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(A) :: A transformação do Partido Republicano e a proposta americana 

A transformação do Partido Republicano e a proposta americana 

Uns EUA mais fracos na ordem mundial, ou que assim se veem, encorajam os Estados em que confiam a ganharem maturidade, recomendando-lhes avanços e medidas de acordo com o continente em que se inserem.

Lourenço Ribeiro
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A adesão crescente ao “não-intervencionismo”: o Tea Party, Ron Paul e Pat Buchanan

O actual presidente norte-americano, Donald J. Trump, pertence a uma geração de Republicanos que se tenta o menos possível de respostas efetivas às principais preocupações do povo americano, especialmente das bases de apoio do seu partido, que foram cruciais, ainda na primeira década deste século, para a fundação e mobilização do Tea Party. Este movimento rebelde deve a sua existência a muitos militantes do Partido Republicano dos Estados Unidos da América (EUA), principalmente àqueles que mais se opuseram às propostas de imigração do ex-presidente George W. Bush e que fizeram lobby para que os congressistas republicanos impedissem os resgates bancários ainda avançados pelo então presidente dos EUA.

Em primeiro lugar, o Tea Party era conhecido por apoiar candidatos “anti-sistema” (ou “anti-e), geralmente defensores de uma economia impulsionada pela oferta (“supply-side economics”) e, por vezes, apegados a teorias da conspiração, como foi o caso da discussão sobre o local de nascimento do então presidente norte-americano Barack Obama. Em segundo lugar, o movimento era contra a imigração ilegal, e muitos dos seus membros chegaram a dar parabéns ao congressista Joe Wilson por ter protestado, durante um discurso de Barack Obama no Congresso dos EUA, contra a eventualidade de imigrantes ilegais se tornarem elegíveis para as coberturas de seguro de saúde abrangidas pelo Obamacare. Por último, e aqui chegamos ao ponto mais importante para o tema que tratamos, o Tea Party era não-intervencionista e unilateral. O então senador do Kentucky, Rand Paul; o então senador do Utah, Mike Lee; e o então senador do Texas, Ted Cruz, eram críticos frequentes da intervenção dos EUA no exterior.

Além do destaque que o Tea Party teve na política norte-americana, não devemos esquecer que a candidatura do então congressista “anti-guerra” do Texas, Ron Paul (pai de Rand Paul), foi uma evidência de como muitos eleitores e militantes Republicanos, especialmente os mais jovens, desejavam afastar-se de um partido à imagem de George W. Bush. Nas palavras do jornalista norte-americano, ex-editor sênior da revista Weekly Standard, editor da revista Claremont Review of Books e escritor, Christopher Caldwell, “Paul representa um Partido Republicano diferente daquele que azedou o país com o Iraque, os deficits e a corrupção”. Tal como Pat Buchanan, que enfrentara George H.W. Bush vinte anos antes nas primárias do Partido Republicano, Ron Paul opunha-se ao “globalismo” e à política externa “neoconservadora”. Segundo Matthew Continetti, cujo tempo e esforço para escrever o livro “The Right: The Hundred-Year War for American Conservatism” agradeço, inclusive pelas informações que essa obra me forneceu (para o presente artigo e muito mais), a duração e os custos associados à Guerra do Iraque, que começara em 2003, esgotaram a paciência do público americano e de uma parte importante das bases do movimento conservador e do Partido Republicano.

Um Partido Republicano mais “isolacionista”: algumas sondagens

A propósito do crescente ceticismo dos eleitores do Partido Republicano em relação às “aventuras no exterior”, o professor de Ciência Política da Universidade de Irvine (no sul da Califórnia), Michael Tesler, analisou algumas pesquisas de opinião realizadas entre 2022 e 2023. Essa análise encontra-se no artigo de sua autoria, “The Remarkable Rise of Isolationist Republicans”, publicado a 20 de Setembro de 2023 no Good Authority, um website norte-americano de ciência política.

Segundo uma pesquisa de rastreamento de dados da Civiqs, uma empresa de pesquisa de opinião e análise de dados norte-americana, disponível no artigo de Tesler, os eleitores do Partido Republicano — se considerarmos os registados desde 2015 — revelam-se cada vez mais “isolacionistas”. Isso significa, entre outras tomadas de posição, que os eleitores republicanos se opõem cada vez mais a apropriações militares e financeiras para ajudar os ucranianos a repelir as forças russas. Essa pesquisa de rastreamento, baseada numa amostra superior a 300 mil eleitores registados, foi consultada em Agosto de 2023.

Entre 2015 e 2023, a proporção de eleitores republicanos que responderam “sim” à pergunta “deveriam os EUA envolver-se menos na resolução de problemas no exterior?” aumentou consideravelmente. No ano em que Donald J. Trump anunciou sua candidatura à presidência dos EUA (2015), apenas 30% desses eleitores responderam afirmativamente à questão, enquanto que, para os eleitores democratas, o valor foi de 52%. No ano seguinte, os valores para os eleitores de ambos os partidos aproximaram-se, tendo ficado ligeiramente abaixo dos 48%. No entanto, a discrepância entre os eleitores republicanos e democratas foi aumentando, e, em 2023, 77% dos eleitores do Partido Republicano responderam afirmativamente, enquanto apenas 33% dos eleitores do Partido Democrata fizeram o mesmo.

