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(A) :: Montenegro aposta em campanha sem fogo de artifício. Pedro Nuno é seguro de vida

Montenegro aposta em campanha sem fogo de artifício. Pedro Nuno é seguro de vida

Sociais-democratas animados com sondagens que continuam a dar Luís Montenegro como melhor candidato do que Pedro Nuno. AD prepara campanha mais minimalista e jogam com cansaço com sucessão de crises.

Miguel Santos Carrapatoso
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Mariana Lima Cunha
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Sem bandeirinhas, sem grande festa, sóbria e minimal. Luís Montenegro vai enfrentar a próxima campanha eleitoral com uma convicção profunda: as pessoas estão cansadas de políticos, de partidos, de campanhas, de debates, de entrevistas e de comícios. E é com essa certeza que a equipa da Aliança Democrática (que, afinal, manterá praticamente inalterado o nome da coligação) está a preparar a próxima volta ao país. Tendo igualmente como adquirida uma ideia: no essencial, o impacto da crise já foi absorvido, as culpas já foram distribuídas, a AD continua confortavelmente à frente do PS e Luís Montenegro tem uma grande vantagem na comparação direta com Pedro Nuno Santos.

Aliás, este foi sempre um dado que animou os sociais-democratas. Por muito que o caso Spinumviva tenha afetado a imagem de Luís Montenegro (e afetou consideravelmente), o primeiro-ministro manteve sempre melhores indicadores quando comparado diretamente com Pedro Nuno Santos em estudos de opinião. Logo a 9 de março, quando a TVI/CNN divulgou a primeira sondagem feita durante o período da crise política, que tinha o mérito de comparar o antes e o depois dos primeiros desenvolvimentos, Montenegro sofria um trambolhão e passava a ter a avaliação negativa de 46% dos inquiridos, mas Pedro Nuno Santos também tropeçava e chegava aos 57% negativos, agravando uma tendência que vinha de trás.

Ora, na sexta-feira, os sociais-democratas ganharam novos motivos para celebrar: na sondagem da Intercampus para o grupo que detém o Correio da Manhã, Montenegro superava largamente Pedro Nuno Santos nos tradicionais indicadores usados para medir a confiança depositada num candidato a primeiro-ministro. Entre um e outro, os inquiridos preferiam ter Montenegro como sócio (24,1% contra 9,3%), emprestar-lhe dinheiro (11,7% contra 7,3%), comprar-lhe um carro em segunda mão (18,2% vs. 15,4%), conversar com ele sobre política internacional (31,1% vs. 20,7%), entregar-lhe o filho para tomar conta (16,4% vs. 13,7%) ou convidá-lo para jantar (24,3% vs. 20,7%).

Numa ideia, os sociais-democratas acreditam que os eleitores indecisos e flutuantes confiam mais em Luís Montenegro do que em Pedro Nuno Santos. Uma tendência que se verificou há um ano e que deu à AD uma vitória por margem mínima e que, onze meses depois, não se inverteu — nem mesmo depois do caso Spinumviva. Antes se reforçou.

“Pedro Nuno Santos é o nosso seguro de vida. Enquanto for líder do PS, é difícil perdermos. Se esta crise tivesse sido com outro líder da oposição…”, comentava há dias com o Observador um destacado dirigente social-democrata, ainda antes desta sondagem da Intercampus, não escondendo o alívio pelo facto de o socialista não se conseguir libertar da imagem que, justa ou injustamente, se lhe colou à pele. “Radical”, “irresponsável”, “impreparado”.

É verdade que neste exercício feito pela Intercampus os dois — Montenegro e Pedro Nuno — não são exatamente celebrados como líderes em quem os eleitores confiam cegamente. Bem pelo contrário. Um dado que pode ajudar a demonstrar o profundo sentimento de irritação que existe entre os eleitores pelo facto de o país, um ano depois, estar outra vez mergulhado numa crise política que os portugueses não queriam, nem desejavam — avaliação comprovada por todos os estudos de opinião feitos até aqui. Ainda assim, entre o deve e o haver, os inquiridos parecem continuar a preferir Montenegro a Pedro Nuno Santos.

Além disso, para o PSD, não deixa de ser igualmente importante que já mesmo depois da queda do Governo (sondagem ICS/ISCTE para SIC/Expresso) os inquiridos atribuíssem igual responsabilidade ao Executivo e à oposição pela crise política. Apesar de ter sido Montenegro a forçar a votação da moção de confiança, a narrativa do Governo — de que foi a oposição a provocar a crise e não o primeiro-ministro a procurá-la ativamente — teve, afinal de contas, alguma eficácia.

