O padre não deixou que a mãe lhe chamasse Marisol e assim nasceu Fernanda. “Só me chamei Fernanda nesse dia porque não sabia falar. Se eu soubesse falar tinha dito: pára tudo! Não quero esse nome para mim”, diz a mulher que o país inteiro conhece por Ágata.
Durante meio século, Maria Fernanda Pereira de Sousa (Lisboa, 1959) cantou como pôde. Cantou a revolução que não entendia, fez parte das Cocktail e das Doce, duas girl band nos anos 80, mas foi quando o nome Ágata lhe foi soprado ao ouvido que encontrou o lugar de cantora romântica.
Renascida, cantou sobre as alegrias, desafios e força das mulheres, com temas que abordam o amor, a independência e até as desilusões. As suas canções tornaram-se hinos para muitas que encontraram nas suas letras um reflexo das suas próprias vidas. De Comunhão de Bens, que expõe as dores de uma separação injusta, a Maldito Amor, que dá voz à desilusão romântica, ou Mexe-Te Mais um Pouco, onde reclama o prazer feminino, Ágata transformou, não raras vezes, dor em poder. Mas e quando a música é um espelho? “Quando estava triste era quando cantava melhor”, conta ao Observador.
Numa longa entrevista, entre o brilho do Casino Estoril, onde dia 5 de abril celebra 50 anos de carreira num concerto há muito esgotado, Ágata fala sobre o início de tudo: o EP gravado em pleno PREC, a curta carreira política, o sucesso de Perfume de Mulher (1994) ou a redescoberta de Mexe-te Mais Um Pouco, que regravou e reeditou em 2023. Com o passado no retrovisor, aos 65 anos, a artista olha em frente e revela planos para um concerto de reunião das Cocktail. Se há uma década ameaçou pôr fim à carreira, Ágata antecipa agora outros desejos: “Ainda sinto que tenho muito para dar”.
Há 50 anos, em 1975, um ano depois do 25 de Abril, foi lançado o seu primeiro trabalho discográfico, intitulado Heróis Trabalhadores. Estávamos em pleno PREC, tinha 14 anos…
E não percebia nada de política!
Cantava “Heróis trabalhadores/ A quem marcou a guerra/ Sonham com mais tratores/ Para trabalhar a terra”. Percebia na altura…
O poder das palavras? Não, não tinha ideia. Percebia que estava a acontecer alguma coisa, mas não fazia ideia. Não tinha bases nenhumas políticas.
Como é que estes versos lhe vêm parar às mãos — ou, neste caso, à voz?
Porque tinha um produtor e ouvia-se na rádio muitas músicas falarem da liberdade. Ele achou por bem eu gravar também algo que fizesse sentido à época. Havia uma canção também… Não me lembro do cantor… [começa a cantar] “Uma gaivota voava, voava…”. Não me lembro do nome dela… Ermelinda Duarte! Aquilo passava muito E a Grândola, Vila Morena também. Era o que se ouvia, e ele achou por bem eu gravar esse tema.
Com o coro da Gulbenkian.
Sim. Foi muito engraçado. Tinha um diretor da orquestra, o maestro Rocha Oliveira, e alguém que estava ligado a uma rádio, que era o Marques Vidal também, entre outras pessoas que estavam ligadas à música. E lá estava eu, a cantar com os meus 14 anos esses temas que não usava nos meus espectáculos ao vivo.

Porquê?
Porque nos meus espectáculos ao vivo escolhia um tipo de reportório mais popular e romântico. Fazia uma mistura muito equilibrada entre o francês e o italiano, o espanhol, o português. Cantava de tudo um pouco. Tinha um professor de canto, na altura tinha muitas aulas e gostava de cantar muita música romântica. Apaixonava-me muitas vezes por temas que ouvia em festivais.
Mais do que romântica, esta música tem um pendor político.
Mas a letra é bastante aliciante, é bonita. [canta] “Sonhar, sonhar, sonhar, sonhar que bom que é, não desesperar e ter sempre fé”. Portanto, eu gostava da letra, senão também não a cantava. Cantava livremente, só que naquela época subia ao palco com outro tipo de músicas, que tinha a certeza que as pessoas iam vibrar.
Como é que depois de uma canção e um disco como estes, que se podem dizer mais de esquerda, acaba em 2017 a aceitar o desafio de Assunção Cristas para ser a candidata da coligação CDS-PP/MPT à Câmara de Castanheira de Pêra?
