Começou por ser um desafio. E acabou por se tornar numa tradição. Assim que faziam 17 anos, as filhas de Jorge Jardim tinham de cumprir uma missão: saltar de paraquedas. Aconteceu com todas as que completaram essa idade enquanto a família vivia em Moçambique. Com um pormenor: o pai nunca as obrigou a fazer nada. Foram elas próprias que pediram.
“Eu era pequena e via aqueles homens a saltarem lá do ar, paraquedas a abrir-se, passa um avião, saltam paraquedistas. Achava aquilo de outro mundo. E pensava: “Nós temos de ser paraquedistas! Eu quero ser paraquedista, porque acho isto fascinante”, recorda Carmo Jardim, uma das filhas, no terceiro episódio do podcast “O Misterioso Engenheiro Jardim”.
Carmo é a quinta de um total de 13 filhos: 10 raparigas e 3 rapazes. Nasceu em 1952, precisamente o ano que iria mudar a vida do pai: em junho, Jorge Jardim, um engenheiro agrónomo de formação que tinha passado pelo governo durante quatro anos como subsecretário de Estado do Comércio e Indústria, decide aceitar um convite para ir para Moçambique como administrador da filial da Lusalite, uma fábrica de fibrocimentos. Carmo nasceu em dezembro e iria juntar-se ao pai em África apenas no ano seguinte. Metade dos irmãos acabariam por nascer em Moçambique. No espaço de 16 anos, Jardim e a mulher, Teresa, tiveram 12 filhos. Adotaram ainda uma menina chinesa, a que dariam o nome de Avelina.
[Já saiu o segundo episódio de “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio]

A lista completa do clã, da mais velha para o mais novo, é: Patucha, Carlos Frederico, Kanysha, Xenica, Carmo, Mituxa, Avelina, Miguel, Cinha, Xandinha, Luizinha, Rosarinho e Titó. A mais velha, Patucha, recorda que, em muitos sentidos, eram como uma espécie de família Von Trapp, do filme “Música no Coração”. “Os nossos vestidos passavam de umas para as outras. Eu era uma privilegiada porque vestia os vestidos primeiro. Depois andávamos vestidas todas de igual até aos 12 anos. Com os rapazes era um pouco diferente. O Carlos Frederico sempre ia tendo umas coisas mais novas, porque tinha uma certa diferença de idade para o Miguel, e depois o próprio Miguel para o Titó. Mas o Titó, quando era pequenino, também vestia os calções das irmãs.”
Seriam as mulheres a tornar o “clã Jardim” mais conhecido. Adotariam, na vida pública, as alcunhas ou diminutivos que tinham no contexto da família: casos de Cinha Jardim (a última ainda a saltar de paraquedas em Moçambique), mas também Xenica ou Mituxa. E, apesar de Jorge Jardim ter sido um pai muitas vezes ausente, todas cresceram a ver nele um herói. E a gostar também de aventura. Adoravam andar pelo mato em África, tal como o pai. Em jovem, Cinha Jardim aprendeu mesmo a apanhar cobras e a retirar-lhes o dente venenoso.

Pilotavam aviões, mas não podiam conduzir
“Fomos muito educadas a venerá-lo. Porque a minha avó tinha uma preocupação enorme de que o pai, quando chegasse, era Deus, não é? E o pai chegava e brincava um bocadinho e pronto, lá ia ele outra vez para qualquer sítio”, recorda Isabel Maria Jardim, a primogénita, conhecida na família como Patucha.
Nasceu em 1947, apenas um ano depois de Jorge Jardim se casar com Maria Teresa Monteiro de Sousa. Mas, em Moçambique, a avó, Isaura, era o grande pilar da casa. Não era raro a mãe acompanhar o pai nas viagens, sempre que era possível. “A minha mãe ia ter com ele para toda a parte: fosse mato, fosse Nova Iorque, fosse onde quer que fosse. A minha mãe ia sempre. Ele dizia: “Podes vir”, e lá se ia ela embora.”
