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(A) :: "O Lisbon Insiders não é sobre mim. É sobre dar voz a quem está a fazer coisas boas em Lisboa"

"O Lisbon Insiders não é sobre mim. É sobre dar voz a quem está a fazer coisas boas em Lisboa"

A paixão por Lisboa trouxe-a até Portugal há 6 anos, mas foi a gastronomia que a fez ficar. Hoje é a cara por detrás do Lisbon Insiders, guia criado para apoiar pequenos projetos na restauração.

Carolina Sobral
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Tomás Silva
photography

Não é sobre ela. É sobre como apontar holofotes nos pequenos projetos gastronómicos, restaurantes, hotéis e as pessoas que estão nos bastidores. É sobre apoiá-los, dar-lhes visibilidade e falar sobre estes “heróis desconhecidos do universo culinário”, diz-nos. É sobre pessoas e, principalmente, é para todos aqueles que gostam de comida. Falamos do Lisbon Insiders, o guia gastronómico lisboeta que se espalha entre prémios, revistas, newsletters que caem semanalmente nas caixas de correio e dicas sobre os melhores restaurantes, hotéis e experiências — que se esticam de norte a sul de Portugal, com Porto, Alentejo e Algarve em versão mapa digital. Não são influencers nem bloggers, são curadores e preparam-se para entrar na 4.ª edição da cerimónia de entrega de prémios, marcada para a próxima segunda-feira, 31 de março, no LX Factory.

Em antecipação, conversamos no Tiffin — nomeado em 2022 — com a franco-venezuelana Stéphanie Pons Picard, a cara deste projeto. Criado em 2021, o Lisbon Insiders nasceu da vontade de querer ajudar pequenos negócios do setor da restauração e hotelaria que, com a pandemia da Covid-19, tiveram de fechar portas temporariamente, promovendo-os de forma a que, uma vez tudo calmo e aberto, as pessoas fossem visitá-los. “Como é que os posso ajudar na minha simples forma?”, questionou Stéphanie que, com 15 anos de experiência em hospitalidade entre França, Espanha e Austrália, começou assim a partilhar sugestões sobre os seus restaurantes favoritos de Lisboa no Instagram. Desde as novidades aos clássicos, foi de forma orgânica e rápida que o projeto cresceu, tornando-se essencial para a comunidade gastronómica da capital. “Não é sobre mim, é uma plataforma que tentei construir para dar luz aos insiders, partilhando restaurantes, projetos e as pessoas atrás deles“, reforça, em conversa com o Observador.

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Metade francesa, metade venezuelana, como a própria diz, percebeu cedo que não estava na posição de chegar a uma cidade nova e fingir que conhecia melhor a comida local do que quem já cá andava. Desta forma, rodeou-se de portugueses e questionou como é que viam “o facto de eu ser estrangeira”. Foi assim, com uma grande paixão por comida e com um “olhar estrangeiro”, que viu Lisboa de fora e a mudar, livre de vícios gastronómicos de Portugal.

Quatro anos passados, continua a ser a grande cara — escondida — do Lisbon Insiders, que já é bem mais do que a inicial página de Instagram. Em 2025, Stéphanie quis que o guia fosse mais democrático, continuando a crescer, tendo apostado numa restaurant week. Criada para dar voz ao público, decorreu de 24 de fevereiro a 10 de março, e convidou os foodies de Lisboa a visitar os restaurantes nomeados das 12 categorias dos Prémios Lisbon Insiders 2025 e a votar. Nesta edição, pela primeira vez, a comunidade — que conta com mais de 100 mil utilizadores — vai também poder assistir à cerimónia. Os votos já foram contados e basta esperar para ficar a conhecê-los. Antes, fomos perceber quem são estes insiders e quem é o maior de todos: Stéphanie (mesmo que o Lisbon Insiders não seja sobre ela). Pelo meio, recebemos umas quantas dicas saborosas.

