As recentes alterações da política externa e de defesa norte-americana no que toca ao seu posicionamento sobre o conflito russo-ucraniano, tem gerado apreensão e incerteza um pouco por todo o mundo.
O alinhamento da administração de Donald Trump com aqueles que ainda há algumas décadas eram os seus principais inimigos, tem gerado naqueles países que até agora viam nos Estados Unidos da América os seus protectores e aliados, uma crescente preocupação e a procura de novas parecerias estratégicas para a sua segurança e defesa.
O Japão e a União Europeia tiveram uma trajetória histórica muito semelhante de reconstrução e pacificação após a Segunda Guerra Mundial, sob uma forte influência dos Estados Unidos.
De facto, após o fim da guerra, no Japão como na Europa, o crescimento deu-se através de um forte investimento na modernização e crescimento da indústria e da economia, e não pela intensificação do seu poderio militar. Para isso, relegaram as suas preocupações de defesa no aliado norte-americano, convertido no pós-guerra em “polícia do Mundo”.
Hoje, no entanto, a Europa e o Japão enfrentam desafios semelhantes, observando com apreensão o avanço das ameaças representadas por Rússia e China, ao mesmo tempo em que assistem com incerteza à possibilidade de um afastamento estratégico dos EUA, após décadas de dependência do seu suporte militar. Diante desse cenário, o Japão e a União Europeia têm vindo a intensificar seus laços estratégicos.
Em novembro, nas vésperas da eleição presidencial de Donald Trump, o Japão e a Europa firmaram uma pareceria de segurança e defesa, reafirmando o seu compromisso com uma “ordem internacional livre e aberta baseada no estado de direito”, tendo delineado cooperações futuras em segurança marítima, contraterrorismo, defesa espacial e outras áreas.
Se a mudança para uma postura mais robusta de defesa já se vinha a mostrar necessária antes, ela tornou-se agora mais premente diante das incertezas sobre o papel dos Estados Unidos da América na NATO. E se é certo que o Japão ainda não foi diretamente afetado por mudanças no comprometimento americano, existe o receio de que o possa ser caso Donald Trump altere a política externa norte-americana relativamente a Pequim.
Por tudo isso, o Japão tem todo o interesse em arranjar um “plano B”, consolidando a aliança com a Europa para poder para garantir a estabilidade no Indo-Pacífico em todos os cenários.
Tal passará por um reforço mutuo das capacidades defensivas do Japão e da Europa.
E é esse cenário que tem vindo a ser debatido nos parlamentos dos estados europeus e no Japão.
Esta maior aproximação no plano da segurança e defesa poderá também propiciar uma intensificação das relações económicas entre Europa e Japão, que começaram já a ser fortalecidas em Fevereiro de 2019, aquando da celebração do novo acordo comercial entre a União Europeia e o Japão. Esse reforço das relações comerciais e económicas entre o Japão e a Europa, permitiria igualmente amortecer os impactos das novas tarifas que os Estados Unidos tem vindo a anunciar às suas relações económicas com países terceiros.
É evidente que é mais fácil reforçar a cooperação económica entre União Europeia e o Japão do que a cooperação militar, pois o Japão tem sérias restrições constitucionais nessa matéria. E por outro lado, a União Europeia precisa de ter vontade de projectar o seu poder de influência para além das relações transatlânticas e expandi-lo ao Indo-Pacífico.
A ordem mundial, tal como a conhecíamos até agora, está a mudar e o futuro é tão incerto como a política externa de Donald Trump. É fundamental que as democracias ocidentais revejam os seus aliados estratégicos e procurem reforças novas alianças que garantam os valores fundamentais que são a sua base identitária e distintiva.