Sempre que o pai saía em viagem, era a avó que reunia os irmãos num oratório da casa para rezarem por ele. As crianças sabiam que, de alguma forma, o pai corria perigo, mas estavam ainda longe de imaginar que ele era uma espécie de agente secreto ao serviço do Governo, que se oferecia para todo o tipo de missões arriscadas.
https://observador.pt/especiais/jorge-jardim-o-misterioso-engenheiro-que-era-um-agente-secreto-e-quis-fundar-um-pais/
Em 1961, com 14 anos, a filha mais velha começou a ter uma noção mais exata do que o pai andava a fazer. Em janeiro desse ano, a mãe confessou-lhe que Jardim viajou para o Brasil para tentar pôr termo ao sequestro do paquete Santa Maria (um dos episódios retratados no segundo episódio do podcast). Meses mais tarde, quando foi combater para Angola no início da guerra em África, foi o próprio Jorge Jardim que decidiu juntar os filhos e contar tudo. “Juntou-nos ao jantar e disse que havia uma guerra em Angola e que tinha de ir ajudar na guerra”, recorda Isabel Maria Jardim. “Aí percebemos que a coisa era muito grave, que era uma operação bem mais difícil do que as outras.”
Mas essas experiências vividas durante a infância nunca demoveram as filhas de seguirem o exemplo do pai, muito pelo contrário. Para além de grande dinamizador do Aeroclube da Beira, Jorge Jardim tinha licença de piloto e pilotava o seu próprio avião. A filha mais velha tirou a carta de piloto logo aos 17 anos, e passava por uma situação curiosa: “Podia andar lá em cima a fazer o que me apetecia, mas depois cá em baixo não podia conduzir um carro!” Naquele tempo, a maioridade só era atingida aos 21 anos, e só nessa altura se podia tirar a carta.

Patucha adorava voar e, sempre que sabia que o avião ia sair, oferecia-se para ir também. Foi assim que acompanhou o pai em algumas missões dentro de Moçambique, entre elas uma “operação de charme” que Jardim fez numa ilha estratégica no lago Niassa: foi distribuir rebuçados, bombons e refrigerantes para ganhar os corações da população local.
A filha mais audaciosa do mundo
À semelhança de Patucha, Carmo Jardim, que era 5 anos mais nova, também pilotava aviões e saltava de paraquedas. Mas Carmo levou esse desporto ainda mais longe. A busca de adrenalina levou-a a querer saltar em queda livre. Fez até um curso de instrutora em França e, com apenas 19 anos, deu instrução aos “Grupos Especiais Paraquedistas”, tropas africanas que estavam na altura a ser formadas em Moçambique.
Ao longo da vida, viria a fazer quase mil saltos e foi durante muitos anos a mulher com mais saltos em queda livre no mundo. Em 1972, Carmo Jardim foi mesmo distinguida com o prémio “Audace”, atribuído à mulher que mais se tinha destacado naquele ano, em todo o mundo, pela coragem na área do desporto. Recorda que, de início, o pai não queria que fosse receber o prémio. “O meu pai não gostava nada que as filhas estivessem aí na ribalta. E, portanto, começou por me dizer que não, que não havia necessidade. Mas depois eu disse: ‘O pai está-se a esquecer aqui de um grande pormenor. É que se eu for ganhar este prémio, há de lá estar a imprensa toda e até a imprensa internacional. E será uma grande oportunidade para eu ir falar de Moçambique.”

Jorge Jardim, que por essa altura tinha em curso uma campanha internacional de promoção de Moçambique, acaba por ceder. Carmo foi aceitar o prémio. Um ano depois, por exigência do pai, foi mesmo fazer um curso de combate com as forças especiais. Era a condição para poder fazer o que ela tanto desejava: acompanhá-lo numa missão secreta.
E conseguiu mesmo. Em 1973 foi com o pai a Lusaka, na Zâmbia, naquele que seria o plano mais importante e arriscado na vida de Jorge Jardim. Um plano que, mais tarde, o iria condenar ao isolamento.
A saída forçada de Moçambique
Com a revolução de 1974, tudo mudou para a família Jardim. Jorge Jardim, que estava em Lisboa no dia 25 de abril, é alvo de um mandado de captura por parte do novo poder revolucionário e impedido de entrar em Moçambique. A mulher e parte das filhas saem do território rumo ao vizinho Malawi, antes de finalmente viajarem para Portugal. Carmo Jardim e duas das irmãs são as últimas a abandonar Moçambique, já em dezembro de 1974.
