadãos tenham consigo roupa quente e cobertores de alumínio — por serem “compactos e não volumosos” — para proteger do frio à noite.
Portugal, o medo do sismo e o apito
E Portugal? Ao que parece a grande preocupação está na possível repetição de um grande terramoto como o de 1755. A Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) tem, de facto, um guia de prevenção que lista os mantimentos a ter num kit de emergência, mas só em caso de sismo.
A ANPC indica que deve ter um estojo de primeiros socorros, medicação, água e comida não perecível, mudas de roupa, rádio, lanterna e apito, powerbank, lista de contactos, cópias de documentos e dinheiro vivo.