“Estou sempre calma relativamente às coisas que não posso controlar.” O estado de espírito de Marine Le Pen dias antes da audiência em tribunal desta segunda-feira era, aparentemente, de tranquilidade.
Não porque não tivesse noção da gravidade da sua situação, caso o tribunal a viesse a condenar por desvio de fundos do Parlamento Europeu — o que acabou por se confirmar. “Os juízes têm um direito de vida ou de morte sobre o nosso movimento”, reconheceu a líder da União Nacional (UN) ao La Tribune Dimanche. Mas, apesar disso, Le Pen parecia convicta de que a consequência mais grave — a de poder vir a ser impedida de concorrer a cargos públicos (e, portanto, não se poder candidatar à presidência em 2027) — não iria acontecer. “Não consigo imaginar uma disrupção tal da ordem democrática. Estamos a falar de uma sentença de morte, de uma guilhotina judicial.”
O partido estava com ela. “Marine Le Pen [representa] 13 milhões de votos!”, comentava com o Le Figaro um dos membros mais próximos da entourage de Le Pen, convicto de que o tribunal não se atreveria a decretar tal sentença. E, no entanto, assim foi: a “guilhotina judicial” cortou a cabeça política de Marine Le Pen, condenando-a não apenas a uma pena de prisão e multa, mas matando também o seu sonho de chegar ao Eliseu na próxima eleição, ao declará-la inelegível durante cinco anos.

A decisão deixou Le Pen e o partido em choque. Ainda a juíza não tinha lido toda a sentença, já Marine Le Pen abandonava a sala do tribunal, visivelmente perturbada. Foi de imediato para a sede da UN, onde se reuniu com os aliados mais próximos para decidir os próximos passos. O primeiro, como conta o Le Figaro, foi a decisão de ir imediatamente a um telejornal na noite do mesmo dia, para dar uma entrevista. Mais difícil foi decidir qual será o discurso a adotar. “É totalmente de loucos”, desabafou com o mesmo jornal um dos estrategas do partido presente na reunião, enquanto esta ainda decorria.
Não é para menos. A decisão é histórica: pela primeira vez desde 1981, não haverá nenhum Le Pen nos boletins de voto para a presidência. Primeiro foi Jean-Marie Le Pen, fundador da Frente Nacional, que morreu este ano; depois, Marine pegou no testemunho do pai e continuou o movimento político, apostando na estratégia de “desdiabolização” que aproximava o partido do centro e o fez subir gradualmente nas sondagens. Desde 2012, Marine Le Pen foi sempre candidata à presidência de França pela UN e, a cada eleição, melhorou o resultado eleitoral do partido. Agora, as sondagens mostravam-na como a melhor colocada para a corrida de 2027. Mas uma decisão judicial vai provavelmente deixar Le Pen fora da corrida ao Eliseu.
Jordan Bardella, a alternativa óbvia, mas que também tem anti-corpos dentro do partido
No quartel-general da União Nacional, olha-se agora para o futuro. Le Pen irá recorrer da decisão, mas é improvável que consiga reverter a proibição de se candidatar a tempo de inscrever o nome nos boletins de voto. É preciso, por isso, escolher uma alternativa.
A alternativa é óbvia. Jordan Bardella, protegido de Le Pen tornado presidente do partido e candidato a primeiro-ministro por decisão da própria, assume-se como o herdeiro natural. Ainda em outubro, Marine admitiu ao Le Point estar a preparar a transição: “A primeira responsabilidade de um líder é preparar para que, caso ele ou ela desapareça, a estrutura consiga sobreviver à sua morte, seja ela qual for.”
Le Pen também foi deixando claro que deveria ser Bardella a ocupar esse lugar: “Damo-nos muito bem, confio nele e concordamos em tudo”, disse há apenas seis dias. Mas o seu plano continuava a ser o de colocar Bardella na corrida ao Eliseu mais tarde, depois de ela própria já se ter tornado Presidente ou ter falhado esse objetivo eleitoralmente — “em 2032, o Jordan terá 36 anos”, notou a líder da UN na mesma entrevista, sublinhando como o seu delfim estava apto para lhe suceder.