Mas aí fui enganada.

Então?
Porque sempre disse que de política percebia zero. Perguntaram-me se eu tinha a intenção de ajudar as pessoas que estavam neste momento a precisar…
Foi no rescaldo dos grandes incêndios de Pedrógão Grande — Ágata Sousa concorria numa lista à autarquia de uma das localidades afetadas.
Sim. Mas disseram-me que não era através de nenhum partido, como é que eles disseram…
Que seria candidata independente.
Sim, isso, e agradou-me. Então, se não há partidos, se é para ajudar, cá estou eu. Vamos a isso.
Politicamente onde se alinha?
Não percebo nada de política. Seria um erro estar à frente de algum partido sem perceber quais são as direções que cada um tem em mente. Acho que todos falam e ninguém faz nada. Portanto, prometem… Aí vem a minha música [começa a cantar] “Promessas, promessas, promessas”] canção de 2009, do álbum Promessas]. É isso. Com política não me envolvo com absolutamente nada, mas já cantei para todos os partidos.
O que achou das críticas endereçadas a Quim Barreiros por ter atuado no comício do partido Chega, em 2024?
Não sei de nada. Não tive conhecimento. Porquê? Eu era capaz de cantar em todos os partidos. Desde que me paguem, estou lá. Vou cantar as minhas canções, não vou discursar. Mas em política não me meto. Não oiço políticos, não vejo programas sobre política, não vejo absolutamente nada. Não vejo coisas que me podem deixar com o coração destroçado, notícias más, pessoas em sofrimento. Recuso-me a ver notícias. Só vejo filmes em que procuro aprender alguma coisa, fecho-me na minha espiritualidade e ponto.
Mas não é alheia ao sofrimento, porque ao longo da sua carreira gravou canções e fez espetáculos em benefício de quem sofria. Estou a pensar em temas sobre crianças desaparecidas [Anjinhos Inocentes, do álbum Anos de Luz, em 2007], ou concertos de angariação de fundos para uma série de causas.
Gosto de ser solidária, quando é para ajudar alguém gosto de dar sempre o meu contributo. Mas não gosto de o fazer sozinha, porque há muita gente aí disponível também para poder ajudar. Para poder fazer um concerto em prol de uma associação, tenho que ter condições para levar os músicos. Às vezes não é possível e por isso não o aceito. Se forem muitos e eu for lá cantar apenas um tema, já aceito.
Falando de condições, estamos no Casino Estoril, espaço onde vai dar um concerto já esgotado, meses antes. Como se sente com este feito?
A sala acho que leva 800 e tal de pessoas, não sei ao certo. Foi por aquilo que me disseram. Cantar aqui em Lisboa é sempre um benefício para aquelas pessoas que não têm a oportunidade de estar comigo durante o verão naquelas festinhas onde a gente vai de municípios e de comissões de festas. Aqui tive a oportunidade de juntar uma série de pessoas que simpatizam com o meu trabalho e com a minha pessoa. Alguns amigos em questão, vou ter aí alguns, também. Isso deixa-me muito feliz porque não estou sozinha. Sei que as pessoas que vão estar aqui vêm para me ouvir e para estar na minha companhia.
Quando fiz o Coliseu, há três anos, tinha uma sala enorme, gigantesca. Senti-me tão pequenina, pensei: o que é que vai acontecer comigo quando espreitar pela cortina e vir aquela gente toda ali para me ouvir? Mas quando pisei o palco estava super calma, estava rendida, estava completamente descontraída, e o espetáculo aconteceu. Aqui estou muito feliz porque vou ter muito bons músicos e resolvi fazer um espetáculo cheio de duetos porque é importante partilharmos o palco com pessoas que de quem gostamos, com quem temos afinidade, ou porque somos amigos ou porque os apreciamos como músicos.

Traz muitos convidados: Miguel Araújo, Mimicat, Berg, Ana Bacalhau, Kátia Guerreiro, Romana, Sérgio Rossi…
Vêm mais uns dois ou três que não estão anunciados, como surpresa.
Já se sabe que haverá uma reunião das Cocktail [grupo com Rita Ribeiro, Maria Viana e Ágata, que entrou para substituir Paula Delgado].
É, elas não se conseguiram calar, as bruxinhas.
Quem falou com quem? Foi a Ágata que as desafiou?
Claro! Às vezes falamos umas com as outras. Falo com a Maria [Viana], que tem aqui um bar de jazz em Cascais.
