Não é preciso ser um predestinado para constatar que qualquer paleoantropólogo que se preze precisa de perceber de anatomia para conseguir fazer o seu trabalho — de outra forma, deparando-se com restos mortais num sítio arqueológico, como seria capaz de distinguir uma tíbia de um perónio, um rádio de um cúbito? Ou como conseguiria, estudando os ossos dos nossos pés, aferir a evolução que fez de nós, seres humanos, capazes de andar apenas sobre dois membros? Juan Luis Arsuaga, pela natureza da sua profissão, conhece cada recanto do nosso corpo — e quer que nós o conheçamos também.
Na obra anteriormente publicada em Portugal — Vida, a Grande História — o investigador espanhol tentou explicar de forma exaustiva o processo evolutivo da vida no nosso planeta, e mais concretamente, como é que nós, seres humanos, viemos aqui parar. Professor Catedrático de Paleontologia na Universidade Complutense de Madrid, diretor científico do Museu da Evolução Humana de Burgos e responsável por algumas das mais importantes descobertas de fósseis que nos ajudaram a perceber o percurso da humanidade, Arsuaga encontrava-se assim numa posição privilegiada para tal iniciativa. “Neste livro está toda a minha carreira”, assumiu quando esteve em Lisboa para apresentá-lo.
Em O Nosso Corpo, porém, ressaltam outras facetas do intelectual. Uma é o fã de arte clássica que se habituou desde pequeno a ir ao Museu do Prado, em Madrid, admirar algumas das mais perfeitas representações do corpo humano que os artistas antigos nos deixaram. Outra, de mãos dadas com a primeira, é a do epicurista que acha que, conhecendo e dominando a nossa fisionomia, somos capazes de fruir melhor a nossa vida.
“Este é o primeiro livro de anatomia alguma vez escrito para ser lido, do princípio ao fim”, afirma Arsuaga em entrevista ao Observador. Neste tomo, o investigador aborda todas as partes do nosso corpo, explicando como é que assim ficaram a partir de uma perspetiva evolutiva — por exemplo, como é que os nossos pés desenvolveram uma arquitetura própria para caminhar, quando os nossos antepassados se limitavam a pouco mais do que trepar às árvores. E, mais do que isso, escreve de uma forma didática, pedindo aos leitores que parem de ler para massajarem o corpo para perceberem onde fica o músculo gastrocnémio ou o esternocleidomastoideu.
Para tal, Arsuaga faz uma ponte entre a ciência, as humanidades e a arte, recorrendo às esculturas do passado para demonstrar que o mundo greco-romano, por exemplo, tinha uma relação mais saudável com o corpo humano do que nós. “Com este livro, quis falar do corpo humano sem preconceitos e sem tabus, e também falar do corpo humano na arte, que considero muito importante. Por outras palavras, recuperar esse espírito clássico, do corpo humano como algo digno de admiração e que vale a pena contemplar e conhecer. As pessoas não sabem nada sobre o seu corpo, mesmo que o tenhamos estudado. Na escola explicam-nos o corpo, mas essa explicação não funciona, porque estão a falar do corpo de outra pessoa. A única coisa que funciona é a nossa auto-exploração, o facto de conhecermos o nosso próprio corpo”, defende.
Ao longo desta conversa, o investigador espanhol refere-se ao nosso corpo como uma “máquina tão perfeita que quase não precisa de combustível, quase não consome calorias” — razão pela qual, enquanto espécie, temos dificuldade em perder peso — e rejeita a ideia de que os avanços tecnológicos irão alterar a nossa fisionomia no futuro. “A tecnologia está a tornar-se cada vez mais humana, os humanos não se estão a tornar cada vez mais máquinas”, declara.

Como paleoantropólogo, é natural que o corpo humano esteja no centro do seu trabalho e do seu pensamento, mas porquê dedicar uma obra tão aprofundada a este tema em concreto?
Bem, eu digo que este é o primeiro livro de anatomia alguma vez escrito para ser lido, do princípio ao fim. Ninguém lê um livro de anatomia — é consultado ou estudado. Nunca ninguém escreveu um livro de anatomia para ser lido pelo público em geral. É curioso. Nunca ninguém o escreveu assim na história, não tem precedentes.