Agora, com esse cenário a colocar-se mais cedo do que o previsto, parece que Bardella pode ter o caminho para o Eliseu mais facilitado. “A questão não se coloca, sabemos quem é o candidato”, já notava uma fonte da UN ao Les Echos alguns meses antes.
Depois de uma candidatura a primeiro-ministro nas legislativas de 2024 onde saiu derrotado — mas apenas perante a união dos macronistas e da esquerda —, Bardella continua a ser popular. Publicou recentemente o livro Ce que Je Cherche (“Aquilo que Eu Procuro”) e tem feito uma robusta campanha de marketing em torno dele. As sondagens são-lhe positivas: perante a questão “Jordan Bardella seria um bom candidato presidencial?”, um estudo notou que 95% dos eleitores da UN disseram que sim e 61% da amostra no geral também concordou. Uma sondagem do final do ano passado mostrava até que 59% dos simpatizantes da RN preferiam o político de 29 anos para concorrer ao Eliseu e que apenas 37% colocavam Le Pen à frente.
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Mas mesmo havendo simpatia entre as bases face ao putativo candidato, parte da cúpula do partido pode não aceitar tão facilmente a solução Bardella. “Se Marine Le Pen for impedida de concorrer, vai haver uma guerra civil dentro do partido”, previa um barão da UN ao Le Point há alguns meses. “Há um número de responsáveis [do partido] que não vão aceitar as decisões de Bardella, nem seguir cegamente um tipo de 29 anos.”
Para acalmar os desagradados, a palavra de Marine Le Pen pode fazer a diferença. Afinal, o partido continua a ser controlado por ela — e Bardella foi sendo promovido dentro da UN com o apoio da líder, incontestada até agora. O que não significa que não haja diferentes correntes dentro do partido de extrema-direita: há quem apoie incondicionalmente a estratégia de “desdiabolização” de Le Pen, os chamados “não-aceleracionistas”; e os que consideram que o partido deve ser mais anti-sistema e assumir uma postura mais radical.
A mudança de estratégia da União Nacional: do slogan “Inelegibilidade toda a vida” para “o argumento trumpista de que os juízes estão a tentar governar”
A sentença de Marine Le Pen pode contribuir para decretar o fim do “não-aceleracionismo”. Dentro da sede da UN na tarde desta segunda-feira, ficou claro que a estratégia agora será uma: a de acusar a justiça de politização. Bardella deu o tiro de partida, ao escrever no X “Hoje não é apenas o dia em que Marine Le Pen é condenada injustamente: é o dia da execução da democracia francesa”, decretou, lançando a hashtag #JeSoutiensMarine (“Eu apoio a Marine”). Horas depois, lançava uma petição de apoio a Le Pen e pedia uma “mobilização popular e pacífica”.
O discurso foi ecoado por vários membros do partido, como o antigo Republicano Éric Ciotti, que questionou “França ainda é uma democracia?”, após ser conhecido o veredito.
No passado, a UN e a própria Le Pen defenderam taxativamente que os acusados de desvios de fundos públicos deveriam ser proibidos de voltar a concorrer a cargos públicos. “Inelegibilidade toda a vida” chegou a ser o slogan defendido pela própria.
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Agora, a toada será outra, prevê o investigador Lux Rouban, da Sciences Po: “Marine Le Pen vai ceder à tentação, como já fez no passado, de se apresentar como uma vítima de uma cabala política através de um instrumento judicial. Na sua forma de se expressar veremos o argumento Trumpista de que os juízes estão a tentar governar.”

