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Entre porcos, diamantes, skinheads, cozinheiros e adolescentes: Stephen Graham, o bruto sentimental

Longe de ter começado agora, alcançou popularidade que nunca tinha vivido graças à série "Adolescência". Mas quem é este ator inglês? O que andou para aqui chegar e o que podemos ver do seu trabalho?

Andreia Costa
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O currículo já contava com participações em Snatch — Porcos e Diamantes (2000), Irmãos de Armas (2001) e Gangues de Nova Iorque (2002), mas foi This is England — Isto é Inglaterra (2006) que despertou atenções para o talento de Stephen Graham — pelo menos no país em que nasceu, Inglaterra, já que o resto do mundo parece estar agora a acordar, graças ao estrondoso e rápido sucesso de Adolescência, a minissérie que criou e que está disponível na Netflix.

This is England — Isto é Inglaterra deu-lhe consagração, um problema com o álcool e quase lhe acrescentou um filho à família. No filme contracena com Thomas Turgoose, que tinha 13 anos na altura e que desenvolveu uma relação próxima com Graham. No final do projeto, a mãe do adolescente morreu, não resistindo a um cancro, e Turgoose teve de ir viver com o pai, com o qual não tinha contacto até ali.

“Passei muito tempo com o Shane Meadows [realizador] e o Stephen Graham. Eles concordaram que, se não se dessem bem com o meu pai, ou se não achassem que o meu pai seria capaz de me criar, iriam adotar-me”, revelou Thomas Turgoose no podcast Private Parts, em 2021. A medida acabou por não ser necessária e Turgoose conseguiu construir uma relação com o pai. Já a história ressurgiu agora com a interpretação poderosa e dilacerante de Stephen Graham em Adolescência, onde é Eddie Miller, um pai destruído e impotente, mas uma figura fulcral à volta da qual todos gravitam.

Nesta minissérie volta a contracenar com um miúdo de 15 anos, desta vez Owen Cooper, que interpreta o filho, Jamie Miller, um adolescente acusado de matar uma colega. E é Graham o grande responsável pelo desempenho avassalador de Cooper, que nunca tinha feito qualquer filme ou série. “O Stephen estava sempre a ver como é que eu estava”, revelou à revista Variety. Porém, nas filmagens do episódio 1, Stephen Graham teve de ser duro, o que acabou por desbloquear a interpretação de Cooper. “Estávamos só os dois, sem câmaras, na cela da esquadra, e ele deu-me a volta à cabeça e disse ‘nunca mais vais ver a tua mãe, nunca mais vais ver ver o teu pai’ e não parava. […] Antes disso, sentia-me frustrado porque não estava a conseguir emocionar-me. Mas a partir desse ponto, emocionei-me em todos os takes. Por isso, ajudou-me bastante. Foi incrível trabalhar com ele.”

[o trailer de “Adolescência”:]

https://www.youtube.com/watch?v=Wk5OxqtpBR4

Em 2012, Stephen Graham e a mulher estavam a jantar fora, em Londres, quando um jovem o abordou. Disse-lhe que tinha acabado os estudos de representação e que queria ser ator. Em vez de trocar apenas algumas palavras ou oferecer conselhos, Graham pediu-lhe o email. Começaram a trocar mensagens e o ator acabaria por falar do miúdo ao seu agente. O miúdo era James Nelson-Joyce e os dois contracenam agora na série Mil Golpes, na qual são irmãos.

Também Jodie Comer (Killing Eve) arranjou um agente (que continua a ser o mesmo) graças a Graham. Ela tinha apenas 16 anos quando os dois se cruzaram numa série dramática da BBC e nunca mais perderam o contacto. “Ele é sensível e gentil por natureza”, garantiu a atriz ao The New York Times. Os elogios chegam de todos os lados, incluindo de Leonardo DiCaprio. Os dois contracenaram em Gangues de Nova Iorque e, segundo o que DiCaprio disse à mesma publicação, a “imprevisibilidade destemida de Graham manteve toda a gente alerta. Mas mais do que isso, ele trazia verdade a cada cena”.

