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Dermatologistas abandonam seguros e tempo de espera para consultas no privado já atinge nove meses. SNS não dá resposta

Dermatologistas confirmam corte com seguradoras, devido ao excesso de burocracia, baixa remuneração e grandes listas de espera. Acesso dos doentes degrada-se e soma-se à falta de resposta no SNS.

Tiago Caeiro
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O acesso a uma consulta de Dermatologia em Portugal está a degradar-se. Perante a crónica falta de capacidade do SNS, os portugueses viraram-se para o setor privado. No entanto, também aqui a procura tem superado largamente a capacidade de resposta, levando ao avolumar dos tempos de espera, que chegam a ultrapassar os nove meses numa unidade privada da região de Lisboa. Com as agendas assoberbadas, médicos que exercem no privado confirmam ao Observador o abandono dos acordos com as seguradoras, dificultando ainda mais o acesso às consultas. 

No caso do maior grupo privado português de saúde, a CUF, só existem cinco médicos dermatologistas, nos quatro hospitais da cidade de Lisboa, a aceitar consultas comparticipadas. No hospital CUF Tejo, por exemplo, há apenas um médico ainda a trabalhar com seguros, e a primeira vaga disponível é só no mês de dezembro, confirmou esta semana o Observador junto de fonte da CUF. As unidades da CUF no Parque das Nações (CUF Descobertas) e em Alvalade — onde trabalham cerca de 30 dermatologistas — já só têm consultas totalmente particulares.

Mas o problema estende-se aos outros grupos: no Hospital da Luz Lisboa, só existem vagas a partir do final do mês de novembro. No Hospital Lusíadas Lisboa, o cenário não é muito diferente, embora cerca de metade dos especialistas ainda trabalhem com seguros, confirmou ao Observador o diretor do Departamento de Dermatologia Vasco Macias. No caso desta unidade, existem vagas para o mês de setembro.

O tempo de espera baixa consideravelmente se a opção for uma consulta particular (paga a um preço muito superior), apurou o Observador na última semana de março. No caso dos hospitais da CUF, na zona de Lisboa, é possível garantir atendimento em apenas três dias na CUF Descobertas. No Hospital Lusíadas Lisboa, há vagas a partir de meio de abril (no prazo de 17 dias). Já no Hospital da Luz Lisboa, a espera é mais prolongada (cerca de quatro meses), mas, ainda assim, muito inferior ao tempo de espera para uma consulta com um seguro associado.

“Como é que consigo gerir uma agenda com este tempo de espera?”

O Observador apurou que, pelo menos na rede CUF, desde o último trimestre de 2024, tem-se registado uma saída em massa de médicos das convenções com as seguradoras na região de Lisboa. Os médicos ouvidos pelo Observador apontam sobretudo três razões para recusarem os acordos: o facto de receberem muito menos do que por consultas sem seguro (particulares), o excesso de burocracia exigido pelas seguradoras e a elevada procura por parte dos utentes — a debandada é confirmada pela Ordem dos Médicos.

Uma das principais queixas dos médicos com quem o Observador falou é mesmo o volume de documentos exigidos pelas seguradoras para que possam justificar a subsidiação dos tratamentos. “Trabalhar com seguradoras é cada vez mais difícil, porque a burocracia é muita, é preciso fazer muitos relatórios. As seguradoras tentam travar o consumo [de meios de diagnóstico e tratamentos] exigindo relatórios e dificultando o acesso. Não me tornei médico para fazer relatórios”, diz o dermatologista Pedro Mendes Bastos, que trabalha no hospital CUF Descobertas, em Lisboa, e foi um dos que abandonaram os acordos com as empresas de seguros.

O dermatologista Vasco Macias mantém os acordos, mas critica as seguradoras, lamentando o que considera ser o excesso de trâmites burocráticos, que retiram tempo à consulta. “Na Dermatologia, também temos uma vertente cirúrgica (com o uso de lasers, remoção de sinais, etc.), que está ligada à consulta. Para fazermos esses procedimentos, temos de fazer sempre um pedido de autorização ao seguro e temos de ter sorte de que o seguro não nos peça informação adicional (sendo que, na maior parte dos casos, a informação já está no pedido). É uma duplicação do trabalho e do tempo“, sublinha, destacando que as consultas sem seguro têm, “regra geral, uma duração superior, com tempo para os problemas do doente”, uma vez que não há trâmites burocráticos a cumprir com as seguradoras.

https://observador.pt/especiais/em-algumas-especialidades-mais-de-metade-dos-medicos-trabalha-no-privado-em-radiologia-sao-quase-60/

No entanto, para o especialista, o principal fator que leva a que os dermatologistas optem cada vez mais por trabalhar apenas com consultas particulares são as grandes listas de espera, que chegam a atingir um ano nalguns casos. “O que faz com os colegas deixem os seguros é não conseguirem dar resposta às pessoas. As agendas estavam de tal forma cheias que era impossível”, realça Vasco Macias.