Vida, a Grande História parece ter sido um resumo do seu percurso profissional, enquanto O Nosso Corpo é uma ode aos temas que abordou. Há aqui uma componente de fruição. Parece-lhe uma análise justa?
Sim, sim, desfrutei muito de escrevê-lo. Além de que hoje estamos rodeados de anatomia. Nas páginas dos jornais desportivos somos informados de que um futebolista sofreu um problema num músculo isquiotibial, por exemplo, ou no reto anterior da coxa ou nos adutores. A anatomia já faz parte da imprensa desportiva, mas se formos a um ginásio fazer pilates, aprendemos muito também. Por isso é que digo que as avós dos meus alunos sabem mais de anatomia do que eles. Porque só de ir ao pilates, falam sobre o “core” e sobre os músculos que lá estão. E agora também trabalha-se muito com um termo de que gosto, que é a “propriocepção” — por outras palavras, sentirmos o músculo que estamos a usar. Por isso, hoje em dia, há anatomia por todo o lado. E depois há ainda a anatomia da dor — por exemplo, aquela quinta vértebra lombar que causa tantos problemas. Portanto, estamos rodeados de anatomia na vida, mas nunca antes foi escrito um livro em que esta fosse contada de uma perspetiva evolutiva.
Uma frase importante que emprega logo no início do livro é “a evolução não procura, encontra”. Como é que este princípio se relaciona com o desenvolvimento da nossa anatomia?
É exatamente assim que as coisas são. A evolução produz máquinas: máquinas que voam, máquinas que correm, máquinas que nadam, máquinas biológicas perfeitas, mas não há ninguém que as faça e não há um objetivo. Este é o grande paradoxo e é a grande descoberta de Darwin, que sem objetivo é possível construir uma máquina perfeita. Parece ilógico, contra-intuitivo até, e é por isso que a maioria das pessoas tem dificuldade em aceitar. E eu compreendo-as. Quando falo com os negacionistas, digo-lhes “sim, compreendo-vos”. É muito difícil compreender que a natureza, sem um engenheiro, sem um criador, tenha sido capaz de produzir máquinas tão perfeitas como um golfinho, por exemplo. Eu compreendo as dúvidas, mas se derem o vosso tempo, eu explico. O próprio Darwin enfrentou estes problemas, a perfeição das máquinas biológicas em relação a Darwin tinha a ver com a adaptação, porque elas não são boas nem más, só têm de ser boas para o seu nicho ecológico. Um morcego não é melhor ou pior do que um golfinho, é um morcego melhor e um golfinho é um golfinho melhor. Então, como é que a natureza pode fazer isto sem um objetivo e sem uma inteligência por detrás? Ou os seres humanos, por exemplo. É de facto inacreditável, mas é a verdade.
Pergunto isto também porque, ao longo do livro, descreve como os nossos corpos se adaptaram para se tornarem máquinas incrivelmente eficientes. De que forma chegámos até aqui?
Enquanto espécie, somos eficientes sobretudo porque somos inteligentes e temos linguagem. Isso é óbvio. Mas o corpo humano, como máquina, tem grandes capacidades de manipulação. Se tivesse de descrever o corpo humano como uma máquina, diria a uma pessoa para ir ao ginásio e usar aquelas máquinas chamadas elípticas. Conhece-as?
Sim, são para caminhar.
E mexer os braços também. Têm um ecrã e têm graus de dificuldade. Podemos programar para meia hora, por exemplo, e é um esforço extenuante, muito cansativo. E quando acabamos, olhamos para o ecrã e vemos o número de calorias que gastamos, 200, menos do que uma Coca-Cola. Porquê? Porque o nosso corpo é uma máquina tão perfeita que quase não precisa de combustível, quase não consome calorias. Essa é a medida da perfeição — o facto de sermos uma máquina capaz de percorrer distâncias muito longas com muito pouco gasto de energia. Essa é a máquina humana.