Historicamente, as mulheres sempre foram incentivadas a competir umas com as outras e as Cocktail apareceram num tempo em que se perpetuava a narrativa de que as mulheres não conseguiam trabalhar juntas.
É. A Rita [Ribeiro] é uma mulher que adoro, uma super profissional, uma excelente atriz, e ela achou muito gira a ideia logo. Até sugeriu montarmos um espetáculo com todos os nossos temas, porque seria único. Fomos a estúdio, gravámos, estivemos juntas, jantámos, planeámos. Ainda queríamos fazer umas coreografias. A Maria gostava de ter feito umas coreografias, mas, entretanto, a Rita foi para a Índia. Eu também andei aí, entre estúdio e vídeos, a preparar a multimédia, essas coisas todas dão muito trabalho.
Mas parece haver um alinhamento de vontades. Está a dizer que uma reunião das Cocktail está para breve?
Acho que sim, porque temos canções que foram um grande sucesso. Podemos apenas montar um espetáculo para uma única vez, porque cada um tem o seu tempo. Estou sempre pronta para projetos. Mas depois, às vezes, penso: “Quem é que quer saber agora de três cotas em cima de palco a cantar as músicas das Cocktail? Isso era quando nós éramos miúdas, giras e boas, esvoaçantes, cheias de juventude”. Mas, na verdade, ainda sinto que tenho muito para dar. A idade é um número e o meu mundo é cá dentro, não é? É aquele que me diz: força, Ágata, vamos em frente, vais conseguir, vamos arrancar com isto. É nisso que me baseio, é na minha força espiritual, naquela vontade de crescer, de fazer coisas, de oferecer coisas ao meu público, de aparecer e dar o melhor de mim.

Quando olha para trás, como recorda os tempos com as Cocktail, no final dos anos 1970?
Loucura absoluta, loucura! Todas tínhamos o nosso feitio, todas tínhamos o nosso speed e todas dávamos tudo em palco até à última gota. Sacrificámo-nos muito porque os carros e as estradas eram complicadas, não havia auto-estradas nem carros tão bons como hoje. Hoje é muito mais simples fazer uma viagem. Naquela altura eram terríveis os caminhos que tínhamos de fazer para chegar a Monção, a Campo de Víboras, sei lá, sítios assim longínquos. Tínhamos de sair muito cedo de casa porque eram horas e horas e horas. Enquanto estive nas Doce, cheguei a atravessar o país de um dia para o outro. Estávamos lá na pontinha do mapa e viemos para a pontinha do Algarve no dia a seguir, foi uma loucura.
Antes da entrevista, quando estava a ser fotografada, falava da roupa. Um dos aspetos mais inovadores do tempo das Cocktail foi a atenção que se passou a dar à indumentária, além das canções. Mesmo observando os seus videoclipes posteriores, já como Ágata, há um sentido estético, uma preocupação. Tinha alguma referência de estilo, alguém que tentasse emular?
Não, não.
Como escolhia aquilo que vestia? No caso das Doce havia um trabalho continuado com o estilista José Carlos.
Era, era.
A Ágata, ou as Cocktail, tinham alguém que ajudasse nesse departamento?
Juntávamo-nos e tentávamos arranjar o nosso guarda-roupa de forma a que olhassem para nós e dissessem: onde é que elas foram buscar isto? Então usávamos muito o cetim, o tule, os maiôs, enfeitávamos tudo com pérolas, botões, flores, sprays, purpurinas. Tínhamos sempre muito brilho em tudo. Lembro-me perfeitamente do último fato que levámos, não o consigo encontrar no YouTube, mas fomos ao Festival da Canção com um tema que era o Amanhã Virás (1979). Não consigo ver esse vídeo, não há em lado nenhum. Adoraria até passá-lo aqui [no concerto].
A RTP terá.
Mandaram-me uma listagem de preços e mais não sei o quê, pedi-lhes uma série de coisas, mas depois acabei por não ter tempo. Mas queria imenso esse vídeo, estávamos incríveis e essas roupas fomos nós que as fizemos. Estavam muito giras, muito giras mesmo.
Quando era miúda, no bairro da Graça, em Lisboa, e mais tarde em Benfica, onde passou grande parte da infância, já tinha esse apelo pelo brilho, pela roupa, maiôs e tutus?
