(c) 2023 am|dev

(A) :: Futebol, ostentação e viagens. Quem são os influencers suspeitos de violar uma menor em Loures

Futebol, ostentação e viagens. Quem são os influencers suspeitos de violar uma menor em Loures

O Observador falou com pessoas próximas dos jovens para conhecer o percurso dos três detidos por suspeitas de violar uma menor de 16 anos em Loures.

Miguel Pinheiro Correia
text

Já em liberdade, mas sujeito a apresentações periódicas nas autoridades, um dos suspeitos da violação de uma menor em Loures— um dos três “influencers” que a Polícia Judiciária deteve esta segunda-feira —, recorreu ao Instagram para se pronunciar sobre o caso: “A verdade irá ser provada.” Logo a seguir, outro dos suspeitos do crime — a PJ deteve três jovens, entre os 17 e os 19, que além de alegadamente terem violado a menor publicaram o vídeo desse momento nas redes sociais — partilhou a publicação e acrescentou: “TV quer ganhar ‘mídia’ connosco a inventar.”

Cristiano e João (ambos nomes fictícios) partilhavam a paixão pelo futebol e chegaram a jogar juntos num clube da Área Metropolitana de Lisboa. Quem se cruzou com eles mostra-se surpreendido com as notícias e fala em dois rapazes “esforçados” e bons atletas.

https://observador.pt/2025/03/27/adolescente-foi-violada-e-filmada-por-tres-jovens-em-loures-suspeitos-foram-detidos-pela-pj/

O rendimento desportivo de Cristiano chegou a valer-lhe uma bolsa para jogar nos Estados Unidos da América, de onde acabou por sair sem aviso prévio. “Tinha saudades da família, por isso voltou para Portugal, mas queria regressar aos EUA”, confidenciou uma pessoa próxima do jovem, que assume acreditar na inocência do adolescente.

A bolsa — que pode ser atribuída pelo rendimento desportivo ou pela prestação académica — tinha um valor de mais de 30 mil dólares. Era com “esforço financeiro” que a família pagava cerca de 700 dólares por mês. Um dado que leva a fonte consultada pelo Observador a admitir alguma estranheza pelas viagens constantes partilhadas nas redes sociais.

O treinador que o orientou nos Estados Unidos da América confidenciou que, apesar de ser um jogador com muito potencial — tendo sido mais pelo rendimento desportivo do que pelo aproveitamento académico que conseguiu rumar aos EUA —, era mais “agarrado às publicações no TikTok que preocupado com o futebol e os estudos”. Ainda assim, nunca demonstrou sinais de violência ou de qualquer transgressão. De volta a Portugal, jogou pouco tempo no AD Lagares da Beira, de Oliveira do Hospital, até ser “excluído do plantel (…) por motivos estritamente desportivos”, revelou o clube.

Ostentação, seguidores e futebol — além das suspeitas do crime de violação, eram estes os traços em comum entre os três adolescentes. O crime pelo qual foram detidos aconteceu já em fevereiro. Um dos jovens, seguido por milhares nas suas redes sociais, terá combinado um encontro na zona de Loures com uma das suas seguidoras. À hora combinada, além dele, surgiram outros dois amigos. Em conjunto, terão conduzido a menor até uma “zona comum” de um prédio de Loures e, enquanto a submetiam a atos sexuais forçados, gravavam tudo com a câmara dos telemóveis. Os vídeos foram depois partilhados nas respetivas redes.

A PJ avançou esta semana para as detenções por suspeitas de “terem praticado crimes de violação agravada e pornografia de menores”. A mesma PJ descreve-os como “influencers” com “um público já muito significativo” — mais concretamente, somariam cerca de 90 mil (só no TikTok, onde eram mais ativos). Desse universo, uma grande fatia de seguidores está ligada à conta de Cristiano (nome fictício), que somava mais de 56 mil seguidores nessa rede social — mas numa conta alternativa, já que a principal foi desativada assim que foi divulgada a notícia da sua detenção.