Muitas pessoas pensariam que essa eficiência energética é ao mesmo tempo ineficiente, porque é muito difícil perder peso. Será porque nos afastámos da forma como devemos utilizar o nosso corpo?
Não, não. É porque o corpo humano é uma máquina, é como um carro que consome muito pouco combustível, por isso a única maneira de perder peso é passando fome, é não comendo. O exercício físico pode contribuir e, claro, é muito saudável, mas o facto de não conseguirmos queimar gordura correndo longas distâncias é a prova de que a máquina é muito eficiente, consome muito poucas calorias. Portanto, não há outra forma de perder peso senão deixar de comer.
Refere como a evolução atua de forma arbitrária, no sentido em que não existe um desígnio para que as coisas aconteçam da maneira como acontecem. Onde é que isso nos coloca a nós, humanos?
Bem, coloca-nos como uma outra espécie, mas uma espécie muito particular, porque fazemos perguntas a nós próprios. Os animais não fazem perguntas. Somos a única espécie que faz perguntas, mas desde há apenas um milhão de anos. Foram precisos quatro mil milhões de anos de evolução para que aparecesse uma espécie, apenas uma, que faz perguntas. E podia só ter aparecido mais tarde, ou nunca ter aparecido, porque só existe uma após quatro mil milhões de anos de evolução. Portanto, sim, somos uma máquina que faz perguntas. Essa é a questão, porque as outras não o fazem. Caso contrário, seríamos iguais, mas sem perguntas.
Ao longo do livro, é muitas vezes pedido ao leitor que pare de ler e sinta a parte do corpo que está a ser abordada, seja o pé, seja o pescoço. Até que ponto estamos alheados da nossa anatomia?
Depende. Para começar, há um tabu no Ocidente. O corpo é um tabu e isso parece-me ser um retrocesso, por exemplo, em relação ao mundo grego. Para os gregos, o corpo não era um tabu; pelo contrário, era como a perfeição. Mas para nós, não se fala do corpo, está rodeado de proibições. Temos um problema com o corpo — se calhar mais até os mais católicos, não sei, isso teria de ser estudado. É muito curioso, porque chega o verão, vamos para a praia e despimo-nos, mas não falamos do corpo.
Temos uma diretiva biológica de atração pelo corpo alheio e, ao mesmo tempo, não queremos falar sobre isso?
Não queremos falar sobre isso porque é cultural, temos um conflito com o nosso corpo. O objetivo do livro é precisamente ultrapassar este conflito. Pelo menos nesta parte do mundo, temos uma relação conflituosa com o nosso corpo e isso não acontecia no mundo clássico, nem no Renascimento, nem mesmo na Idade Média. Quer dizer, a literatura da Idade Média falava do corpo e do sexo, por exemplo, com muito mais naturalidade do que agora. Atualmente, estes são assuntos dos quais não se fala.

Atrever-me-ia a dizer que é uma herança, por exemplo, da Inquisição, mas também da mentalidade vitoriana.
Sim, porque eram muito puritanos. Foi o puritanismo que nos deixaram no Ocidente. Temos uma relação com o corpo que não existia no passado. Quando se lê a literatura medieval, não há esse preconceito, no Renascimento ainda menos, e no tempo dos romanos e dos gregos não havia conflitos. Pelo contrário, o corpo era exibido na arte porque era considerado uma coisa bela e digna de admiração. Agora já não é visto dessa forma.
Estávamos a falar da nossa capacidade de refletir, de pensar. Somos seres simbólicos, e penso que há aqui outro paradoxo, que é o facto de esta capacidade simbólica ser o que nos tornou mais desenvolvidos, mas também nos afastou do mundo natural.
Sim, bem, também há culturas e culturas, mas agora, logicamente, a nossa distância da natureza é maior do que nunca na história. Isso é certo. Por isso, com este livro, quis falar do corpo humano sem preconceitos e sem tabus, e também falar do corpo humano na arte, que considero muito importante. Por outras palavras, recuperar esse espírito clássico, do corpo humano como algo digno de admiração e que vale a pena contemplar e conhecer. As pessoas não sabem nada sobre o seu corpo, mesmo que o tenhamos estudado. Na escola explicam-nos o corpo, mas essa explicação não funciona, porque estão a falar do corpo de outra pessoa. A única coisa que funciona é a nossa auto-exploração, o facto de conhecermos o nosso próprio corpo. E, felizmente, isso acontece cada vez mais no mundo do desporto, no mundo da vida saudável, da ginástica. Nesse aspeto, fala-se cada vez mais do corpo.