É precisamente por temerem este discurso que muitos políticos de áreas políticas distintas da União Nacional se pronunciaram com reticências face à decisão judicial. O antigo comissário europeu, Thierry Breton, tinha deixado o alerta ainda antes da leitura da sentença: “Há um número significativo dos nossos compatriotas franceses que se identificam com as palavras e a luta de Marine Le Pen. Pessoalmente, ficaria muito perturbado se ela não pudesse representá-los [nas urnas].”
Quando as acusações contra Le Pen foram inicialmente conhecidas, Gérald Darmanin, figura destacada do macronismo, afirmou que “o combate à senhora Le Pen se faz nas urnas” e não nos tribunais. “Não tenhamos medo da democracia e evitemos aumentar o fosso entre as ‘elites’ e a grande maioria dos nossos concidadãos”, escreveu no X à altura, ainda em novembro de 2024. Desde então, foi nomeado ministro da Justiça, cargo que ainda ocupa — e, por agora, tem estado publicamente em silêncio.
https://twitter.com/GDarmanin/status/1856814212041117843?lang=en
Mas essa pode bem ser uma opinião geral dentro do governo. Uma fonte próxima do atual primeiro-ministro afirmou recentemente ao Le Figaro que François Bayrou teme as “repercussões políticas” de uma condenação deste tipo: “Se Marine Le Pen não puder concorrer, há um risco de protesto popular.”
Por outras palavras, a popularidade da UN pode disparar e a ideia de descontentamento com “o sistema” pode cristalizar-se entre grande parte do eleitorado. “Esta decisão pode reforçar as suspeitas de politização da justiça, como vimos nos casos de Silvio Berlusconi ou nos Estados Unidos com Donald Trump”, resumiu ao Le Point o cientista político Jean-Yves Dormagen. “Uma dinâmica destas deve ser levada a sério, porque pode acelerar uma certa deslegitimação do Estado de Direito.”
A “história trágica de Le Pen” que pode tentar “reerguer-se” — deitando abaixo um governo?
“Este julgamento irá dar-nos a previsão do tempo para 2027”, tinha previsto um aliado político de Le Pen antes de ser conhecida a sentença. Para já, a previsão é de tempestade; e os ventos fortes podem tornar-se até favoráveis à própria União Nacional.
O diretor-adjunto do Libération, jornal alinhado à esquerda, notava na véspera da sentença que, mesmo que Le Pen fosse barrada de se candidatar a eleições, “a História da extrema-direita não acaba amanhã”. “Outros irão continuar a levar a tocha”, escreveu Paul Quinio, numa referência a Bardella. “O que está em causa é o futuro de um clã, de uma família, de um nome, não de um movimento que infelizmente está ancorado na paisagem política.”

Mas se a UN está preparada para lidar com o embate, menos claro é se Marine Le Pen tem algum futuro político para lá desta sentença, que estilhaça a ambição para a qual vinha a trabalhar há anos. Alguns dos mais próximos acreditam que a líder da extrema-direita francesa não vai baixar os braços: “Ela é uma Le Pen. Quando a atacam, riposta”, comentou um membro do partido com o Le Figaro. Outro dos seus amigos comentava o mesmo com o Politico, dias antes de ser conhecida a sentença: “Há algo de trágico na história de Marine Le Pen”, dizia. “Mas dentro da dimensão trágica, há uma bênção constante: ela consegue sempre reerguer-se.”
Há algumas semanas, a própria Marine Le Pen levantou o véu sobre como pode atacar: “Mesmo que amanhã haja uma decisão do tribunal [que impeça a minha candidatura] (…) isso não me impede de apresentar uma moção de censura e até de provocar novas eleições legislativas.” Mas uma coisa é certa: em caso de dissolução do atual Parlamento (que só pode ocorrer a partir de julho), Marine Le Pen perde o único cargo que ainda detém, o de deputada. Perante o fim anunciado de uma carreira política, talvez a líder histórica da União Nacional esteja decidida a sair com estrondo.