Sim, a minha mãe fazia-me sempre as roupinhas. Ela aprendeu costura e fazia-me sempre as saias com aqueles peitilhos. Depois cruzava umas fitas nas costas que vinham bater aqui [aponta para o peito] para segurar. Um dia ela foi à praça e deixou umas cortinas dentro de um alguidar debaixo da máquina. Eu andava lá por casa, tinha mais dois irmãos mais novos, e enquanto ela foi à praça com o meu pai eu cortei as cortinas todas. Fiz um fato de carnaval, uma saia e uma camisa, com umas franjas. Cortei, enfeitei aquilo tudo, fui buscar umas penas. Quando a minha mãe chegou da praça vi uns miúdos na rua todos vestidos de igual, parecia a Música no Coração! Eu e os meus irmãos, com um fatinho feito por mim ali à maneira, em cima da mesa. Cortei, cosi e imaginei, fiz uma abertura, cosi dos lados. Sem ninguém me ensinar!
Se não fosse cantora, estava encontrada outra profissão.
Não, não, soube sempre o que queria.
Soube sempre?
Sim, sim, sem dúvida. Também tinha uma paixão pelo bailado. Sempre apreciei bailado e ópera, sempre adorei. Via muitas óperas e bailado enquanto miúda. Passava muito na televisão. Passava as tardes inteiras a ver, sentada no chão, com as perninhas para o lado. Parece que me estou a ver. Era a única que estava ali, em frente à televisão. Estava ali a ver aquilo. Adorava, amava O Barbeiro de Sevilha, o Lago dos Cisnes, clássicos que ainda hoje adoro. É pena não haver mais em Lisboa, se não ia ver.
Faz sentido tendo em conta a sua predileção por grandes espetáculos, com um grande nível de produção, muitos músicos em palco. Disse-me também que se recusava a fazer playback instrumental.
Não faço nem devia existir.
Porquê? Isto é, porque que é, para si, importante apresentar-se com uma banda?
Quando comecei a ter sucesso, aceitei muitos contratos em playback instrumental e tinha muito trabalho. Depois achei, numa determinada altura, que não fazia sentido aceitar mais concertos desta forma, porque além de estar a tirar trabalho aos músicos, que também estão aqui neste país para trabalhar, estava a deixar o público numa situação debilitada, direi mesmo assim. Ver ali uma personagem em cima de um palco a cantar sozinha, mas com bailarinos, a parte em que se olha para um músico ele faz um solo. E mesmo enquanto artista, aproximar-se de um saxofonista, um guitarrista, ter uma parte ao piano, poder interagir com os músicos num espetáculo, para mim isso é tudo. “Ó Ágata, mas porque é que não trazes só o baterista, porque é que tens que vir com a percussão?” Porque a percussão faz muita falta, dá vida! Interage comigo, vem à frente tocar, a sonoridade dá um determinado balanço aos temas. Acho que isso é espetáculo. Não sou só eu. Isto é um grupo de pessoas, o meu espetáculo não é só feito por mim, é feito por um grupo de pessoas que estão em cima do palco. Somos 14.

Ainda tem um frio na barriga, uma adrenalina, de poder falhar em palco?
Não, a gente nunca falha. Isto não pode falhar. Só se estiver doente. Mas se estiver doente, também digo ao público. Aconteceu uma vez que estava mesmo doente e disse ao público: não consigo, estou com febre, não consigo cantar, estou doente, não tenho voz. Das duas, uma, ou vou-me embora ou canto doente.
O que fez?
Cantei doente, eles aceitaram. Só me queriam ver. Mas enganar as pessoas não engano.
Em 2014 anunciou o fim da carreira. Fê-lo porquê?
Havia muita… As coisas começaram-se a banalizar e comecei a perder o gosto, a vontade. Estava a perder o meu tempo, a viajar para aqui e para ali, para subir a um palco que não tinha condições. Não havia camarim, não havia… Em termos de som também, às vezes não se encontrava aquilo que pedíamos. Hoje em dia existe um rider técnico que enviamos e que tem que ser respeitado. Faz mais sentido fazer menos e bom do que muito e mau.
Falando de Playback, a canção de Carlos Paião, de 1981, foi uma das músicas que venceu o Festival da Canção num dos anos em que a Ágata participou. Nos outros anos em que concorreu, saíram vitoriosas as músicas Sobe Sobe Balão Sobe, de Manuela Bravo, em 1979, e Bem Bom, das Doce, em 82. Acha que não ganhou um Festival da Canção porque a concorrência nestes anos era particularmente forte?