Tendo em conta o rastreamento de dados recolhidos entre Fevereiro de 2022 e Junho de 2023, retirados de sondagens produzidas pela Universidade de Quinnipiac, vemos uma evolução semelhante, pelo menos relativamente aos eleitores de um dos maiores partidos norte-americanos, no que toca à pergunta “os EUA estão a fazer demasiado para ajudar a Ucrânia?”.

Em Fevereiro de 2022, apenas 6% dos eleitores do Partido Republicano responderam afirmativamente a essa questão, um valor apenas ligeiramente superior ao dos eleitores do Partido Democrata. Enquanto que a percentagem dos eleitores democratas que responderam “sim” à questão, de Junho de 2022 a Janeiro de 2023, se situou sempre entre os 10 e os 15%, a percentagem de eleitores republicanos ascendeu: em Junho de 2022, essa percentagem foi de cerca de 35% e, em Janeiro de 2023, alcançou os 50%. Foi em Junho de 2023 que se verificou a maior discrepância: se, por um lado, apenas 13% dos eleitores do Partido Democrata concordaram com a afirmação, já 55% dos eleitores do Partido Republicano estavam de acordo.

Para Tesler, essa evolução na perspectiva dos eleitores do Partido Republicano foi marcada pelas declarações de Donald Trump nos últimos anos, bem como pelos posicionamentos dos candidatos que se apresentaram nas primárias presidenciais do partido, como Vivek Ramaswamy e Ron DeSantis.

A teimosia dos aliados e o altruísmo da América 

Durante quase um século, os EUA foram vistos como uma superpotência exemplar em termos de orientação no exterior. A política externa e a diplomacia norte-americanas foram frequentemente descritas como uma mistura de “interesse nacional com princípio moral”. A América tem sido, de certa forma, a tribuna de um consenso bipartidário (entre Republicanos e Democratas) que, embora algo oscilante, é “adequado” para o mundo em que temos vivido, defendendo a “liberdade, a democracia e o estado de direito”, valores que tomamos por garantido depois da derrota do nazismo e da queda do comunismo em vários países da Europa Central e de Leste. É assim que o jornalista e investigador de assuntos do Médio Oriente, Daniel Pipes, no artigo “Let Argentina, Israel, Italy, Taiwan and Others Lead”, publicado a 22 de Outubro de 2024 no seu próprio website.

No entanto, para Pipes, esse consenso transpartidário e o consequente prestígio da América têm sido fragilizados por um Partido Democrata com “elementos barulhentos que desprezam os Estados Unidos”, e por um Partido Republicano que apresenta um “isolacionismo palpitante” como solução, realidade sobre a qual dissertei no início deste artigo. Segundo Pipes, o papel habitual de liderança e moralidade da América não parece ter sido um elemento importante de discussão para os candidatos à presidência dos EUA na última década. Portanto, o caminho a seguir, na administração Trump e nas vindouras, é o fortalecimento dos aliados dos EUA, tornando-os em Estados mais maduros. Pipes menciona alguns exemplos de como os aliados dos EUA trataram a sua relação com os EUA e a disponibilidade desta potência para os proteger, ajudar e salvar como garantidas.

Em 1997, na Dinamarca, o político Mogens Glistrup, advogado e líder do Partido do Progresso, defendeu o encerramento de todas as embaixadas dinamarquesas no exterior, a abolição do exército dinamarquês e a substituição do Ministério da Defesa “por uma gravação em russo dizendo ‘nós rendemo-nos'”.

Em 6 de novembro de 2015, o Center for East Asia Policy Studies, pertencente ao Brookings Institute, convidou David Straub para apresentar seu livro “Anti-Americanism in Democratizing South Korea”, no qual ele explora as atitudes dos sul-coreanos em relação aos EUA. Nessa apresentação, Straub faz uma descrição detalhada das manifestações e das origens (segundo o próprio autor) do anti-americanismo na Coreia do Sul, tentando refutar a ideia de que essa tendência surgiu exactamente com a eleição de George W. Bush à presidência dos EUA. O primeiro acontecimento que o académico menciona como determinante para o surgimento da oposição à presença dos EUA em território coreano foi a reação à absolvição de dois soldados norte-americanos que, no início de 2002, mataram acidentalmente duas alunas coreanas num acidente de trânsito, durante um exercício militar. Mais tarde, o major David S. Berry, que havia sido enviado de volta à Coreia do Sul para ajudar em atividades militares durante o Verão, foi esfaqueado perto de uma base militar em Yongsan. É possível que o atacante tenha sido influenciado pelo clima de anti-americanismo prevalecente na época e na região. Não foram registados protestos contra a Coreia do Sul nem manifestações de fúria e hostilidade contra o país asiático nos EUA, pelo menos não nas mesmas dimensões, o que indica que as expressões de anti-americanismo se podem guiar por critérios inconstantes e pouco definidos. As críticas do presidente George W. Bush à “Política do Sol”, também conhecida como “Política de Reconciliação e Cooperação com o Norte” (a Coreia do Norte, também levaram muitos setores da sociedade civil e da política sul-coreanas a questionar a aliança com os EUA.