Quem são os tais “insiders” de Lisboa?
Os verdadeiros insiders são o chef, o sommelier, os proprietários dos restaurantes. Por isso, é também uma forma de lhes dar voz. Quando um chef não está a cozinhar, onde é que vai? Qual é o seu restaurante preferido? Onde é que vai para um encontro? Onde é que vai para comer a melhor patanisca, o melhor arroz de polvo, por exemplo? [O Lisbon Insiders] criou uma comunidade, mas sem a vontade de a criar. Foi muito natural.

Quando criou a página, imaginou que viesse a ter a dimensão que tem hoje?
Não, de todo.

Então não tinha esse objetivo?
Nem por isso. Sou tão apaixonada por este setor que tudo surgiu de forma bastante natural. E acho que, pelo caminho, também conheci muitas pessoas interessantes. Depois, sim, surgiu um plano. Normalmente, quando se planeia um negócio a sério, quando se está à procura de investidores, faz-se uma apresentação, procura-se talvez angariar dinheiro. E não foi bem assim. Também me rodeei de muitos portugueses no início do projeto, porque estava muito consciente. Pensava: “Como é que olham para o facto de eu ser estrangeira?” Não quero fingir que conheço a comida melhor do que vocês. Mas trabalho no setor da hotelaria há bastante tempo em diferentes países. Por isso, antes de o lançar, sentei-me com todos os meus amigos portugueses e perguntei-lhes: “Como é que o veem?” E lembro-me de eles dizerem que normalmente gostam de ir aos mesmos sítios, por isso seria muito interessante ter a visão e a perceção de alguém de fora.

Mas quando é que chegou a Portugal?
Mudei-me para Portugal há quase seis anos, vinda da Austrália, onde vivi sete, mas originalmente sou metade francesa, metade venezuelana. Queria voltar para a Europa depois da Austrália e não queria voltar para Paris porque vivi lá 15 anos. E a primeira vez que vim a Lisboa foi há uns 12 anos e fiquei com uma grande paixão pela cidade, mantive sempre Lisboa guardada na minha mente. Decidi mudar-me. Reservei um voo apenas de ida de Sydney, peguei na minha bagagem e cheguei aqui sem conhecer ninguém, sem falar uma palavra de português, mas estava super curiosa.

Tudo aconteceu de forma orgânica. Também me rodeei de muitos portugueses, porque estava muito consciente. "Como é que olham para o facto de eu ser estrangeira?" Eu não quero fingir que conheço a comida melhor do que vocês.
Stéphanie Pons Picard

E como é que começou o Lisbon Insiders?
Na Austrália era marketing para um grupo de hotelaria que tinha diferentes espaços, para brunch, speakeasy, restaurantes, boutique hotel, bistrô, um pouco de tudo. Quando cheguei aqui, comecei a trabalhar também para um grupo de hotelaria e já estava com eles há cerca de um ano quando a pandemia rebentou e tudo fechou. Por isso, trabalhar em marketing e em hotelaria não era a melhor coisa. Apercebi-me que todos aqueles sítios estavam fechados e com dificuldades e pensei: como é que os posso apoiar à minha maneira? Por isso, criei uma página no Instagram chamada Lisbon Insiders. E também porque muitos dos meus amigos e da minha rede, quando vinham a Lisboa, estavam sempre a perguntar-me onde ir, onde tomar um brunch, onde ir para isto e aquilo.

Arrancou quando os restaurante que sugeria estavam fechados?
Sim, no início começou com uma lista a ser partilhada no WhatsApp e depois pensei em como é que podia partilhar os sítios de que gosto tanto mas de uma forma diferente? E, ao mesmo tempo, talvez tentar apoiar estes locais. Estava a recomendar espaços que estavam fechados, sim, mas a ideia por detrás disso era que eram sítios com pessoas que estavam a fazer um trabalho muito bom. Precisavam de apoio. E a melhor forma de os apoiar é ir lá comer. “Assim que reabrirem, por favor, vão lá”, dizia. A página começou a crescer. As pessoas começaram a partilhar. E, a dada altura, começou a tornar-se maior. Por isso, decidi trabalhar nela a tempo inteiro.