Não, nunca ganhei o Festival da Canção porque também nunca encontrei nenhuma música que tivesse esse poder.
É fácil ou difícil para um artista saber reconhecer esse poder numa canção?
Eu consigo sentir isso. É o ouvido que se tem. Já o pai do meu filho também tem esse dom, o Francisco [Carvalho], que viu no Perfume de Mulher uma base para um grande sucesso. Tanto que o levou para a Rádio Alfa, em Paris, e foi lá que começou a rodar. Os emigrantes chegaram cá e a música disparou. Esteve 52 semanas no primeiro lugar do top.
https://www.youtube.com/watch?v=fTpGV3iYNgc
Ainda sobre o festival, logo a seguir à Bem Bom das Doce ter vencido, em 1982, entrou no grupo.
Exatamente.
Como é que recorda esses dois verões?
Adorei, mas foi muito cansativo. Tivemos muitos espetáculos. Eu era 100% Doce. Fazia questão em ser 100% Doce. Para já, sentia-me uma mulher super sensual. Ainda acho que a sensualidade é a base fundamental, além de ter de cantar.
Tinha que idade na altura?
Tinha 28 anos. E adorava aquelas músicas. Adorava coreografá-las, dançar, poder subir ao palco e dividir com quatro pessoas um momento que as pessoas estavam todas à espera, era uma coisa maluca. Era uma euforia enorme. Foi ótimo.
Quando entra nas Doce, entra num período delicado — um boato sexual visava uma das cantoras da banda, Laura Diogo, e um jogador do Benfica, Reinaldo. Como foi lidar com tudo aquilo?
Nunca me incomodei com o que pudessem dizer.
Ainda que o escândalo não a implicasse diretamente, pertencia à banda.
Mas eu era loura também! Mas não, isso nunca me afetou.
Ficou incomodada com o facto de não ter sido retratada no filme sobre as Doce — Bem Bom [2020], de Patrícia Sequeira?
Não, não me incomoda nada. Nem sequer vi o filme, só vi o primeiro episódio [da série que derivou do filme]. Falei com a Teresa Miguel e ela estava até um bocadinho triste porque relativamente a ela as coisas não aconteceram como foram emitidas. Ela estava um bocado triste com isso. Depois acabei por não ver o resto. Com a Fá, igualmente.
Numa série ou filme sobre si, quem é que gostava que interpretasse?
Alguém que soubesse cantar. Ou será que nesses filmes a voz é do próprio artista e elas fazem playback? Se calhar é, não é? Não sei. Alguém que fosse assim parecido comigo. Estou a pensar, de repente, na Bárbara Norton de Matos. Acho que ela tem um bocado a imagem… Faz-me lembrar algumas coisas de mim.
Com o fim das Doce, pouco depois, em 1987, lança-se como Ágata. Porque quis mudar de nome?
Porque nunca gostei do meu. O meu nome nunca foi um nome artístico, foi o nome do batismo. Só me chamaram Fernanda porque nesse dia ainda não sabia falar. Se eu soubesse falar tinha dito: pára tudo! Não quero esse nome para mim.
Mas porquê Ágata?
Tem a ver com aquela pedra preciosa.
No dicionário a definição de ágata é: “nome feminino, mineralogia, variedade, calcedónia, constituída por faixas alternadas de coloração diferente, mostrando, em corte, desenhos variados”. Reconhece-se nesta descrição, é uma mulher de muitas cores e camadas?
Acho que sim, acho que sou um bocado assim.
Porque escolheu este nome?
Foi como se me segredassem ao ouvido: o teu nome é Ágata. Mas a minha mãe também me tinha dito que um dia… Eu ia ter muito sucesso com este nome. Surgiu-me a vontade de querer realmente apostar em Ágata. A minha mãe ao princípio até tinha alguma dificuldade em pronunciar. Chamava-me “a gata”.
Ela sabia que eu tinha um espírito muito investigador. Adorava ler livros da Agatha Christie, inclusive tenho um autógrafo dela. Foi me oferecido por um grande empresário deste país, o António Fortuna. Aliás, foi ele até um dos responsáveis por eu ter vindo parar às Cocktail, porque ele arranjava muitos concertos pelo país, tinha um leque vasto de artistas. Foi ele que falou de mim à Rita [Ribeiro], que me indicou. Era um grande empresário. Ainda hoje me liga volta e meia. E foi ele que me deu esse autógrafo da Agatha Christie. Está dentro de um livro qualquer dela. Não sei onde, mas tenho-o.
