Na mitologia grega era chamado de Pontus Axeinus, que significa “mar inóspito”, mas depressa as civilizações instaladas nas suas margens perceberam o seu potencial de rota para trocas comerciais. Alteraram então a sua designação para “mar hospitaleiro”. Mais tarde, os turcos, surpreendidos pelas tempestades repentinas e desastres náuticos que ali ocorriam, voltaram à lógica da designação anterior, e batizaram-no como Karadenız — o Mar Negro.
Este mar interior é hoje peça chave para o comércio mundial e, particularmente desde fevereiro de 2022, palco do conflito militar entre a Ucrânia e Rússia. Não só os países atuam militarmente nas suas águas, como têm, tanto assinado como bloqueado, acordos para, mesmo durante a guerra, garantir a circulação comercial de produtos de que tantos países dependem, com destaque para os cereais. Há uma semana, dos Estados Unidos da América (EUA) veio uma boa-notícia: os dois lados concordaram na terça-feira com um cessar-fogo no Mar Negro e em acertar os detalhes de uma pausa no ataque às infraestruturas energéticas um do outro.
“Os EUA ajudarão a Rússia com sistemas de pagamento internacionais, seguro marítimo e acesso portuário para que possa exportar fertilizantes e outros produtos agrícolas para o mercado global”, lê-se na comunicação norte-americana, que determina o seu esforço para levar a que o acordo seja cumprido. Esta ação só acontece se a Rússia “garantir a navegação segura, eliminar o uso da força e impedir o uso de embarcações comerciais para fins militares no Mar Negro”.
A Rússia já avisou que o cessar-fogo depende da suspensão de certas sanções financeiras e comerciais dos EUA, pelo que a rota de paz traçada por Donald Trump poderá ainda enfrentar um caminho de águas agitadas, com especialistas a garantir que a nova administração norte-americana pode estar prestes a cair numa cedência que vai marcar um precedente claro de alívio das sanções ao país agressor — mesmo que na semana passada os países europeus tenham garantindo, pela voz de Emmanuel Macron, que “não é altura para levantar sanções [à Rússia]”.
Mas é difícil prever as decisões de Trump neste campo. Este domingo, por exemplo, o Presidente norte-americano revelou-se “zangado” com o seu homólogo russo por este colocar em causa a legitimidade de Volodymyr Zelensky e preconizar um governo ucraniano de transição. A “frustração” e “impaciência” do líder dos EUA, nas palavras do Presidente finlandês que jogou golfe com ele no domingo, têm sempre uma consequência, na voz de Trump.
https://observador.pt/liveblogs/ucrania-diz-que-russia-lancou-mais-de-100-drones-e-um-missil-balistico-durante-a-noite/
“Se a Rússia e eu não conseguirmos chegar a um acordo para parar o derramamento de sangue na Ucrânia, e se eu achar que foi culpa da Rússia, o que pode não ser, mas se eu achar que foi culpa da Rússia, vou colocar tarifas secundárias sobre todo o petróleo que sai da Rússia”, ameaçou. “Haverá uma tarifa de 25 a 50% sobre todo o petróleo”, avisou.
https://observador.pt/2025/03/31/putin-continua-aberto-a-contactos-com-eua-apesar-das-criticas-de-trump/
Mar Negro: o lago das pretensões imperialistas de que Putin nunca abriu mão
Pela sua posição geoestratégica, há muito que o Mar Negro tem servido como meio de cumprir as pretensões imperialistas da Rússia e, nos últimos 25 anos, os desejos concretos de Vladimir Putin. Este mar situa-se a sul da Ucrânia e a oeste da Rússia, e faz também fronteira com a Roménia, a Bulgária, a Turquia e a Geórgia.
Acresce, agora, que também banha partes da Ucrânia ocupada pela Rússia, incluindo a Crimeia, anexada pela Rússia em 2014. Antes disso, em 2008, foi através do Mar Negro, e por causa da região georgiana na sua costa — a Ossétia do Sul — que a Rússia acabou por entrar num conflito com a Geórgia. Por isso mesmo, tem neste momento diversas bases militares no país, que oferecem à Federação Russa um acesso e localização privilegiados em relação à Ásia e ao Médio Oriente.

Desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, que Putin percebeu o papel ainda mais estratégico e único que a região marítima tem. Em 2024, com a integração da Suécia e da Finlândia na NATO, ficou com acesso vedado ao Mar Báltico. Graças à estratégia de defesa comum fechava-se assim uma porta de influência russa, como explicou Neil Melvin, Diretor de Segurança Internacional do Royal United Services Institute, à CNN Internacional.
É de esperar, portanto, e mais do que nunca, que o Presidente russo não abra mão do poder e acesso que o Mar Negro ainda lhe garante.
https://observador.pt/2022/03/30/georgia-na-televisao-russa-presidente-da-regiao-separatista-da-ossetia-do-sul-disse-querer-juntar-se-a-russia/
Assim, se desde 2022 a Rússia passou a olhar para o Mar Negro como uma região militar estratégica para lutar contra a Ucrânia, nunca deixou de o ver essencialmente como uma rota comercial, condicionada até agora pelas sanções que lhe são impostas por conta da agressão à soberania ucraniana.
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Acordo vem “formalizar um status quo existente” de não ataque a barcos comerciais
“Não podemos olhar para o Mar Negro apenas na sua exclusiva ótica da segurança da Ucrânia e da Federação Russa”, garante Arnaut Moreira, em declarações ao Observador. o O major-general entende que, mais do que a ameaça militar que representa, a situação de conflito no Mar Negro “afeta a economia local de um conjunto significativo de países”.
“Este grupo de Estados tem acesso ao Mar Negro e depende dele como meio, como canal e como infraestrutura de apoio marítimo para poderem aceder depois, através do [estreito do] Bósforo, aos mares abertos”, afirma o especialista em geopolítica.

Como recorda Arnaut Moreira, perante o eclodir da guerra, a Turquia ganhou o direito de impedir a circulação de navios de natureza militar pelo Mar Negro. “[Esta proibição] colocou de imediato, tanto à Ucrânia como à Federação Russa, a possibilidade de usar navios de natureza comercial para fazer passar equipamento de natureza militar através do Bósforo”.
Acrescenta que uma das questões que está a ser discutida, perante o novo acordo de cessar-fogo no Mar Negro, é a “necessidade de inspecionar a navegação comercial (que passará a ser mais intensa) para evitar que ela esteja a ser utilizada para contornar a tal especificidade do trânsito marítimo militar”, assim que forem retomadas todas as vias comerciais.
Desde fevereiro de 2022, que, tanto a economia ucraniana como a russa, têm sido largamente prejudicadas pelo ambiente de não segurança para a navegação marítima. As consequências foram tais que este foi um dos primeiros acordos assinado — o chamado acordo dos cereais —, mediado pela Turquia e pelas Nações Unidas poucos meses depois da invasão. “Foi talvez o primeiro acordo que se conseguiu entre a Federação Russa e a Ucrânia”, frisa o major-general, ouvido pelo Observador.
O compromisso referia-se à liberdade de circulação de um conjunto de navios com uma tarefa muito específica, a de transportar cereais produzidos principalmente na Ucrânia, mas também na Rússia, em segurança.
https://observador.pt/2023/07/18/o-fim-do-acordo-dos-cereais-do-mar-negro-o-que-pretende-a-russia-e-o-que-acontece-a-seguir/
O acordo chegou a permitir, de agosto de 2022 a julho de 2023, a passagem de quase 33 milhões de toneladas de cereais e outros bens alimentares, mitigando os efeitos da fome e da escassez um pouco por todo o mundo e sobretudo nos países mais pobres, largamente dependentes das importações ucranianas. Um ano depois, a Rússia decidiu terminar o acordo, fazendo soar os alarmes internacionais, mas segundo Arnaut Moreira desde então não têm existido notícias de ataques diretos da Ucrânia e da Federação Russa a navios mercantes.