“Nós não somos retornados, como toda a gente nos chama. Não é verdade. Quanto muito, podem chamar-nos de ‘refugiados’, porque nós pertencíamos a Moçambique. Nós éramos moçambicanos, de alma e coração. Muitos nasceram lá, metade da minha família nasceu em Moçambique. Portanto, éramos todos moçambicanos. Éramos portugueses porque éramos portugueses, porque Moçambique era uma colónia de Portugal. Mas, na realidade, nós éramos moçambicanos. Sentíamos Moçambique como moçambicanos.”
Depois de abandonar Moçambique, Carmo ainda foi para a África do Sul com o irmão Carlos Frederico para cumprir o sonho de tirar o curso de piloto de aviação comercial, que não chegou a acabar. O pai tentou convencê-la a regressar à Europa, mas Carmo queria continuar em África. Começou por trabalhar como rececionista de um banco, passou depois a secretária. Em 1977 entrou no mundo automóvel: trabalhou primeiro como relações públicas na FIAT da África do Sul, até aceitar finalmente um convite para ir para a Europa.
Em 1978 torna-se na primeira mulher vendedora de automóveis em Portugal. Desse tempo, uma história ficou famosa entre os colegas homens: o dia em que apareceu equipada para um jogo de futebol de salão e levou as irmãs a fazer de equipa técnica, com direito a treinadora e massagista. Continuou a carreira no setor e chegou a relações públicas da Autoeuropa, cargo que ocupou até se reformar.
Carmo Jardim nunca perdeu a ligação a Moçambique. Apesar de as irmãs só terem conseguido voltar em 1995, mais de 20 anos depois de terem sido forçadas a abandonar o território. Em 2003, fundou mesmo uma organização, a “SIM — Solidariedade Internacional a Moçambique”, que se dedica a projetos de desenvolvimento e promoção da educação, em especial na ilha do Bazaruto. E garante: “Eu sou moçambicana de alma e coração e penso Moçambique como moçambicana. Continuarei sempre a pensar como poderei ajudar Moçambique.”
A “Tia” mais famosa do país
Depois da vinda para Portugal, foram várias as irmãs Jardim que se destacaram no panorama social. Entre elas, a mais conhecida é Cinha Jardim. Maria da Graça, ou “Gracinha” — de onde vem o diminutivo pelo qual é hoje conhecida — é a nona dos treze irmãos. Tinha 18 anos quando a família Jardim teve de deixar Moçambique.
No final dos anos 80 casou-se com Raul Leitão, conhecido empresário do Porto, e desse casamento nasceram as suas duas filhas: Catarina Jardim Leitão, mais conhecida por “Pimpinha”, e ainda “Isaurinha”, cujo nome de registo é Carolina Jardim Leitão. Acabaria por se divorciar nos anos 90 e por ter uma relação mediática com o político Pedro Santana Lopes, antigo líder do PSD e atual presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, com quem esteve 7 anos. Anos mais tarde, uma relação com o milionário norte-americano William Hasselberg iria igualmente chamar a atenção das revistas.
A atenção social levou-a também à televisão. Participar duas vezes no programa “Big Brother Famosos”, e ficou conhecida como a “Tia” mais famosa do país. Hoje em dia continua presente na televisão, como comentadora de reality shows e de assuntos do social.
Outras irmãs, como “Mituxa” ou “Xenica” Jardim, aparecem também com frequência nas revistas do social. Mas, afinal, como se chamam verdadeiramente? E como adoptaram estes nomes? Patucha Jardim diz que alguns terão surgido por influência do pai, que achava graça a que não soubessem o verdadeiro nome das filhas. Tornavam-se quase até como nomes de código de agentes secretos, um mundo que Jorge Jardim conhecia por dentro. “Ele gostava, porque de repente já ninguém sabia ao certo como é que nós nos chamávamos realmente. E, a partir de certa altura, nós próprias é que já fazíamos muita questão que não soubessem como é que nos chamávamos. Passou a ser quase como uma brincadeira.”
“O Misterioso Engenheiro Jardim” é o novo Podcast Plus do Observador. Conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music]. Os assinantes Standard e Premium têm acesso antecipado a todos os episódios.
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