As listas de espera tornaram-se, em muitos casos, ingeríveis, devido ao aumento acentuado da procura, diz Pedro Mendes Bastos, da CUF. “Como é que consigo gerir uma agenda com este tempo de espera, de nove meses/um ano? Se vejo um paciente com uma psoríase grave, vou ter de o reavaliar dentro de três meses, não posso estar um ano à espera. É incomportável, não é possível fazer Medicina assim”, explica o médico, realçando que houve um aumento da procura por cuidados médicos, nomeadamente na Dermatologia.

"Os colegas querem valorizar o ato médico. A remuneração não é satisfatória com as seguradoras"
João Alves, presidente do Colégio de Dermatologia da Ordem dos Médicos

Burocracia, listas sobrecarregadas e baixa remuneração na origem da decisão dos médicos

“As pessoas, fruto do consumo de redes sociais e de se auto-observarem cada vez mais, são menos tolerantes a situações da pele”, diz o médico, adiantando que o aumento da procura se verificou sobretudo na área da estética. Nalguns casos, critica, “as pessoas com acesso a seguro de saúde apareciam nas consultas sem terem um verdadeiro motivo, com queixas estéticas”, o que fazia aumentar o tempo de espera global.

“Ora, os recursos não são infinitos, o número de médicos não cresce”, alerta, acrescentando que, com a “lei da oferta e da procura” a funcionar, os médicos não sentem necessidade de manterem acordos com seguradoras. “Se há muita procura, por que é que havemos de estar sujeitos a isso?”, questiona.

Ao Observador, o presidente do Colégio de Dermatologia da Ordem dos Médicos (OM) reconhece as dificuldades de resposta do setor privado, principalmente para quem quer aceder aos cuidados através de seguros de saúde, e admite estar preocupado com a degradação do acesso. “Preocupa-me porque se soma às dificuldades no SNS. A saída dos médicos dos acordos [com as seguradoras no setor privado] dificulta o acesso, porque as pessoas terão de ter capacidade financeira para pagar uma consulta particular. Sem acordo é mais difícil”, lamenta João Alves. No rede CUF, o preço de uma consulta de especialidade varia entre os 103 e os 120 euros, cerca de cinco vezes mais do que com um seguro de saúde. No Hospital da Luz Lisboa, os preços começam nos 65 euros e podem chegar aos 220 euros.

https://observador.pt/2025/03/04/ha-75-mil-pessoas-a-espera-de-cirurgia-acima-dos-tempos-maximos-garantidos-governo-ainda-nao-conseguiu-reduzir-lista/

Apesar de admitir que o acesso fica dificultado com o corte no número de médicos com acordos, João Alves compreende a decisão dos dermatologistas. “Os colegas querem valorizar o ato médico. A remuneração não é satisfatória com as seguradoras“, diz o especialista, acrescentando que “os próprios grupos privados também estão a incentivar os colegas a não manterem os acordos”. Segundo apurou o Observador, sem acordo os médicos ganham duas a três vezes mais pelos atos prestados. A diferença de remuneração do médico entre as consultas 100% particulares e as realizadas com seguros de saúde é também uma das razões apontadas pelo médico Pedro Mendes Bastos para a justificar o corte com as seguradoras. “Os seguros são menos apelativos para os médicos, em termos de honorários”, explica.

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No caso dos Lusíadas, o diretor de Departamento, Vasco Macias, admite que o fator económico “é tido em conta pelos médicos” quando decidem abandonar os seguros, mas ressalva que pesa mais “a pressão a nível de consultas e as exigências de burocracia” que “era crescente” e fazia com os especialistas “não conseguissem dar uma resposta satisfatória”. O especialista adianta que, neste momento, o grupo Lusíadas abre a marcação de consulta de Dermatologia “de forma faseada”, para não permitir grandes listas de espera. No entanto, o problema de base mantém-se. “Hoje em dia, não há capacidade de resposta nos hospitais privados”, reconhece.

O Observador questionou as três maiores seguradoras na área da saúde sobre a saída de médicos dos acordos e sobre a eventual quebra no acesso provocada por esse fenómeno. A Fidelidade (que detém a Multicare) sublinha “que não tem verificado nenhum fenómeno de saída massiva de dermatologistas da sua rede de prestadores” e que a mesma “continua extensa e com grande cobertura nacional”. Já a Ageas, que detém a Médis, não quis fazer comentários. A Tranquilidade não respondeu aos pedidos de esclarecimento.