Como é que passa de uma página de Instagram para um guia?
Não estava interessada em ter apenas uma página de Instagram porque não sou uma influencer nem uma blogger. Ponderei o passo seguinte e percebi que queria fazer uma revista e uma cerimónia de entrega de prémios. Acho que a primeira cerimónia, em 2022, foi o ponto de viragem. Depois disso criámos a newsletter e o site. E agora temos outro tipo de produto: os mapas digitais. Acho que em quatro anos, a partir desta página do Instagram, tornou-se um meio de comunicação com diferentes plataformas. Criámos um pequeno ecossistema, em que cada plataforma comunica de uma forma diferente. E acho que também comecei este projeto numa altura em que toda a Lisboa estava a mudar. A cena gastronómica estava a mudar. Os estrangeiros estavam a chegar e a trazer também muitos produtos novos. Estava a ser muito animado e entusiasmante.

Como é que a revista funciona?
É uma edição anual. Produzimos 100% do conteúdo. Ou seja, temos uma equipa inteira a trabalhar. Temos jornalistas profissionais, fotógrafos, ilustradores, tradutores. Os restaurantes da revista são os nomeados para os prémios. E depois no interior incluímos entrevistas, artigos, damos a conhecer pessoas, perfis. Acho que muita gente nem sequer sabe que temos uma revista em papel, mas eu queria ter algo tangível, físico, que pusesse tocar e ver.

O que é que diferencia o Lisbon Insiders de outros guias?
Somos como curadores, não somos influencers. É isso que nos torna um pouco diferentes, há espaço para todos. Mas não se encontra a nossa curadoria noutro sítio, porque é o nosso gosto. Por isso, a página do Instagram é mais uma recomendação de lugares e a newsletter é uma espécie de calendário semanal do que está a acontecer. Incluímos uma parte sobre estilo de vida. É uma seleção de talvez duas exposições para ver esta semana, dois concertos, duas festas, workshops. Portanto, é mais sobre eventos. E acho que também se tornou popular, porque muitas pessoas dizem que é muito conveniente. Assim, todas as semanas temos uma espécie de seleção do que fazer, onde ir, o que descobrir. E também lançámos a última parte, os Little Insiders, porque grande parte do nosso público tem filhos e não sabem o que fazer durante o fim-de-semana com as crianças. Por isso, todas as semanas temos uma pequena sugestão de algo para fazer com os filhos.

E como é que formou a equipa?
Somos uma equipa muito pequena. E agora também muitas pessoas entram em contacto connosco para dizer que temos isto a acontecer, que este restaurante vai abrir, este workshop, este evento. Não posso fingir que sabemos tudo e que podemos cobrir tudo. Mas agora também podemos fazer uma pequena triagem. E esperamos que as pessoas gostem do que partilhamos. Por isso, é uma espécie de apoio a pequenos projetos, dando-lhes visibilidade e fornecendo dicas interessantes a pessoas que confiam em nós.

Sente que é uma espécie de enciclopédia de restaurantes para os seus amigos?
Enciclopédia, não sei. Mas espero que eles possam confiar em mim. E, claro, tento estar a par do que se passa e experimentar todos os sítios. E pergunto sempre o que é que procuram porque depende muito. Estão à procura de um sítio chique? E só por causa do design, querem este efeito “uau” e a comida é um pouco menos importante? Querem um sítio onde a comida seja super saborosa? Vai para um encontro, com a sua família, com os seus amigos? Depende.

E não se sente sobrecarregada com a necessidade de saber tudo o que está a acontecer no setor?
Sim, por vezes, é um pouco avassalador. E também em termos do número de mensagens e de tudo o que estamos a receber. Por isso, gostaríamos, mas não temos capacidade para responder a toda a gente e ir até lá, caso contrário ia passar a minha vida num restaurante, do pequeno-almoço ao jantar. Mas também é tentar manter a coerência e, diria eu, ter olho no que se diz. Portanto, conhecer um pouco o produto e o que se está a passar e também dar a oportunidade a alguém que ninguém conhece e dizer “sim, estou disposto a dar-te visibilidade, a apoiar-te tanto quanto pudermos na plataforma, porque ela foi construída para isso”.