Diz-se que foi a Ágata também a escolher os nomes de outros artistas, os seus sobrinhos: Romana e Sérgio Rossi. É verdade?
E da Rebeca [cujo nome é Cláudia] também. É verdade, sim. Acho que tenho um dedozinho muito especial para isso.
O que significa um novo nome? Vê-o como um renascimento?
É uma aposta. É precisamente isso. É tentar um novo começo, uma nova vida musical. Um novo perfil, uma nova imagem, uma nova música. Tem a ver com começar com tudo, de novo.
Sentiu-se a começar de novo?
Sem dúvida.

Ágata extravasa a sua persona musical, todos a tratam assim, hoje, mesmo no plano pessoal, dizia-me.
Sim. A verdade é que quando eu falava com alguém, tinha de dizer “sou a Fernanda das Cocktail” ou “a Fernanda das Doce”. Mas porque é que eu tenho que agora andar sempre a dizer que sou a Fernanda das Cocktail ou das Doce? E se eu dissesse que era a Fernanda de Sousa ninguém sabia quem eu era. E eu queria que soubessem. Portanto, tive de escolher um nome. E a minha mãe, que no fundo me tinha confidenciado isso, disse-me: um dia, quando mudares o teu nome, vais ter muito sucesso. Tanto que ela, quando nasci, queria-me pôr o nome de Marisol. Porque ela via muitos filmes do Joselito. E a Marisol era uma grande cantora em Espanha, acho eu. Mas o padre não o deixou. Ela ficou toda esmorecida. E o meu padrinho disse-lhe: olha, põe o meu nome em feminino, pronto. E lá fiquei Fernanda, fiquei tramada. Nunca me identifiquei. Nunca. Nunca. Quando apareci como Ágata, soube logo que era o momento certo para me lançar.
O seu primeiro single enquanto Ágata é Quentinha e Boa.
Como as sardinhas e a castanha! Produção do Luís Filipe, que já morreu, um grande músico e cantor.
Não muito depois lança outra música que apela à sensualidade, Mexe-te Mais um Pouco (1989). Como é que estas canções lhe chegaram?
Os compositores acharam que eu era um borracho, uma miúda cheia de sensualidade. Então disseram: vamos fazer uma música assim para pôr os gajos todos malucos. E eu disse, então está bem, faz. E cantei.
Sentiu-se confortável nesse papel?
Não me fazia diferença nenhuma, até porque eu fazia muitas discotecas, muitas boates. Íamos cantar a muitas festas privadas. Eu tinha duas bailarinas. Uma delas morreu num acidente onde estava o Ricardo Landum, na época [do Festival da Canção] em que ganharam os Da Vinci. E nessa altura elas dançavam comigo. Eu era toda muito sensualona e as miúdas dançavam muito bem. Depois eu ia mudar de roupa e elas dançavam uma música muito gira, do Michael Jackson. Tínhamos um espetáculo montado giríssimo, mas giríssimo. Só não tínhamos era músicos, pronto. Também não nos deviam pagar assim tanto quanto isso (risos). Mas divertíamos-nos imenso. Eu sabia que esses temas não eram para fazer sucesso. Quando os ouvi sabia nitidamente. Mas eram temas para… Epá, aquelas miúdas são muito giras, todas sensualonas, vamos convidá-las.
Diz que não era para fazer sucesso, mas foi um tema que escolheu reeditar agora em 2023.
Quem diria, já viu?
[o novo videoclipe de Mexe-te mais um pouco, em 2023:]
https://www.youtube.com/watch?v=rEeLHgJMvc0
Porque o fez?
Foi a comunidade LGBT que me pediu. Tenho muitos amigos gays, da comunidade, e gostei de lhes fazer um agrado. Porque eles me pediam: epá, à Ágata, canta, canta, canta! E eu disse: mas já não canto isso há 500 anos! Mas tens de cantar, olha o toque do meu telefone e não sei o quê.
Como assim?
Eu estava a cantar aqui em Lisboa numa festa da causa animal. Pediram-me para lá cantar para fazerem algum dinheiro. A dada altura, entrou uma rabanada de jovens por ali adentro e fizeram uma festa comigo. De repente, os rapazes disseram-me: olha aqui o nosso toque do telefone. Prometi que ia regravar. Foi uma tarde incrível.