Permita-me a provocação, mas uma das ideias defendidas no livro é a de que devemos regressar à conceção greco-romana do corpo, quase como se este fosse o centro da nossa existência. Mas esta não é também uma das razões que nos conduziram ao atual estado de coisas em relação às alterações climáticas? Colocar o ser humano no centro de tudo não será também um problema?
Não, não é de todo incompatível. No livro, digo que quando vamos à praia no verão, voltamos à pré-história. Não há nada mais pré-histórico do que uma praia. Estamos quase nus na natureza, com a família, com a tribo — isso é a pré-história. O meu objetivo com este livro é que as pessoas conheçam o seu corpo. É muito simples, é epicurista, é seguir Epicuro. O corpo é livre, não custa dinheiro. Por outras palavras, a melhor maneira de ser feliz é prestar atenção àquilo de que gostamos, algo que é gratuito, mas à maneira de Epicuro. Quando vou à praia e as pessoas dizem que a água está fria, eu digo “aproveita esse frio”. Por outras palavras, sentir, ter um corpo. Se não tivéssemos um corpo, tudo seria muito mais insípido. Termos um corpo é uma dádiva.
Portanto, propõe uma vida mais sensorial — mais sensual, no verdadeiro sentido do termo?
Sim, mais simples. Tudo o que é bom nesta vida é de graça, não custa nada, nada. Um raio de sol, ver a chuva cair… Na verdade, a vida pode ser aproveitada muito mais com as coisas mais simples. Pretendo precisamente que se recupere a felicidade através das coisas mais básicas que temos na vida. Uma boa refeição também, uma bebida quando se tem sede, acima de tudo, uma boa conversa. Tudo isto não prejudica o planeta.
Um conceito muito importante que aborda é que começámos a encarar a natureza como uma máquina a partir do século XVII. De que forma é que isso desbloqueou a nossa forma de olhar para o nosso corpo?
Bem, é no século XVII que nasce a ciência. Nos séculos XVI e XVII, no Renascimento e no Barroco, descobriram que tudo era uma máquina, que o universo é uma máquina. Bem, já se sabia que os planetas seguem trajetórias, porque já havia antes astrónomos e eles sabiam que se podia prever e conhecer o comportamento dos corpos celestes. Mas foi nessa altura que os relógios começaram a ser usados e os cientistas descobriram que o mundo é com um relógio, é uma máquina que se rege pelas leis da mecânica — e da biomecânica, no caso do corpo humano. Portanto, esse é um grande desenvolvimento porque torna a ciência possível. Por outras palavras, este mecanicismo significa que as coisas podem ser formuladas matematicamente.
Nesta conceção do corpo como uma máquina, uma das evoluções mais importantes, e que descreve com grande pormenor, é a forma como nos tornámos bípedes, como os nossos pés…
E ainda não sabemos porque é que somos bípedes. Há muitas teorias que procuram uma explicação para a postura bípede. Mas, mais uma vez, temos de voltar à forma como a evolução funciona. Não somos bípedes por alguma razão específica. Se somos bípedes e estamos aqui, é isso, é porque sim. Não nos tornámos bípedes para alguma coisa. A evolução encontrou, sem querer, um tipo de primata bípede que sobreviveu.
Um aspeto interessante que aborda é o facto de descrever o Homo sapiens como uma espécie mais antiga do que, por exemplo, os Neandertais, mas que sobreviveu e os ultrapassou. Podemos ser considerados, de certa forma, um produto acabado ou aperfeiçoado para podermos sobreviver?