Foi isso que fizeram com a cerimónia?
Sim, a cerimónia de entrega de prémios foi também uma forma de chamar a atenção para os chefs de cozinha mais jovens e com projetos mais interessantes. Criámos uma categoria para chefs de cozinha do sexo feminino, porque me apercebi que havia algumas mulheres fantásticas a fazer coisas fantásticas e que acabavam por não ser colocadas à frente do palco. Por isso, foi também observar um bocadinho e tentar mostrar isso.

Não podemos ser comparados com a Michelin porque é uma instituição. Somos completamente opostos. Um dos nossos critérios era que um restaurante com estrela Michelin não podia ser um nomeado do Lisbon Insiders porque já têm muita visibilidade

Este ano há uma restaurant week e há bilhetes para o público assistir à gala do dia 31 de março. Porquê?
Mudámos um pouco. Os nomeados do Lisbon Insiders são selecionados por profissionais, cerca de 40 jurados, e depois reduzimos os nomeados a cinco. E, no final do dia, o que é importante são as pessoas que vão ao restaurante. Por isso, pela primeira vez, abrimos a votação ao público. Portanto, 50% é da votação do júri e os outros 50% do público. E tivemos mais de 4 mil votos do público. E na restaurant week, dissemos: “Muito bem, se abrirmos a votação ao público, devemos incentivar as pessoas a irem descobrir sítios que não conhecem”. Duas semanas antes da entrega dos prémios, convidámos os nomeados a participar na restaurant week e tinham de criar um prato especial, um menu especial, um cocktail especial ou um copo de vinho. E depois seria muito injusto pedir às pessoas que votassem e não lhes permitir que viessem à cerimónia. Mas tentámos pensar no que poderia ser mais justo e também incluir o voto do público. Não queria que, a dada altura, fosse sempre o mesmo júri a avaliar. Queria que fosse um pouco mais democrático. E o nosso público é realmente foodie. Eles percebem de comida.

Qual foi o feedback da restaurant week?
Ainda estamos na fase de análise de tudo isto. E também é importante mencionar que durante a restaurant week não estamos a ganhar dinheiro com isso. As pessoas podem participar. E temos também a ideia de começar a fazer duas edições por ano. Uma com os nomeados e outra com restaurantes que se podem candidatar.

E como é que vai ser a cerimónia? Já há vencedores?
Sim, já encerrámos a votação, por isso agora já sabemos os vencedores. É completamente confidencial. E todos os anos damos aos vencedores um presente muito especial. Por isso, este ano, todos os vencedores vão receber um avental da Yaco & Co. Será personalizado com o nome da categoria e o nome do restaurante. E este ano também há uma novidade. Não vai ser uma cerimónia em que sentamos as pessoas, como costumávamos fazer antes. Por isso, encurtámos um pouco o formato, porque não somos a Michelin. Alterámos um pouco o formato para o tornar um pouco mais informal. Será um palco central com todas as bancas de comida à volta. E o conceito é que convidamos os vencedores do ano anterior a vir cozinhar durante a noite. Por isso, podem saborear alguns petiscos dos vencedores. E depois temos a cerimónia principal onde revelamos os 12 vencedores.

Há quem compare o Lisbon Insiders a outros guias, como o Michelin?
Penso que não podemos ser comparados com a Michelin porque é uma instituição. Somos completamente opostos. Durante algum tempo um dos nossos critérios era que um restaurante com estrela Michelin não podia ser um nomeado do Lisbon Insiders porque já têm muita visibilidade. Por isso, mais uma vez, é esta ideia de apoiar um jovem chef, um pequeno projeto. O nosso conceito é um pouco diferente.

