Nos tempos da União Soviética, havia uma anedota que explicava de forma concisa toda a política externa dos russos.
Um dos comandantes do Exército Vermelho russo, uma figura histórica real – Vasily Chapayev (um homem pouco educado e bruto) – foi visitar Londres. Depois de algum tempo, ele voltou muito rico. Seu subordinado, chamado Petka, perguntou surpreso:
Chapayev, de onde veio todo esse dinheiro? Você nem ao menos sabe contar.
Ao que Chapayev respondeu: Uma noite, fui convidado para uma recepção , e, após o jantar, começámos a jogar cartas. Após as apostas, cada participante do jogo começou a anunciar suas combinações de cartas, sem mostrá-las. Perguntei-lhes por que razão não as cartas não são mostradas. E responderam-me: Um cavalheiro confiam na palavra de outro! E desde então, Petka, comecei a ganhar!
Essa fábula caracteriza bem Putin, mas o pior é que esse comportamento é apoiado pela maioria dos russos. É uma cultura amplamente aceite entre os russos há séculos, independentemente dos regimes políticos e imperadores, secretários gerais ou presidentes. Lembremos que em 2014, Putin declarou oficialmente que os “homenzinhos verdes” na Crimeia não eram soldados russos.
Imagine um presidente de qualquer país europeu que mentisse tão descaradamente para os seus cidadãos e para o mundo! Mas os russos viram isso como um grande mérito doe seu líder, como uma norma de comportamento nacional. Uma vitória.
Muito antes da revolução comunista na Rússia, Karl Marx, autor do Manifesto Comunista, em um artigo na edição do jornal New York Daily Tribune de 14 de julho de 1853, observou: “O urso russo é capaz de tudo, especialmente quando sabe que os outros animais com quem lida são incapazes ou não têm vontade de qualquer resistência”.
Essa definição aplica-se bem às tentativas de Trump de acabar com a guerra russo-ucraniana hoje.
Por causa de seu amor-próprio e desejo de ganhar o Prémio Nobel da Paz, Trump “sentou-se para jogar cartas” com um jogador experiente (Putin), que antecipou as suas cartas e o seu comportamento. Pior ainda, Putin criou condições para excluir outros participantes do jogo (países europeus).
Putin está ganhando taticamente esse jogo contra Trump. Isso porque, no fim, para Trump será aceitável simplesmente levantar-se da mesa e sair do jogo, enquanto Putin, sob qualquer circunstância, não abandonará a Ucrânia. Essa é sua maior aposta mortal. Sem a Ucrânia, a Rússia não continuará a existir como império.
Pior ainda para os ucranianos, Putin habilmente prolonga o jogo. Ele desfruta da atenção de Trump, permitindo que ele não pareça um perdedor aos olhos de seus eleitores na América. Este jogo pode durar muito tempo. Ambos os jogadores, no final, encontrarão uma maneira de culpar os ucranianos por não quererem acabar com a guerra, apesar de Zelensky, em nome da vida dos ucranianos, ter concordado em dar a Trump recursos estratégicos da economia ucraniana.
O mero fato de Trump ter-se sentado para jogar cartas com Putin deu a este último a oportunidade de continuar a matar ucranianos em massa.
Trump tinha uma alternativa para resolver a guerra russo-ucraniana? Sim, tinha.
Em cidades russas como Vladivostok ou Khabarovsk, poderiam ter aparecido “homenzinhos verdes” com sotaques ingleses e franceses, armados com equipamentos modernos, e declarado a criação da República Popular “Cunha Verde” (nome histórico ucraniano da parte sul do Extremo Oriente, na parte inferior do rio Amur, no Oceano Pacífico, com uma área total de cerca de 1 milhão de km², onde a maioria da população é composta por ucranianos étnicos).
Isso mudaria imediatamente os jogadores na mesa, onde a agressiva Rússia se tornaria a “aposta”, e os jogadores seriam os EUA, China e Europa, incluindo a Ucrânia. Nesse caso, Putin não teria nem a quem fazer reclamações, porque os “homenzinhos verdes” foram ideia dele, e há mais interessados em se separar da Rússia nessa região do que russos na Crimeia ocupada.
Infelizmente, com todas as possibilidades que Trump tinha de obrigar Putin a buscar a paz dessa forma, ele escolheu jogar cartas com o diabo com o slogan: “fazer a Rússia grande novamente”. Mas isso significa que tudo está perdido para a Ucrânia? Não! Porque já está se formando um novo eixo transatlântico poderoso na política global (UE, países nórdicos, Inglaterra, Canadá e Ucrânia), onde países livres não desejam jogar cartas com vidas humanas, mas construir sua segurança com base na igualdade e no direito. Um eixo onde o futuro será determinado pela sociedade civil, e não por ditadores e oligarcas.