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(A) :: Socialistas pressionam líder a não descartar opositores. Ex-ministros devem ser incluídos

Socialistas pressionam líder a não descartar opositores. Ex-ministros devem ser incluídos

Pedro Nuno Santos fecha listas de deputados na próxima semana, com socialistas alerta sobre necessidade de responder a governantes do PSD com nomes socialistas de peso. Assis põe Carneiro em Braga.

Rita Tavares
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Na última semana, durante uma entrevista à CNN Portugal, Pedro Nuno Santos disse uma frase que fez soar campainhas em alguns socialistas. Ao revelar querer dar palco, nas listas de deputados, a “uma segunda linha de governantes, secretários de Estado”, levantou-se a dúvida: irá o líder aproveitar para afastar alguns os ex-ministros que restam do costismo? José Luís Carneiro já disse que isso seria “inaceitável” e, ao Observador, Francisco Assis acrescenta que essas figuras têm de ir nas listas.

O eurodeputado socialista até começa pelo círculo eleitoral que encabeçou nas legislativas de há um ano, para dizer que, desta vez, “havia dois excelentes nomes para o Porto: Fernando Araújo e José Luís Carneiro. O líder do partido optou por colocar Fernando Araújo no Porto e manter José Luís Carneiro em Braga, garantindo deste modo que os dois maiores distritos do Norte serão encabeçados por figuras de grande prestígio nacional.”

O nome de Carneiro ainda não está fechado por Braga. Ao que o Observador apurou, não existiu qualquer conversa do líder nesse sentido até agora — Pedro Nuno Santos irá ocupar-se de alguns desses contactos nos próximos dias –, mas Assis defende que o nome do adversário de Pedro Nuno nas diretas “é uma evidência. O que mudou de há um ano para cá para que ele não fosse?”, questiona ainda classificando o socialista como “uma figura altamente prestigiada”.

Carneiro está disponível para entrar nas listas como cabeça de lista e, em entrevista ao programa Vichyssoise na rádio Observador, até disse que existem apenas dois círculos que poderia encabeçar: Porto e Braga. O anúncio de que esse lugar, no Porto, já está ocupado por Fernando Araújo deixa apenas a solução de Braga em aberto. Carneiro não estará disponível para outro círculo eleitoral, nem para ir outro lugar que não o cimeiro.

https://observador.pt/programas/vichyssoise/lideranca-do-ps-ainda-sou-novo-para-me-excluir/

Ao que o Observador apurou junto da direção do partido, o secretário-geral não pretendeu excluir ex-ministros quando se referiu apenas à “segunda linha de governantes”, na entrevista da CNN, e é provável que os inclua nesta frente de batalha, tendo mesmo conversas já previstas com alguns, como é o caso do ex-ministro das Finanças e também um crítico interno de Pedro Nuno, Fernando Medina.

A última semana foi de sessões — que vão continuar no início da próxima — para alterar o programa eleitoral de há um ano e adaptá-lo às legislativas atuais. Serviu também para desfilar nomes, mais ou menos independentes, e de onde já saiu um nome de peso. O ex-diretor executivo do SNS (que saiu em desacordo com a linha que o Governo pretendia para o setor), Fernando Araújo, já tinha colaborado noutras preparações de programas eleitorais do PS, com António Costa, por exemplo. No último Governo de Costa, o antigo presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar Universitário São João, no Porto, chegou mesmo a ser apontado ao cargo de ministro da Saúde, mas acabou por ficar reservado para outro posto, aquele que o primeiro-ministro de então queria criar para gerir o SNS — o que aconteceu em outubro de 2022, um ano antes da queda desse executivo.

Braço de ferro na Saúde

O nome é bem visto dentro do partido que entende ser importante a escolha de alguém de peso numa área onde o PS vê uma ministra da Saúde muito fragilizada. Aliás, Pedro Nuno Santos já usou o nome de Araújo para um braço de ferro eleitoral com a AD, ao desafiar esta sexta-feira durante uma visita à Futurália, em Lisboa: “Eles têm a Ana Paula Martins, nós temos o Fernando Araújo.” Referia-se à lista de deputados para onde escolheu Araújo, contrapondo “uma figura consensual na sociedade portuguesa, que inspira confiança e segurança aos portugueses”, Araújo, a “um dos exemplos máximos da incompetência deste Governo em resolver os problemas”, Ana Paula Martins.

Mas do que a questão de Hernâni Dias — cuja escolha para cabeça de lista da AD das legislativas levanta dúvidas no próprio PSD –, Pedro Nuno Santos aparece mais interessado em explorar o flanco Ana Paula Martins. “Pedro Nuno Santos tem de provar que consegue atrair personagens de peso em áreas como a Saúde, Administração Interna, Finanças ou fundos comunitários”, argumenta um dirigente do partido em conversa com o Observador sobre o que seria aconselhável o PS mostrar com a escolha dos cabeças de lista.

O nome de Araújo parece entrar neste esquema, embora um socialista também acrescente ao Observador o problema reputacional para o partido de candidatar alguém que, em caso de derrota do PS, possa não estar interessado em permanecer no cargo de deputado ao qual se candidato e renuncie logo depois de eleito — isto porque Araújo é visto como um ministeríavel, mais do que um parlamentar. Aliás, foi essa mesma dimensão da figura que Pedro Nuno Santos explorou quando o convidou para estar na sessão de esclarecimento dedicada à Saúde desta semana: foi o ministro sombra do PS que fez o resumo da discussão, no fim da reunião do painel.