Também questionados, dos três maiores grupos privados de saúde (CUF, Luz e Lusíadas), apenas a CUF respondeu, sublinhando que a “escolha do modelo – seja através de seguro, subsistema ou via particular – é determinada pelo corpo clínico, sem qualquer obrigatoriedade de adesão a um modelo específico por parte da CUF”. Ou seja, a CUF remete a responsabilidade para os próprios médicos. Sobre o tempo de espera, a CUF prefere destacar a sua média nacional (que diz rondar um mês). No entanto, a realidade na zona de Lisboa é diferente, com tempos de espera muito mais longos.

Dermatologia do SNS dá resposta assimétrica. Zonas centro e sul têm muitas carências

As dificuldades de acesso no privado — que se intensificaram nos últimos meses nas zonas da Grande Lisboa — somam-se às carências que o SNS evidencia há anos e que se traduzem numa dificuldade de resposta em vários hospitais. Os últimos dados conhecidos, publicados no portal dos tempos de espera, remontam ao último trimestre de 2022. Mas o presidente do colégio de Dermatologia da OM adianta que, em muitos hospitais públicos, particularmente nas zonas centro e sul, os doentes têm de esperar mais de um ano por uma consulta de prioridade normal. A norte, a situação é diferente, uma vez que os serviços têm mais especialistas.

“Há serviços que estão muito bem compostos no norte, no centro já há dificuldades (Guarda, Castelo Branco, Leiria, Santarém). Em Lisboa, os serviços até têm recursos, mas a procura é muito superior à oferta. De Almada para sul, os serviços estão depauperados“, enumera João Alves, alertando que a distribuição assimétrica de dermatologistas pelo território acaba por deixar zonas muito populosas sem qualquer resposta.

No Hospital de Setúbal, só existe um médico a exercer. E o Hospital de Évora, que responde às necessidades de todo o Alentejo, não está a dar resposta há meses, desde que o único dermatologista que dava consultas (e já reformado) morreu. Para todo o Algarve, há apenas duas médicas especialistas, adianta João Alves, que é também diretor do Serviço de Dermatologia do Hospital Garcia de Orta, em Almada.

A saída de especialistas do SNS para o setor privado é uma realidade que persiste há anos. Dos 467 dermatologistas registados na Ordem no final de 2024, cerca de dois terços (66%) exerciam no setor privado (um dos maiores desequilíbrios entre todas as especialidades). No final do ano passado, trabalhavam no SNS 161 especialistas, segundo dados enviados ao Observador pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS). Um número que, apesar de ter crescido desde a pandemia (eram 147 em 2020), fica muito abaixo das necessidades, realça João Alves.

Recém-especialistas saem do SNS. Salários, carreira e técnicas são determinantes

Por outro lado, a assimetria na distribuição dos médicos acentua as dificuldades das zonas centro e sul do país, uma vez que só os hospitais com serviços minimamente robustos podem obter a idoneidade da OM para formar internos. “Os internos só são formados nos grandes hospitais (Santo António, São João, Braga, Gaia, Matosinhos, Coimbra, Leiria, e depois Capuchos, Santa Maria e Garcia de Orta)”, enumera João Alves, o que acentua as dificuldades das zonas do interior. No último ano, foram 14 os internos a tornarem-se especialistas em Dermatologia.

Se permanecessem no SNS, onde fazem a formação, as carências poderiam ser supridas. O problema é que isso não acontece. “Mais de metade dos recém-especialistas sai todos os anos“, sublinha João Alves. A fraca atratividade do SNS é impulsionada pelos salários baixos, carências de equipamentos e técnicas inovadoras e pela falta de tempo para fazer investigação (um fator cada vez mais valorizado pelos jovens médicos, que não querem dedicar todo o horário à atividade assistencial regular).

“Aqui [na CUF] tenho tempo para fazer investigação, algo que nunca aconteceria no SNS”, diz o médico Pedro Mendes Bastos, que saiu para o privado depois de ter terminado o internato de especialidade no então Centro Hospitalar e Universitário de Lisboa Central, há quase 10 anos.

https://observador.pt/2022/05/01/dermatologista-alerta-para-riscos-de-substancias-proibidas-em-cosmeticos-branqueadores/

A diferença de vencimento é significativa. “Os colegas que fazem cirurgia ganham mais, mas estamos a falar de mais do dobro ou do triplo do público“, adianta o presidente do colégio de especialidade da OM. “Antes conseguíamos contrariar isto com os equipamentos e técnicas inovadores que estavam no SNS, mas, neste momento, é quase o inverso. Tudo o que é inovador está no privado”, diz João Alves, pedindo a valorização da especialidade no SNS (“uma das mais transversais”), a valorização das carreiras e a oportunidade de os médicos “trabalharem nas suas áreas de interesse”. “Sem isto, não somos atrativos”, avisa, pedindo ao poder político mais investimento na Dermatologia.

“Percebo que haja outras especialidades de maior preocupação (Obstetrícia, Medicina Geral e Familiar, Medicina Interna), mas há uma série de outras que passam por muitas dificuldades no SNS e que têm ficado mais esquecidas”, lamenta o médico.