Assim, o especialista em Defesa entende que o acordo de cessar-fogo no Mar Negro vem, mais do que tudo, “formalizar um status quo existente”. “Não se estavam a atacar navios da marinha mercante, uma vez que isso era do ponto de vista político ingerível na cena internacional“.
A principal vantagem que vê na formalização das tréguas para esta região marítima é a de causar a diminuição do preço dos seguros às embarcações. “Não é a mesma coisa fazer um seguro para um barco que está em conflito militar e fazê-lo navegar numa zona onde impera um cessar-fogo, os fretes de natureza comercial irão certamente diminuir”, garante.
“Washington não é um mediador honesto nestas negociações diplomáticas”
As tréguas que agora vigoram no Mar Negro foram conseguidas depois de vários dias de diplomacia de vaivém dos EUA em Riade, na Arábia Saudita, mas para vários especialistas, os resultados são “escassos”.
“É um passo útil, mas não um grande passo, porque o Mar Negro não viu grande atividade cinética por quase dois anos, já que a Ucrânia venceu a batalha no mar quando os seus drones navais expulsaram a Frota Russa do Mar Negro da Crimeia”, recorda John E. Herbst, ex-embaixador dos EUA na Ucrânia e diretor sénior do Centro Eurásia do Atlantic Council.
Herbst entende que o acordo alcançado camufla o objetivo de Putin em “prolongar as negociações” com a pretensão de “continuar a conquistar mais território ucraniano”. “Infelizmente, a equipa de Trump, no meio do esforço para persuadir o Kremlin a aceitar o cessar-fogo naval, ofereceu mais concessões”, afirma o antigo diplomata, que as classifica de “grandes demais para o [país] agressor que recusou a proposta de Trump para um cessar-fogo geral”.
James Nixey, chefe do programa Rússia-Eurásia no think-tank Chatham House de Londres, entende, também em declarações ao Atlantic Council, que “não é de surpreender que os americanos tenham concordado com a maioria, se não todas, as exigências da Rússia” porque “os EUA querem quase qualquer acordo”.
“Washington não é um mediador honesto nestas negociações diplomáticas”, acrescentou, lembrando que o país “deseja a normalização das relações com a Rússia às custas das demandas, ambições e desejos da Ucrânia”.
Já Arnaut Moreira diz ao Observador que o acordo é um “disfarce”, isto porque “seria a primeira vez que as sanções [contra a Rússia] começariam a desaparecer”. “Haverá um precedente para ir alargando o desaparecimento das sanções a um conjunto de outras áreas”, alerta, referindo a pressão que esta condição imposta pela Rússia tem nos “outros países para que imitem os EUA e comecem a retirar as sanções”.
Não parece que seja esse o caminho já que todos os países europeus, com exceção para a Hungria, garantem que as sanções à Rússia são para manter. “Está claro que a Rússia está a tentar atrasar as coisas, está a fazer jogos. Isso tem de ter consequências”, disse o ainda chanceler alemão Olaf Scholz, apresentando logo de seguida uma em concreto: “Tem de haver clareza total de que este não é o momento para levantar sanções. Pelo contrário.”
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Arnaut Moreira entende mesmo que esta é a “parte perigosa do acordo com os EUA” no Mar Negro. “Podem estar só a preparar-nos para que este alívio comece a acontecer“, refere, mostrando claras dúvidas em relação aos benefícios deste acordo para a Ucrânia. “Não especifica em lugar algum se os portos ucranianos de Kherson, Mikolaiv e Odessa permanecem dentro do cessar-fogo ou se a Rússia pode continuar a atacá-los à distância e à vontade, como tem feito nas últimas semanas”, assegura.
De resto, grande parte dos analistas ocidentais temem que o acordo mediado pelos EUA para um cessar-fogo marítimo venha acrescentar pouco mais do que um desejo na lista imposta pelo Kremlin — no fundo uma concessão do presidente Donald Trump a Vladimir Putin.