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(A) :: O candidato ChatGPT

O candidato ChatGPT

Em meia dúzia de meses, Gouveia e Melo só chapinhou pelos lugares-comuns da política. Mas está confortavelmente na frente sem que tenha dito alguma coisa de transcendental. Os adversários afligem-se

Miguel Santos Carrapatoso
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Meia dúzia de intervenções públicas, umas quantas aparições e dois artigos de opinião depois, é possível dizer com algum rigor que Henrique Gouveia e Melo já sabe aquilo que quer que saibamos sobre ele. Que é, na verdade e ao contrário do que os seus detratores insinuavam, um candidato indolor, um homem alérgico a revoluções, disruptivo mas suficientemente digerível para quem tem medo de aventuras mas acha que a farda faz falta para meter o fato e gravata na ordem. Adaptando uma imagem que o próprio usou no passado, é a “manteiga” ideal para um regime torrado.

E é assim porque, em meia dúzia de meses, Gouveia e Melo só chapinhou pelos lugares-comuns da política — nunca submergiu. Por exemplo: sabemos que se situa entre o “socialismo e a social-democracia”, tal como (números muito conservadores) uns 70% de portugueses. Sabemos que quer uma Justiça “imune” a pressões, “célere” e “eficaz”. Também que quer uma Administração Pública “independente” e “competente”, uma Economia centrada nas “pessoas”, no “conhecimento” e, obviamente, no Mar. Que pugna, naturalmente, pela “preservação ambiental” e pelo “combate às alterações climáticas”.

Sabemos também que quer “otimizar o que Portugal já faz bem” e ver corrigido o que o país faz menos bem. Que quer mais inovação, “explorar as vantagens geográficas do país”, “promover a língua portuguesa”, acabar com a burocracia, “apostar no digital enquanto multiplicador tecnológico”, “libertar a economia do atrito que limita o seu crescimento” e reduzir os impostos, mas nunca comprometendo “a defesa do Estado Social”, um “marco do progresso das sociedades europeias”. Nem mesmo a troco de mais investimento em Defesa — ideia que lançou e apressadamente corrigiu quando começou a dar chatice.

Se dúvidas houvesse sobre as reais intenções do almirante, sabemos também que quer mais e melhor Escola, e, inevitavelmente, mais e melhor Habitação para todos. Também não há grandes dúvidas quanto à sua posição sobre imigração: deve estar alinhada “com as necessidades do país” e que é algo que “poderá contribuir de forma positiva para resolver limitações que resultam do nosso inverno demográfico e evitar eventuais problemas”. Mas sempre com cuidado: “A integração deve evitar a marginalização e a criação de guetos, regulando a imigração conforme a capacidade de acolhimento”.

Sobre a interpretação que faz dos poderes presidenciais, sabemos que entende a importância do “poder da palavra” e que não defende a dissolução da Assembleia da República por dá cá aquela palha. A menos quando se ache que o “povo” perdeu de forma “insanável” a confiança no Parlamento e/ou Governo em funções, ou sempre que o(s) partido(s) do Governo não esteja(m) a cumprir aquilo que foi prometido nas eleições — saber quem, nesses casos, seria o fiel intérprete da vontade do “povo” fica para outras núpcias.

Sobre a crise política que resultou na queda de Luís Montenegro não sabemos exatamente o que pensa Henrique Gouveia e Melo, porque, além de ter pedido “responsabilidade” e de reclamar “estabilidade”, teve sempre o cuidado de não fazer grandes comentários. Sabemos que defende que a “liderança tem que ter valores” e que a ética é um “valor básico da liderança”. Mas, cala-te boca, nem tanto ao mar, nem tanto à terra, sabemos que, afinal de contas, não quer “anjos imaculados sem capacidade governativa”.

E sobre a forma como se vê a si próprio, sabemos que não se vê como como um “D. Sebastião” (ainda que não fique nada atrás de D. João II), nem como um “homem prodígio”, muito menos como um “milagreiro” ou um “salvador”. Sabemos que é católico e do Benfica, mas que sabe perfeitamente que o país já não é só Fátima e futebol. Sabemos, porque nos jurou o candidato-que-não-é-candidato, que só quer ser mais um “indivíduo” que “vai andar” com o povo, “colaborar” com o povo e “tentar juntar as forças” do povo.

Se o ChatGPT fosse desafiado a desenhar um candidato perfeito para o contexto muito particular que o país atravessa, dificilmente conseguiria um perfil muito diferente do de Henrique Gouveia e Melo. Os adversários do almirante, que tanto iam apostando no erro do militar para se animarem, devem estar a começar a perceber que não será assim tão fácil. Gouveia e Melo está confortavelmente na frente sem que tenha dito alguma coisa de transcendental. Pelo contrário: o lugar-comum chega e sobra. Já provou que é inteligente. Artificial ou não, logo se verá.