Sim, no sentido em que já não há seleção natural na espécie humana — ou melhor, já não há seleção natural orientada. Por outras palavras, há uma seleção natural — um feto ou um embrião que não esteja bem formado não sobrevive, há muita seleção natural no útero —, mas já não existe seleção natural direcional, já houve. Por exemplo, nós, os europeus, temos a pele branca porque há menos radiação solar aqui do que em África. É um exemplo de seleção natural direcional. Por outras palavras, os indivíduos de pele mais branca sobreviveram e os de pele mais escura não, nestas latitudes, porque tinham problemas de metabolismo do cálcio. Isso já não existe porque, por exemplo, as pessoas de pele escura que vivem na Suécia, por exemplo, tomam suplementos de vitamina C. Portanto, já não há seleção natural direcional.
Ou seja, montámos um aparato tecnológico que nos permite adaptarmo-nos à grande maioria das situações do planeta?
Sim, somos uma espécie universal. Bem, mas também já éramos. É o que explica as variações entre as populações, sobretudo na cor da pele, mas também consoante a altitude, por exemplo, quanto aos povos que estão adaptados a grandes altitudes. Portanto, sempre houve, o que acontece é que agora essa seleção já não é exercida e, portanto, não há uma direção para a evolução humana.
Quais são, na sua opinião, os maiores mistérios que ainda subsistem sobre o percurso evolutivo do nosso corpo?
Quando é que o fogo apareceu? É uma ótima pergunta. As pessoas pensam que a principal diferença entre humanos e animais é que somos mais inteligentes ou mais simbólicos, mas os animais também são inteligentes. Só somos únicos numa coisa: comemos alimentos cozinhados. Os animais são crudívoros, nenhum animal come comida que tenha sido preparada, cozinhada no fogo, seja cozida ou assada. Nós, humanos, somos a única espécie neste planeta que come alimentos preparados com fogo. A questão é perceber quando é que o fogo apareceu.
Mas aprendemos a manipulá-lo para esse fim, certo?
Sim, mas a questão é que comemos todos os dias, por isso devíamos ter fogo todos os dias. Isso deveria ser visível nos sítios arqueológicos, provas de um fogo permanente, mas isto é algo que tem apenas 200 mil anos, no máximo 300 mil anos. Então, antes disso, comíamos carne crua? Não é possível, não somos carnívoros, somos primatas, não é possível que os nossos antepassados tenham comido carne crua porque os primatas não comem isso. Portanto, tem de haver fogo, fogo permanente. Então, quando é que se deu o passo entre a comida crua e o oposto, a comida baseada em alimentos preparados, com fogo? Essa é uma grande questão para mim. Qual seria o oposto de um crudívoro?
Preparadívoro?
Bem, sim… Preparadívoro… Ou cozinhadívoro!
Um dos aspetos que se destaca neste seu trabalho é a forma como concilia o mundo da ciência com o das humanidades. Sendo um cientista, como se posiciona quanto à separação entre estas duas áreas?
Conciliação, é disso que gosto. Precisamente esta separação entre ciências e humanidades é algo que não faz sentido, é muito moderna historicamente e é muito nociva, muito prejudicial. Portanto, há esta barreira, mas é uma barreira que prejudica sobretudo o corpo. Vejamos, na separação mente-corpo, a mente é a coisa nobre, é a coisa espiritual, é o que se cultiva e o corpo não é importante, é biologia, é uma coisa ignóbil. Em Portugal e em Espanha, quando eu era jovem, os intelectuais detestavam o desporto. Achavam que era um embrutecimento. Ou seja, houve uma rejeição do corpo também por parte dos intelectuais, porque consideravam-no inferior. Não me lembro, não consigo imaginá-los a falar do corpo.
Mas é curioso porque, na passagem do século XIX para o século XX, temos em parte da burguesia e da aristocracia a conceção do “sport”, do “corpo são, mente sã”.
Um pouco, sim, mas não os intelectuais. Os nossos intelectuais eram fumadores, bebiam e desprezavam o cultivo do corpo e da natureza também. Não frequentavam a natureza. Por outras palavras, a mente era considerada superior e o corpo era animal, era a parte animal do ser humano. Claro que nem todos eram assim, e claro que foi nascendo esta ideia do desporto como algo compatível, mas não era universalmente aceite. Lembro-me que, quando era jovem, os intelectuais desprezavam o futebol. Não era considerado correto que um intelectual falasse de futebol ou do corpo.