Os sociais-democratas acreditam que os eleitores indecisos e flutuantes confiam mais em Luís Montenegro do que em Pedro Nuno Santos. Uma tendência que se verificou há um ano e que deu à AD uma vitória por margem mínima e que, onze meses depois, não se inverteu — nem mesmo depois do caso Spinumviva. Antes se reforçou. "Pedro Nuno Santos é o nosso seguro de vida. Enquanto for líder do PS, é difícil perdermos"

PM leva gestão de silêncios para a campanha

Mais a mais, os homens do primeiro-ministro acreditam que existe uma grande desconfiança dos eleitores em relação ao poder judicial e que a atuação do Ministério Público (inconsequente em muitos casos) dessensibilizou os portugueses para este tipo de questões, tese que as eleições na Madeira vieram ajudar a reforçar — sendo que, até ao momento, Luís Montenegro não é sequer suspeito de ter cometido algum tipo de ilegalidade, ao contrário de Miguel Albuquerque, que é efetivamente arguido.

Em cima disto, Montenegro, que há um ano era encarado com bastante desconfiança — tinha maus índices de avaliação enquanto líder da oposição e era tido por muitos dentro do PSD como um líder a prazo, incapaz de se afirmar —, tem a vantagem que qualquer incumbente tem historicamente. Importa recordar que, desde a estabilização da democracia, só por duas vezes um primeiro-ministro em funções perdeu eleições legislativas: Pedro Santana Lopes (cinco meses de governo) e José Sócrates (com a troika a aterrar no país). O histórico joga, portanto, a favor do social-democrata.

Além disso, e sabendo que nesta, como em qualquer eleição a nível nacional, o desempenho económico é um fator muito importante para o resultado final, Luís Montenegro vai centrar grande parte da sua campanha na defesa dos méritos do Governo nessa frente, seja na ideia de consolidação das “contas certas” que herdou de António Costa, como no reforço dos rendimentos através da redução de impostos (que ficou aquém do prometido na última campanha) e da revisão salarial de muitas carreiras da Administração Pública (que ia acumulando focos de contestação na fase final de António Costa).

Tudo somado, os sociais-democratas acreditam que o resultado a 18 de maio não estará muito distante das sondagens até agora realizadas, podendo oscilar poucos pontos percentuais, mas dando sempre vantagem a Luís Montenegro — ideia que o PS tem contestado com base noutras sondagens públicas e internas que dão vantagem aos socialistas para as próximas eleições legislativas. O que havia para ser medido já foi, o que havia para explicar já foi explicado, o que havia para debater já foi debatido. Os indecisos, se saírem de casa, serão distribuídos de forma mais ou menos homogénea pelos dois partidos.

Essa segurança veio dar ainda mais argumentos à estratégia que estava a ser gizada pelo grupo de conselheiros de Luís Montenegro: ao contrário do que aconteceu há um ano, a próxima campanha eleitoral será mais minimal e mais sóbria. Ao mesmo tempo, o líder social-democrata, que, assumidamente, não gosta de dar entrevistas e faz uma gestão rigorosa dos silêncios, vai expor-se ainda menos — na última campanha, foram raríssimos os momentos em que se predispôs a responder às perguntas dos jornalistas em ambientes que não fossem controlados pelo próprio; desta vez, dará ainda menos entrevistas e participará em menos debates do que há um ano.

É também isso que justifica a insistência em forçar a participação de Nuno Melo nos debates eleitorais. Além do argumento formal — desta vez, e ao contrário do que acontecia há um ano, o CDS tem de facto representação parlamentar —, existe também o objetivo assumido de poupar Luís Montenegro a uma excessiva exposição pública que só seria prejudicial. A convicção que existe é de que é Pedro Nuno Santos quem tem de correr atrás do prejuízo e não Luís Montenegro — e é o socialista, não o social-democrata, quem perde pontos quando aparece na televisão “sempre a ralhar“, como sugeriu Lili Caneças.

Entretanto, os sociais-democratas acreditam ter resolvido igualmente o problema do nome a dar à coligação. No último Conselho Nacional do PSD, a 26 de março, as declarações de Hugo Soares, líder parlamentar e secretário-geral do partido, levaram alguns órgãos de comunicação social, incluindo o Observador, a concluir, de forma prematura, que Montenegro e Nuno Melo manteriam a sigla “AD” mas mudariam o nome por extenso — atendendo à exclusão do PPM de Gonçalo da Câmara Pereira.

Na altura, não havia ainda nenhuma hipótese fechada, mas acabou mesmo por vingar a mais solução conservadora: a coligação passar-se-á a chamar “AD – Aliança Democrática – PSD/CDS“. A utilização da sigla continua a ser contestada pelo PPM. Resta saber se as queixas de Gonçalo da Câmara Pereira terão ou não efeitos práticos.