Até 2003, os vizinhos do Iraque de Saddam Hussein evitaram tomar decisões para conter os avanços do ditador iraquiano, especialmente sobre o Kuwait e o Curdistão, tendo deixado essa responsabilidade aos EUA (em 1991 e em 2003) , ao mesmo tempo que criticavam Washington por tê-la assumido. Aliás, devemos agradecer a Georges Sada, conhecido como General Georges no Iraque, por ter publicado o livro “Saddam’s Secrets: How an Iraqi General Defied and Survived Saddam Hussein”. Nesse livro de 2006, o general cristão e ex-conselheiro do ditador iraquiano revela informações que, até hoje, são escandalosas para quem se lembra do número de pessoas que, na época, tanto se empenhavam em classificar George W. Bush, Dick Cheney, Donald Rumsfeld e Tony Blair como criminosos de guerra: “(…) antes e depois da Segunda Guerra do Golfo (…) Saddam tinha mandado nossas equipas de armas esconder as Armas de Destruição em Massa (WMDs) em locais que nenhum comandante militar ou inspetor de armas das Nações Unidas poderia esperar encontrá-las. Portanto, seria para escondê-las nas escolas, em casas privadas, em bancos, em escritórios empresariais e até em camiões que se deslocavam constantemente de um extremo a outro do país. E então o destino interveio.” Sada também revela o plano de Saddam Hussein para atacar Israel em 1990 com tabun, um agente nervoso gasoso, e sarin, um composto organofosforado também usado como arma química e, possivelmente, ainda mais potente sobre o sistema nervoso.

Depois do mundo americano: uma liderança mais difusa do mundo livre?

De acordo com Pipes, uns EUA mais fracos na ordem mundial, ou que assim se veem, encorajam os Estados em que confiam mais a ganharem maturidade, recomendando-lhes passos, avanços e medidas de acordo com o continente ou a região em que se inserem. Aos seus aliados europeus, impulsiona-os a reformarem os seus sistemas de segurança social e de estado-providência, de forma a reconsiderarem a despesa pública em subsídios, reformas e pensões e acordarem para a realidade do abuso da força por parte de outros estados. No Médio Oriente, já alcançaram acordos de normalização (os Acordos de Abraão) que se traduziram numa aliança formada por países como Israel, a Arábia Saudita, os Emiratos Árabes Unidos e o Bahrein contra as provocações do Irão e dos seus “proxies”.  No Sudeste Asiático, esforça-se por formar uma aliança contra a China, que abranja o maior número de países possível, costumando contar com Singapura, o Japão, a Coreia do Sul, Taiwan, Vietname, Índia e Filipinas para reconhecerem a existência de uma ameaça comum.

Pipes tem esperança, portanto, numa “liderança difusa entre a Argentina, Israel, Itália e outros” que venha a “fortalecer o mundo livre”. Eu partilho essa esperança, partindo do princípio de que a América não pode voltar a ser “grande” como outrora. A questão de saber se os EUA estão em declínio ou não é uma outra questão importantíssima, mas que não pretende ser tratada no presente artigo.

Conclusão 

Segundo Continetti, no início da década passada, “o desafio do Partido Republicano era encontrar uma maneira de aproveitar a energia populista do Tea Party, enquanto a integrava numa agenda partidária que pudesse atrair os eleitores suburbanos que tinham fugido das guerras de George W. Bush e do estouro da bolha imobiliária”, além de apostar na “crítica dos custos dos programas de Obama e da falta de um rápido crescimento do emprego”, e na denúncia da “visão de Obama” como uma que colocaria os EUA “num caminho para a insolvência”. Entretanto, em 2015, apareceu Donald Trump. Na minha opinião, o que o actual presidente dos EUA tem tentado fazer é conciliar a desilusão de muitos eleitores conservadores e do Partido Republicano, visto por muitos deles como um partido envolvido no começo e na perpetuação de guerras desnecessárias, com a necessidade de preservar, durante o maior tempo possível, o estatuto da América no mundo. Se esta proposta americana está a registar resultados positivos, é uma questão que merece seriamente ser discutida. Julgo já ter contribuído para essa discussão no meu artigo “O isolacionista Trump e outras fábulas”,  e noutros artigos em que comento episódios fundamentais das decisões de política externa tomadas pela administração Trump, nomeadamente as que dizem respeito à guerra russo-ucraniana.