Há um par de anos foi cabeça de cartaz do arraial Pride, em Lisboa. A Associação ILGA [Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo], que organiza a iniciativa, ao anunciar o programa, promoveu-a como Ágata, “ícone da música portuguesa e diva da comunidade”. Quando é que percebeu que tinha este título?
Olhe, desde sempre. 85 ou 90% dos meus amigos são todos da comunidade. São meus amigos e é quem me acompanha muitas vezes. Sou muito acarinhada e gosto de ver espetáculos de transformistas também. São pessoas super divertidas, bem dispostas. Sensíveis, muito sensíveis. E amigas. É verdade. E desta forma nunca arranjo namorado…
A sua primeira grande glória foi o Perfume de Mulher, de 1994, disco de platina. É sabido que as canções de tristeza revelam-se, grande parte das vezes, os maiores sucessos de um artista. Mas o que gostava de lhe perguntar é se são também as que mais gosta de interpretar.
Os meus amigos dizem que gostam de me ouvir cantar porque eu choro a cantar. Conhecem os meus álbuns todos, as minhas letras todas, mais do que eu. E dizem: Ágata, a gente gosta de te ouvir cantar porque tu choras quando cantas. Tu interpretas as coisas de uma forma que não deixa ninguém indiferente. E é isso que eu gosto, de cantar, sim. São aqueles temas mais… mais sérios. Que contam histórias…
E quando se está a passar por elas, não custa?
Claro que custa. Há momentos em que nos revemos em alguns temas… Até cantamos melhor. Eu tinha um técnico que me dizia: ó Ágata, hoje zangaste-te com o teu companheiro, não zangaste? Porque hoje cantaste super bem. Quando estava triste era quando cantava melhor.
Como é que se faz o inverso: como é que se esconde a tristeza para cantar um Tá Bonito (2017)?
Já estou habituada. Estou habituada a sorrir quando às vezes se chora. Tem de ser, não é?

É preciso assumir uma certa personagem em palco?
Sou uma mulher muito genuína. Não faço género com ninguém e digo sempre aquilo que sinto. As pessoas veem em mim uma naturalidade em tudo aquilo que faço, em tudo aquilo que digo. Posso dizer até: olha, hoje não é um dos meus melhores dias, mas estou aqui para cantar e trazer a minha música até vocês, porque é uma noite de festa, porque estamos aqui para nos divertirmos. É por aí.
Há uns anos, o Ricardo Landum, compositor com o qual trabalhou, foi acusado de plágio. Quando a notícia surgiu, temeu pelos seus temas?
Não tenho nenhum tema plagiado por ninguém. Portanto, se isso aconteceu, julgo que o Ricardo também não deveria ter esse tipo de conhecimento. Foi alguém que lho deu para as mãos. Agora, relativamente aos meus temas, sei que sou uma das cantoras que tem mais sucessos neste país reunidos.
Há pouco confidenciava-me que gostava muito de escrever.
Escrevo melhor do que falo.
Porque não escreveu canções?
Já escrevi, escrevi uma para o [José] Malhoa, escrevi uma para mim, mas sou um bocado…
O que escreveu para si?
Um tema qualquer que está num dos meus álbuns, metade de um… Escrevi um bocado da Mãe Solteira [1997, do álbum Abandonada], por exemplo. Escrevi mais dois ou três, nem sei, foi no início, em que eu perdi tempo com isso. Depois deixei que o Ricardo tomasse as rédeas porque ele nasceu para isso. Eu não, eu nasci para cantar. No entanto, já escrevi muita coisa, mas as minhas coisas, desde há muitos anos, são muito sentidas. Falam muito sobre a natureza, sobre as coisas que nos envolvem, e não é propriamente aquilo que eu quero cantar. Os meus poemas… nem sei deles, de tantas mudanças que já fiz na minha vida. Não sei se guardei algum ou onde é que isso paira. Provavelmente devem estar aí em alguma garagem, arrecadação, nalgum caixote, devem andar perdidos.
Sobre o que escreve nos seus poemas?
Muito sobre a natureza, o meu sentido, a pessoa que sou, aquilo que me envolve, o que é que eu estou aqui a fazer, coisas assim…
Há pouco tempo, em entrevista ao programa Prova Oral, da Antena 3, apresentaram-na como “cantora popular” e corrigiu: “cantora romântica”. Sente-se vítima de um preconceito no panorama musical?