Que tipo de restaurantes é que frequenta mais?
Dependendo do contexto, mas gosto de um estilo de bistrô. Gosto quando é mais casual. Também gosto muito de tascas. Neste momento, um dos meus favoritos é o Vida de Tasca, e também o Tasca Zebras, de que gosto muito. Penso que algumas pessoas, por vezes, se enganam um pouco e pensam que o Lisbon Insiders tem a ver com restaurantes mais chiques, o que não é bem verdade. Pode ser mais por causa do design ou da marca, mas não tem a ver com sítios chiques.

Qual é que foi o primeiro restaurante que experimentou em Lisboa?
Acho que foi a Taberna Sal Grosso. E adorei, adorei mesmo. Acho que foi um dos melhores onde comi, um dos primeiros.

Restaurante favorito, aquele onde vai quando não sabe o que comer?
Bem, o Canalha. Acho que toda a gente concorda com isto. Gosto do ambiente, é descontraído, tem tudo a ver com o produto. Nunca vou ficar desiluda. Por isso, gosto muito mesmo. Ultimamente, a comida de conforto também é o La Joya Cantina, que é um restaurante argentino. É acolhedor. A comida é acolhedora, o ambiente super agradável. O Bar Alimentar também. Gosto muito. Acho que no geral a qualidade tem vindo a aumentar muito. E, claro, agora há mais concorrência. Há cidades que continuam a mudar. E, claro, as mudanças trazem coisas boas e coisas menos boas. Mas é interessante de observar.

E bar favorito?
Bar de vinhos, um dos meus favoritos, é o Insaciável, gosto muito da seleção deles, gosto dos petiscos, e o terraço é super agradável. Já bar de cocktails diria o Na Colina. É muito bom. A mixologia deles é muito boa.

Como é que descobriu o Tiffin Café? Onde estamos agora.
Para ser sincera, é porque vivo aqui perto e, quando me mudei para cá, vi-os a tomar conta do espaço e fiquei bastante curiosa. Percebi que iam abrir um restaurante. Tinham estado a viver na Ásia durante algum tempo e não só são muito simpáticos como a comida é muito boa. Por isso, é como se fosse a minha cantina diária. Adoro quando estou com preguiça e não quero cozinhar. Já como aqui há bastante tempo e quase nunca como a mesma coisa. E foram nomeados há dois anos para a categoria de melhor sítio vegan e vegetariano. Porque acho que foi um dos primeiros a ser realmente vegan e vegetariano. E o meu companheiro costumava ser vegan, por isso era muito conveniente tê-los aqui perto da nossa casa.

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Costuma cozinhar?
Sim, adoro cozinhar.

Qual é o prato que costuma fazer quando recebe amigos em casa?
Adoro fazer um gratin dauphinois, que é um prato francês. É como se fossem batatas cortadas muito finas e cozinhadas num prato dentro do forno com natas, alho e ervas. E põe-se um pouco de queijo por cima. Ou com um peixe grelhado ou legumes assados, eu adoro coisas assadas. Sim, esse é um dos meus pratos preferidos.

E quando cozinha só para si?
Bem, depende de quanto tempo tenho, e ultimamente não tenho muito tempo. Por isso, se estiver muito preguiçosa, cozinho um ovo, a la coque, e mergulho o pão lá dentro. Mas se não estiver preguiçosa, posso cozinhar uma refeição adequada para mim.

Como é que surgiu esta paixão pela cozinha?
Com a minha avó, ela era uma cozinheira fantástica, muito, muito boa. E eu fui criada com a minha avó. Todos os fins-de-semana ela adorava receber pessoas em casa e punha aquelas mesas grandes. Por isso, ia ao mercado comprar os legumes e passava a manhã inteira a cozinhar na sua cozinha. E eu lembro-me que punha os meus dedos em todas as panelas e ela dizia: “Não toques”. Por isso, acho que tudo começou com o amor pela comida e também perceber o que é que está por detrás. Porque, para mim, quando vamos a casa de um amigo ou a um restaurante e temos um prato à nossa frente, há tanta coisa por detrás. Desde o produto ao tempo que essa pessoa gastou [a cozinhar], ao produtor que vai criar as cenouras e tudo. Há tanto por detrás.

