Depois do último Conselho Nacional ter funcionado como uma espécie de catarse coletiva, Luís Montenegro aproveitou o novo encontro desta quarta-feira para tentar virar a página do caso Spinumviva. Numa reunião que arrancou com a escolha (por aclamação e sem surpresa) de Montenegro como candidato a primeiro-ministro, o líder social-democrata esforçou-se por tentar arrastar Pedro Nuno Santos para um campo onde julga ter vantagem competitiva: o das ideias e projeto para o país.
Num discurso de cerca de 40 minutos, Montenegro passou em revista as principais medidas aprovadas pelo partido, falou diretamente para o eleitorado mais jovem (a grande base da Aliança Democrática) e menos jovem (os eleitores mais fiéis ao PS) para, no final, desafiar Pedro Nuno Santos a dizer o que pretende exatamente para o país.
“Vamos colocar ao país a questão que tem de ser colocada: vale a pena mudar de Governo? Para onde? Ou vale a pena reforçar este Governo? E para quê? O que se espera da campanha eleitoral é que aqueles que querem uma mudança expliquem em que é que essa mudança consiste e mostre que são mais habilitados do que nós”, desafiou o primeiro-ministro, antes de pedir, novamente, uma campanha eleitoral com nível e longe dos casos e casinhos. “Vamos, mais uma vez, de terra em terra, de debate em debate, explicar o objetivo das nossas políticas e a consequência que esse objetivo tem na vida concreta de cada um de nós. Vamos ver quem é que está preparado para este debate. Nós não nos vamos isentar da nossa responsabilidade e de fazer uma campanha elevada.”
Sabendo que nesta, como em qualquer eleição a nível nacional, o desempenho económico é um fator muito importante para o resultado final, Montenegro centrou grande parte da sua intervenção na defesa dos méritos do Governo nessa frente. “Quem não se lembra da acusação que nos faziam: ‘Mas estão a prometer o que não conseguem cumprir? Vão dar cabo das contas públicas equilibradas?’ Mas tudo isto foi possível com rigor, com competência, com capacidade de execução, com sentido de equilíbrio e com sentido de justiça social“, assinalou Montenegro.
Aliás, a escolha dos cabeças de lista às próximas eleições legislativas foi pensada precisamente para alimentar essa narrativa: ao apostar quase exclusivamente em membros do Governo para esse efeito, Montenegro quis provar que o trabalho realizado ao longo destes últimos 11 meses é mesmo a grande mais-valia eleitoral que a coligação (agora já sem o PPM) tem para oferecer ao país.
“Mobilizámos para este combate o melhor que temos na nossa estrutura e o melhor que temos na nossa estrutura está muito no nosso Governo. Se há coisa que nós vamos fazer nesta campanha eleitoral é prestar contas do que fizemos e é explicar o que vamos fazer. E nada melhor do que os protagonistas que fizeram e que, se espera, continuem a fazer para poder explicar isso às pessoas.”
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A escolha polémica de Hernâni Dias e uma lista cheia de ministros
Em relação às escolhas propriamente ditas, o destaque vai mesmo para a indicação de Hernâni Dais como cabeça de lista pelo círculo eleitoral de Bragança. Recorde-se que o antigo autarca se demitiu do cargo de secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território depois de se descobrir que tinha criado duas empresas imobiliárias já como governante — facto que ajudou a incendiar a polémica em torno da chamada “Lei dos Solos”.
Na altura, Montenegro classificou como “imprudente” a decisão de Hernâni Dias. Já depois de deixar o Governo, o antigo presidente da Câmara de Bragança voltaria ao Parlamento para assumir o lugar de deputado. Mas o dano estava causado: foi precisamente a polémica em torno de Hernâni Dias que provocou a sequência de eventos que levou à queda de Luís Montenegro.
Também por isso, a escolha de Hernâni Dias como cabeça de lista por Bragança está a ser interpretada por muitos no PSD como uma provocação desnecessária e um fator que provocará um desgaste que seria dispensável nesta campanha eleitoral. Em alternativa, vai-se explicando que o antigo autarca, apesar da imprudência, não é arguido em nenhum processo, nem sequer suspeito de ter cometido qualquer ilegalidade — além de ser uma pessoa respeitada na região.
Quanto ao mais, destaque para a ida de Luís Montenegro por Aveiro e para a inclusão de José Pedro Aguiar-Branco na lista de deputados como cabeça de lista por Viana do Castelo — o que pressupõe que pode vir a ser novamente candidato a presidente da Assembleia da República caso a coligação vença as próximas eleições legislativas.