De questões quanto ao passado para uma sobre o futuro, hoje criamos próteses, instalamos órgãos artificiais ou dispositivos como pacemakers, e isto parece ser apenas o início de uma era de hibridização entre homem e máquina…
Não me parece. Não acredito nisso, de todo. As máquinas estão connosco há muito tempo, desde que foram inventadas as ferramentas de pedra. Mas até agora e acredito que no futuro, as máquinas serão utilizadas para fazer coisas que não podemos fazer com os nossos próprios órgãos. As máquinas são externas ao corpo e não precisamos de as incorporar — posso ver à distância com binóculos, não preciso de modificar os meus olhos. Posso falar à distância com um telemóvel, não preciso de alterar nada.

Não acredita num futuro transumano?
Não, de todo. Porque trabalhamos com máquinas há vários milhões de anos. Como, por exemplo, usamos aviões para percorrer longas distâncias, não desenvolvemos asas. Portanto, não precisamos de incorporar máquinas. Eu não preciso de pôr um chip [na cabeça].
Mas já temos desenvolvimentos como o Neuralink, isso já está a apontar para esse futuro.
Não acredito nisso, é o oposto. É exatamente o oposto. A tecnologia está a ir ao encontro dos humanos, não os humanos ao encontro da tecnologia. Ou seja, a tecnologia está a tornar-se cada vez mais humana, os humanos não se estão a tornar cada vez mais máquinas. Todos aqueles que escrevem sobre a imortalidade, que dizem que seremos imortais, que seremos transhumanos, são aldrabões. Agora, eles têm muito sucesso. O que é interessante aqui não é que o que eles dizem vá ser verdade, o que é interessante é que as pessoas gostam.
Porque é que acha que isso acontece?
Porque as pessoas estão interessadas em histórias, acreditam em mudanças. Mas digo sempre: as pessoas não vão à Turquia para colocar chips, as pessoas vão à Turquia para pôr cabelo na cabeça. Não queremos ter antenas, queremos ter cabelo.
O que está a dizer é que a bitola continua a ser a do ser humano, os caracteres humanos?
A tecnologia vem ao encontro do ser humano. Ela facilita. Por exemplo, dentro de muito pouco tempo, falaremos na nossa própria língua e um chinês com um auricular compreender-nos-á. Mas ele vai ouvir-nos a falar chinês com a nossa voz. Não sei se já experimentou esses programas, mas é a nossa voz a falar outra língua. No futuro, acredito que ninguém vá aprender línguas.
Defende que ser cientista é, em parte, ir contra o pensamento dominante. Em que é que isso consiste, hoje em dia?
A ciência consiste em pensar ao contrário, em ir contra o senso comum. Se subirmos à Torre de Pisa e deixarmos cair uma pedra enorme e uma pedra pequena, o senso comum diz-nos que a pedra enorme chegará primeiro, mas não chega. Chegam ao mesmo tempo. Assim, a maioria das descobertas científicas vai contra o senso comum da intuição. A intuição engana-nos.
Uma das figuras mais recorrentes no livro é René Descartes, principalmente para evocar a sua rejeição do dogma. Acha que vivemos numa época dogmática?
Sim, mas não dogmática por imposição, é mais por manipulação, digamos, por simplificação. Não é que seja dogmática, o problema é que é simples. Tudo é simplificado. Por exemplo, tenta-se que todos os debates sejam a preto e branco, não é? Não há nuances, tudo é binário. Esquerda, direita. Portanto, isso é uma simplificação. Por outras palavras, vivemos numa sociedade com menos matizes. E, de certa forma, esta simplificação conduz ao dogmatismo, porque tudo é ou bom ou mau.
A esse respeito, vale a pena recuperar o tema da reconciliação da ciência com as humanidades. Já alertou em entrevistas para os problemas da hiper-especialização técnica. Cria uma espécie de visão em túnel?