Acho que sim, mas não me importo de nada, gosto de ser popular, sou uma mulher que canta o Tá Bonito e sou uma mulher que canta um tema de amor. Fiz um álbum todo em espanhol, só com clássicos, o Pasión (2020), que acho que está lindíssimo. Julgo que isso será mais uma expressão pelo facto de eu ser uma mulher muito popular mesmo. Se juntar essa expressão do popular ao brejeiro, àquela música mais brincalhona…
Pimba.
Pronto. Não percebo esse título. Aí poderei dizer que não tenho nada a ver com isso. Mas, agora, se sou uma pessoa que sobe ao palco e põe as pessoas a cantar? Sim, é verdade.

Já foi Mãe Solteira e esteve Abandonada [ambas canções do álbum Abandonada, de 1997]. Disse que houve mulheres que ganharam força com as suas músicas…
Sim, sei de muitas mulheres que tiveram a necessidade de me ouvir para ultrapassar momentos difíceis pelos quais estavam a passar.
Voltando ao Perfume de Mulher, como é que nunca foi desafiada a fazer um perfume?
Eu quis! Um perfume, uma boneca, as minhas roupas.
Porque não o fez?
Porque nunca encontrei ninguém que quisesse fazer a minha fragrância. Achava que na altura podiam ganhar muito dinheiro porque só em merchandising vendia-se muita coisa.
O álbum acabou por atingir a dupla platina, mas no início foi rejeitado por várias editoras. O sucesso depois soube-lhe a vingança?
Nem dei por isso. Comecei a ser tão solicitada que comecei a perceber que se passava qualquer coisa. Porque depois as pessoas começavam a reconhecer-me! E a afluência do público era muita onde eu ia. As pessoas tinham sempre muito carinho por mim.
https://www.youtube.com/watch?v=A3xYyz1kxuM
Ainda lhe dão muitas abelhas?
Não, agora muitos nem sabem disso ([risos]. Ainda há pouco tempo mostrei a apresentação do meu espetáculo aqui e houve um colega que me ligou: ó, Ágata, foste tu que gravaste com o Art Sullivan? E que gravaste A Abelha Maia?
Vai cantá-la no concerto de dia 5?
Ah, isso não sei. Vamos ver.
Uma das polémicas dos anos 1990 que a envolveu foi a promessa da transmissão televisiva do parto do seu filho, que acabou por não acontecer. Porquê?
Porque as pessoas são parvas. São antiquadas e acham que eu sou ridícula. Acham que eu me iria expor de uma forma que eu nem tão pouco estava à espera.
Mas na altura quem é que voltou atrás com a decisão, a Ágata ou a estação de televisão?
Fui eu. Disse: isto é muito pano para mangas, prefiro resguardar-me e vamos parar por aqui. Teria vontade, sim, de reservar algumas imagens, mesmo que fosse em direto, haveria imagens que se iriam buscar cá fora de pessoas que estariam à espera de notícias. Não estariam a 100% à minha volta, não é? Acho que deturparam tudo e aquilo que era para ser feito acabou por não ser porque acharam que eu iria estar ali num propósito que nem sequer me passava tampouco pela cabeça.
Hoje tê-lo-ia o efeito?
Não pensei mais nisso. Ficou arrumado na altura.
Ao longo de 50 anos de carreira teve de lidar com a exposição pública. Em que momento neste meio século é que preferia não ter sido a Ágata e ter sido a Fernanda por um minuto?
Nenhum. Gosto de ser Ágata sempre. Sempre Ágata. Até ao fim.
Há uns meses foi noticiado que teria tentado pedir um induto do Presidente da República para para que intercedesse pelo seu filho [que cumpre pena de prisão pela violação de uma menor].
Não é verdade. E ponto. É isso.
É conhecido que viveu em Chaves uma temporada. A casa em que viveu, antes de chegar, era uma casa assombrada, ouvi dizer.
É verdade.
Aos 65 anos e com uma bagagem de 50 anos de carreira, há alguma coisa que ainda a assombre?
Não tenho esse tipo de peso em cima de mim, porque me cuido e faço questão de me limpar espiritualmente dessas energias não tão boas, mais espessas e mais pesadas.
Consegue livrar-se de todos os fantasmas?
Às vezes consigo absorver tudo isso, mas também há uma descarga, há uma libertação que faço para me sentir muito mais leve.
Quando é que se sente mais leve, mais livre?
Na minha cama, sem olhos postos em mim, em minha casa. Aí sou livre. Estou como quero, faço o que quero, ando como quero, não tenho ninguém à minha volta. Aí sou livre, sou independente.