Não terá sido o único nome que o líder socialista levou à sede do PS com essa intenção. O nome de Elisa Ferreira também saltou à vista de alguns socialista — foi também ela que fez o resumo do debate do dia — e um deles coloca mesmo a antiga comissária europeia como um bom nome para cabeça de lista. Mas a antiga comissária Europeia, que esteve no painel de discussão dedicado à economia, é do Porto. “Teria de ser no Porto”, comenta outro socialista sobre o círculo já ocupado pelo ex-CEO do SNS.

Vieira da Silva deve repetir. Saída de mulheres do topo é problema

Se o caso da Saúde e do Porto parecem ficar resolvidos com Fernando Araújo, há outros nomes e círculos por decidir, um deles é o de Lisboa onde há um ano Pedro Nuno Santos colocou um nome influente do costimo, Mariana Vieira da Silva. A ex-ministra da Presidência e um dos elementos permanentes do núcleo duro de Costa desde 2015 é um nome que é visto no partido como “natural” que se mantenha no mesmo lugar por onde concorreu nas últimas legislativas. Bem como Marina Gonçalves, a ex-ministra da Habitação lançada por Pedro Nuno Santos, que deverá voltar a liderar a lista em Viana do Castelo.

Nas últimas legislativas, Pedro Nuno Santos vangloriou-se de ter dez mulheres cabeças de lista em 20 círculos da sua decisão (os outros dois, Madeira e Açores, são escolhidos pelas estruturas regionais e o secretário geral não tem intervenção). Com a regra não escrita (mas que tem sido acolhida) de não candidatar nas legislativas candidatos a presidências da Câmara, Pedro Nuno perdeu, de uma assentada, quatro mulheres que tinham sido cabeças de lista em 2024. E ainda Ana Catarina Mendes, que foi para o Parlamento Europeu em junho passado.

E esse não é o único problema a que o líder do PS tem de acudir. Ao todo, há sete elementos importantes das últimas eleições que não vão poder repetir nestas, seja porque são agora candidatos a presidências de câmara, sejam porque nas Europeias seguiram para o Parlamento Europeu.

Nestes dois grupos estão, como já foi referido, Alexandra Leitão, a candidata a Lisboa que há um ano tinha sido cabeça de lista por Santarém, Ana Mendes Godinho, candidata a Sintra que liderou lista da Guarda, Ana Abrunhosa, concorre à Câmara de Coimbra depois de nas últimas legislativas ter encabeçado a lista do distrito. Mas também está Isabel Ferreira, que também foi cabeça de lista pelo distrito de Bragança e agora é candidata à câmara, e ainda Nelson Brito, que também fez o mesmo movimento mas em Beja. Cinco nomes fora. Isto além dos dois cabeças de lista que entretanto seguiram para o Parlamento Europeu: Ana Catarina Mendes e Francisco Assis, que em 2024 lideraram as listas de Setúbal e Porto, mas agora são eurodeputados e não estão disponíveis para interromper esse mandato, segundo confirmou o Observador junto dos próprios.

Quanto à lógica da “segunda linha de governantes”, há alguns nomes apontados a cabeças de listas, como é o caso de António Mendonça Mendes. O ex-secretário de Estado Adjunto de Costa, que faz parte da direção de Pedro Nuno Santos, aparece como provável em Setúbal (onde já liderou a federação distrital). João Paulo Rebelo, que no passado foi secretário de Estado da Juventude e do Desporto​​, é referido para Viseu — embora no distrito existam alguns problemas por resolver, o que também tem implicações na questão da paridade.

Para conseguir ter, num círculo onde o PS elege três deputados, João Paulo Rebelo, a nova líder da JS, Sofia Pereira, e ainda Armando Mourisco, que é o novo presidente da federação distrital e também autarca em fim de ciclo (em Cinfães), Elza Pais, que foi cabeça de lista por Viseu nas últimas eleições. Entretanto, Mourisco fez um comunicado nas últimas semanas que irritou o líder, ao pressionar não só a sua presença na lista, como também a de João Azevedo — e como cabeça de lista. Ora, Azevedo, que é atualmente deputado, é candidato à câmara de Viseu. Existe alguma expectativa sobre a decisão final de Pedro Nuno.

A trama de Viseu pode fazer com que Elza Pais, a presidente das Mulheres Socialistas que também já foi Secretária de Estado da Igualdade, transite para outro círculo, como de Leiria. Nesse caso, Pedro Nuno Santos teria de encaixar Eurico Brilhante Dias, o antigo líder parlamentar e secretário de Estado da Internacionalização que há um ano foi por Leiria, noutro círculo e num lugar de relevo.

A partir desta sexta-feira as votações das listas de deputados começam a rolar nas estruturas distritais do partido que já sabem que têm de deixar em aberto o lugar do topo da lista e um terço dos lugares elegíveis — que são escolhas do secretário-geral. Os lugares deixados em aberto vão ser fechados por Pedro Nuno Santos nos próximos dias e levado à comissão política nacional que está prevista para quarta-feira. Uma hora antes serão apresentados ao secretariado nacional. O tempo corre até ao dia 7 de abril, data limite para os partidos entregarem as listas de candidatos completas perante o juiz presidente do tribunal de cada comarca. Pedro Nuno — já se sabe — irá entregar a sua em Aveiro, círculo por onde voltará a ser cabeça de lista.