Há concorrência mas acho que cada um tem um olhar diferente, uma curadoria, uma forma de trabalhar, de promover. Assim que se faz o que se faz de coração e com paixão, acho que as pessoas talvez o sintam e confiem

Qual é a sua gastronomia favorita de Portugal?
Acho que para mim a cena gastronómica é muito forte. Porto, Évora. Acho que Évora tem restaurantes espetaculares. Muito, muito bons. E o Porto também, e são super amigáveis. Cada vez que vou comer ao Porto fico impressionada com a comida, quer dizer, não estou a comparar com Lisboa, mas é um pouco diferente. De uma forma geral, a cena gastronómica em Portugal está a ficar muito forte. Mas gosto muito da comida alentejana. E também gosto, muito simples, de um peixe grelhado no Último Porto, simples, com batatas assadas.

Também existe um Porto Insiders.
Sim, mas não estamos a ativá-lo neste momento. Mas a cena gastronómica do Porto é fantástica. Só que, neste momento, não temos capacidade para o fazer.

O Lisbon Insiders é mais para os portugueses, para os turistas ou para os estrangeiros que cá vivem?
É para qualquer pessoa que goste de comida. Depende muito da plataforma. Acho que a newsletter é bastante equilibrada entre portugueses e estrangeiros. Nunca comecei por pensar “isto vai ser um projeto para estrangeiros a viver em Lisboa”. Eu sou estrangeira, por isso, talvez organicamente, talvez se tenha tornado um pouco. Se calhar alguns portugueses pensam “não sei se posso confiar nessa pessoa”. Mas é para toda a gente.

Sente que há muitos portugueses que não sabem o que se está a passar neste setor? 
Os portugueses que gostam de comida, acho que sabem. E há muitos influncers de comida e bloggers fantásticos, que sabem muito. E se não souberem, se quiserem ter uma recomendação, podem seguir o Lisbon Insiders, mas também outra plataforma qualquer. Acho que, mais uma vez, sinto que há espaço para toda a gente.

Não sente que há concorrência com os influencers de comida?
Claro que há concorrência, mas acho que cada um tem um olhar diferente, uma curadoria, uma forma de trabalhar, de promover. Por isso, acho que assim que se faz o que se faz de coração e com paixão, acho que as pessoas talvez o sintam e confiem. Mas, por exemplo, o que fazemos através do Insiders Profile, é também entrevistar pessoas que vão partilhar os seus locais favoritos. E sabemos que as pessoas gostam mesmo disso. Mais uma vez, não se trata de mim. Trata-se de dar voz a todas as pessoas que estão a fazer coisas boas em Lisboa. E há muita coisa.

Em 2026 fazem cinco anos, o que estão a planear?
Vamos pensar nisso. Neste momento ainda estamos muito focados nos prémios que estão quase aí. Mas cinco anos será uma conquista. E cada ano é um desafio. Tentamos também encontrar uma forma de nos mantermos vivos e de rentabilizar. Porque rentabilizar os media é um verdadeiro desafio. Como é que se mantém a independência? A dada altura, também é preciso sobreviver.

Qual é que foi o último restaurante onde foi?
Foi o Gancho, o novo restaurante da chef Louise Bourrat. Foi muito bom. A Louise é uma cozinheira espetacular. O ambiente era super agradável e tudo super saboroso.

Costuma comer fora todas as semanas?
Sim. Quero tentar manter a forma, mas claro que estou a tentar estar um pouco atenta ao que se passa e experimentar sítios diferentes.

Se abrisse um restaurante, como é que seria?
Acho que um bistrô francês com um toque venezuelano. Uma boa mistura. Em vez de baguetes teríamos arepas. E depois alguns pratos franceses com bananas. Portanto, com um toque venezuelano.