De resto, confirma-se a aposta em vários atuais governantes como cabeças de lista. Pedro Reis (Economia) será candidato por Castelo Branco, Rita Júdice (Justiça) em Coimbra, José Manuel Fernandes (Agricultura) pelo círculo da Europa, Maria Graça Carvalho (Ambiente) vai por Faro, Margarida Balseiro Lopes (Juventude) vai por Leiria.
Além destes, Joaquim Miranda Sarmento (Finanças) vai encabeçar a lista por Lisboa, Paulo Rangel (Negócios Estrangeiros) encabeça a lista pelo Porto, Fernando Alexandre (Educação) estreia-se em Santarém, Ana Paula Martins (Saúde) e António Leitão Amaro (Presidência) vão por Vila Real e Viseu, respetivamente. Manuel Castro Almeida, ministro Adjunto e da Coesão, vai por Portalegre, círculo onde a AD não conseguiu eleger há um ano.
Em termos de pesos pesados do Governo, destaque para as ausências de Miguel Pinto Luz, ministro das Infraestruturas, neste leque de cabeças de lista — será segundo por Lisboa — e de Pedro Duarte, ministro dos Assuntos Parlamentares, que já não esconde a ambição de ser candidato à Câmara Municipal do Porto.
Margarida Blasco, ministra da Administração Interna, e Dalila Rodrigues, com a pasta da Cultura, também não estão entre os escolhidos. Não quer dizer que venham a ser excluídas do futuro Governo, mas não deixa de ser um sinal relevante: as duas governantes mais problemáticas do atual Executivo não mereceram a aposta de Montenegro para o combate eleitoral.
Em alternativa, Cristina Vaz Tomé, secretária de Estado da Gestão da Saúde, que chegou a ser dada como remodelável na sequência da crise da INEM, é aposta como candidata a deputada pelo círculo eleitoral de Lisboa num muito relevante nono lugar. Essa equipa será liderada por Joaquim Miranda Sarmento que sobe assim mais um degrau no partido: depois de ter sido líder parlamentar e ter chegado a ministro das Finanças, sucede a Montenegro como cabeça de lista por Lisboa — é o reconhecimento da grande influência que tem junto do primeiro-ministro.
Acusados na Operação Tutti-Frutti fora das listas. PPM excluído e CDS sem margem
Tal como se previa, Carlos Eduardo Reis e Luís Newton, ambos acusados no âmbito da Operação Tutti-Frutti, não constam da lista de candidatos a deputados pela AD. Antes da dissolução do Parlamento, e na sequência do despacho de acusação, os dois suspenderam os respetivos mandatos de deputados. Não terão lugar na próxima legislatura.
Apesar de ter sido um desejo assumido pelo CDS, os democratas-cristãos não têm garantias de que venham a eleger mais deputados nas próximas eleições legislativas. Além dos dois lugares garantidos (o 4.º pelo círculo eleitoral de Lisboa e o 2.º pelo Porto), o CDS não teve direito a mais deputados nesta lista de candidatos. Em termos realistas, o CDS só pode ambicionar crescer no Parlamento se a AD conseguir eleger 16 deputados por Lisboa e/ou pelo Porto.
O Partido Popular Monárquico (PPM), liderado por Gonçalo da Câmara Pereira, acabou por não ter direito a qualquer lugar elegível nas listas de candidatos a deputados como pretendia e acabou excluído da coligação. Esta exclusão pode trazer um imbróglio jurídico à coligação.
Recorde-se que nas últimas legislativas o grande argumento para incluir Gonçalo da Câmara Pereira, que foi praticamente escondido durante os 15 dias de campanha eleitoral, foi precisamente a necessidade de evitar qualquer confusão em torno da utilização da marca “AD” criada por Francisco Sá Carneiro, Diogo Freitas do Amaral e Gonçalo Ribeiro Telles.
Não há garantias jurídicas de que essa sigla possa ser usada se o PPM for excluído da coligação. Ainda decorria o Conselho Nacional quando Hugo Soares, na qualidade de secretário-geral do PSD, introduziu ainda mais incerteza. Em declarações aos jornalistas, o social-democrata admitiu que a coligação pode manter a sigla “AD” mas mudar a nomenclatura “Aliança Democrática”, dizendo que o nome seria revelado nos próximos dias.
Perante a confusão que se instalou, e já depois da declaração de Hugo Soares, fonte da direção do PSD veio explicar que nada está de facto decidido e que todas as opções estão em aberto neste momento. Nos próximos dias será tomada uma decisão sobre essa questão.