Os milhares de pessoas que alcançam com os vídeos regulares testemunharam o crime. Muitos viram, ninguém denunciou, segundo uma fonte da PJ consultada pelo Expresso.

https://observador.pt/2025/03/28/verdade-ira-ser-provada-suspeito-de-violar-menor-defende-se-nas-redes-sociais/

Jovens não negam envolvimento, mas desmentem crime

Foi através do Instagram que se apressaram a desmentir as notícias que não os mencionavam diretamente. Cristiano (nome fictício) disse que “a verdade irá ser provada”, mas não desmentiu a sua relação com os factos que a PJ referiu. Pedro (também fictício) partilhou a mensagem do amigo e acrescentou: “TV quer ganhar ‘mídia’ connosco a inventar”.

Além da Grande Lisboa, onde os três detidos residem, Cristiano e Pedro têm mais dois locais em comum: Marrocos e Dubai, onde estiveram recentemente. Estas viagens, partilhadas exaustivamente com os seguidores, evidenciam o lado mais ostensivo dos três detidos. Quando não estavam em viagem, as fotografias de carros de luxo, a preocupação com o visual e o futebol dominavam as publicações.

[Já saiu o segundo episódio de “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio]

Jovem promete rendimentos a quem aderir a esquema para “enganar” casinos

Se de Cristiano não se conhecem possíveis rendimentos, Pedro vangloria-se (ainda hoje, depois da detenção) do dinheiro que faz, além de prometer quantias avultadas de dinheiro aos seguidores que alinharem no seu plano.

“Para quem está sempre a perguntar como é que eu conquisto estas coisas todas com apenas 17 anos é muito simples. O meu robot disse para apostar no azul, ‘a gente’ aposta”, disse, enquanto o computador mostrava um jogo de casino em que Pedro voltava a ganhar dinheiro: “Mais mil para a conta para comprar mais roupa.”

Neste momento, o suspeito de violar uma menor continua a promover, nas redes sociais, um grupo de Telegram onde diz que “mais de 500 alunos lucram diariamente” com um ‘robot’ de Inteligência Artificial treinado para “derrotar o casino”.

Sem viagens e sem ostentações tão notórias como a dos amigos, João (também este um nome fictício) era o que tinha o perfil mais discreto. Mas isso não o impedia de ter um alcance de dezenas de milhares de utilizadores na maioria dos vídeos no TikTok, com muitos comentários de seguidoras que elogiam a sua aparência.

Já depois da violação, João publicou um vídeo com a seguinte descrição: “Imagina ouvir um ‘pára que está a doer’ e parar mesmo”. Os comentários, feitos depois da detenção do jovem, constatam que o texto podia ser mais do que uma brincadeira.

A proximidade e reputação junto dos fãs garantia-lhes o estatuto de “influencers” e terá sido com essa confiança que uma seguidora marcou, em fevereiro, um encontro com um deles. Acabou surpreendida com a presença de outros dois. Em grupo, violaram a menor e fizeram o que lhes é mais comum: gravar. Foi apenas depois de a vítima ir ao Hospital Beatriz Ângelo que o caso chegou ao conhecimento da PJ, alertada pela equipa médica.

Os comentários de seguidoras nas publicações dos jovens são uma constante, tal como os vídeos dos três sobre relações pessoais e mulheres. Num vídeo, Cristiano diz que “nunca” namorou “pelo facto de ser muito intenso”; noutro, diz que “em todos os anos de vida” nunca conheceu “uma loira que seja fiel”.

“Se houvesse provas suficientes que eles violaram, eles estavam presos. Ganhem cabecinha e parem de gravar TikToks tristes. Parem de querer ganhar fama com a desgraça dos outros. Como é que vocês conseguem gozar com uma coisa que destruiu a vida de quatro pessoas”, diz uma jovem no último vídeo partilhado por Cristiano.