Vejo esse problema todos os dias à minha volta e não só os biólogos, que são aqueles com quem mais interajo. Estes não só não conhecem ou desconhecem as humanidades, como também não conhecem a biologia, porque são tão especializados que só conhecem uma parte da sua área. Por isso, tem de haver livros, como este que escrevi, que nos tragam de volta a um quadro geral e para que não nos percamos nos pormenores. Atualmente, a especialização levou-nos ao ponto em que se pode receber um Prémio Nobel por descobrir uma molécula. Nem sequer é preciso saber biologia, apenas essa molécula.
Quando se estuda o mundo numa escala de milhões de anos, como é que se encara as mudanças de hoje
Bem, não sei… mas, por exemplo, o problema do clima, das alterações climáticas, estudamo-lo numa perspetiva temporal. Por outras palavras, estando preocupados ou alarmados com as alterações climáticas, a primeira coisa que fazemos é olhar para uma série histórica, para ver as alterações ao longo do tempo. Este é um bom exemplo de como, para compreender o presente, temos de recuar na história. Como o clima mudou no passado para compreender a mudança atual. Por outras palavras, permite-nos conhecer ou interpretar o presente. Mas bem, eu vejo o presente como o que está presente, claro.
Pergunto-lhe porque suponho que ter um objeto de estudo tão alargado lhe dá outra perspetiva, certo?
Sim, mas bem, vive-se os problemas do presente, não é? Claro que o planeta mudou muito em 50 anos.
O que eu queria perguntar é: essa forma de olhar para o passado é um antídoto para evitar ser presentista
Fala em ver tudo com a perspetiva do presente, não é? O que vejo é que agora há cada vez mais temas que são tabu, que as pessoas evitam. A isso chama-se auto-censura.
Como por exemplo?
Tudo o que tem a ver com o politicamente correto. Não acho que o politicamente correto seja errado; o que acho errado é que, para evitar problemas, as pessoas decidem não falar sobre isso. Não falam e não escrevem sobre isso. Assim, há cada vez mais assuntos de que as pessoas não falam e isso leva a uma falta de liberdade. Ou seja, no momento em que nos auto-censuramos, decidimos “prefiro não falar sobre isto, este assunto é tabu”. Então, a partir desse momento, perdemos a liberdade. Cada vez se pode falar de menos coisas. Parece-me que essa é uma caraterística da atualidade. Não tanto o politicamente correto, mas o facto de as pessoas não se atreverem a falar de cada vez mais assuntos.
Descreve-se como um epicurista. Tendo em conta tudo o que falámos, especialmente do presente e do caos que enfrentamos, como se pode ser epicurista? O passado ajuda nesse sentido?
Não sei se o passado ajuda. No entanto, sendo epicurista, digo que o epicurismo está na base da ciência, porque os epicuristas são materialistas. Portanto, há uma ligação entre o mundo epicurista e a ideia de que para sermos felizes precisamos de poucas coisas. Essa é a primeira. E segundo, que o conhecimento nos torna livres e a ignorância nos torna escravos, manipuláveis… enfim, o contrário de livres. Isso seria, digamos assim, a síntese. Não é preciso muito para ser feliz e o conhecimento torna-nos livres, a ignorância acorrenta-nos. É preciso tentar ser sábio.
E no centro da sua tese do epicurismo está o corpo, não é verdade? Porque não podemos ser felizes se não o habitarmos?
Sim, é isso que proponho como “novidade”. Não nos ensinaram a desfrutar do nosso corpo. Ninguém nos ensinou. Quer dizer, o corpo era o proibido, o inferior. E quando falo do corpo, refiro-me a ter sensibilidade, sensações, frio, calor, coisas muito simples. Agora, comemos tanto, por exemplo, que este ano, no Natal, eu disse: “Tenho vontade de ter fome. Já não sei o que é a fome”. A sensação de ter fome está a desaparecer. Já não temos fome, já não temos frio, já não temos calor, já não temos nada, já não temos um corpo. Então é horrível porque nós somos corpo. Por isso, temos de libertar o corpo. Esta é uma teoria da libertação.