Com menos de duas semanas de vida (estreou-se a 13 de março), Adolescência transformou-se num fenómeno mundial. De acordo com os números mais recentes (disponíveis na segunda-feira, 24 de março), a minissérie está em primeiro lugar do top em 75 dos 93 países onde a Netflix está disponível. Nos primeiros quatro dias foi vista por mais de 24 milhões de subscritores.

Os papéis mais exigentes têm deixado marcas em Graham. Quando interpretou um skinhead no filme This is England, em 2006, refugiou-se no álcool. Chegava a casa e desmoronava a chorar e a beber após filmar as cenas mais intensas. O racismo e a agressividade da história deixaram-lhe tantas marcas que pensou deixar a representação. “Depois de This is England não conseguia arranjar trabalho. Durante cerca de oito meses não consegui fazer uma audição. Quase desisti de tudo. Ia trabalhar com jovens”, confessou no programa Desert Islands Discs.

Quatro episódios seguem a história de um miúdo de 13 anos, Jamie Miller, acusado de matar uma colega de escola. A forma como o próprio, a família, a comunidade e os detetives envolvidos são afetados pelo crime e gerem a situação (além de levantar questões de radicalização online de jovens, os significados escondidos nos emojis e mensagens, a violência dissimulada, entre muitos outros temas que estão gerar muita discussão) divide-se em quatro episódios, sempre filmados num só take (cada um dura entre 50 minutos e uma hora).

Graham co-criou e co-escreveu a história com Jack Thorne (Joy, Mundos Paralelos, Wonder — Encantador) quando percebeu que não conseguia tirar o tema da cabeça. “[Pensei] o que realmente está a acontecer aqui e agora, ao termos jovens rapazes a esfaquearam raparigas até à morte?”, revelou à revista GQ.

“Tinha uma ideia para estes quatro episódios, mas, basicamente, eu e o Jack tornámo-nos Frankenstein. Eu trouxe as partes do corpo, o Jack criou depois um espírito e juntos trabalhámos na alma. Porque eu só tinha uma ideia e personagens sem rosto. E o Jack trouxe a história do incel. Eu disse: ‘Olha, eu sei da radicalização online, mas não a percebo, não a compreendo.’ O Jack fez toda a pesquisa para isso.”

Imitações para fazer a avó rir

Stephen Graham nasceu a 3 de agosto de 1973 em Kirkby, Lancashire (noroeste de Inglaterra). Cresceu com a mãe, assistente social, e o padrasto, um mecânico que entretanto se formou em enfermagem pediátrica, mas manteve uma relação com o pai biológico.

Tinha uma avó sueca e um avô jamaicano e o facto de ser birracial — tem a pele mais clara do que os irmãos — valeu-lhe alguns abusos enquanto criança. “Sou mestiço. Quando era miúdo, chamavam-me palavras horríveis que nem quero dizer, e ‘rapaz macaco’”, recordou ao jornal The Sun. Na escola primária participou numa produção de Ilha do Tesouro e foi aí, quando tinha oito anos, que um ator da zona, Andrew Schofield, o viu e o encorajou a seguir representação. Em casa, imitava pessoas que via na televisão, como Margaret Rhatcher, para fazer rir a avó e tinha as paredes do quarto forradas com posters de Al Pacino, Robert De Niro e Daniel Day-Lewis — viria a trabalhar com os dois primeiros em O Irlandês e com o último em Gangues de Nova Iorque.

Quando era miúdo, envolveu-se em pequenos delitos — chegou a roubar Porsches — antes de perceber que não era esse o caminho e de se inscrever no Rose Bruford College of Theatre & Performance. Estreou-se no cinema em 1990, no filme Dancin’ Thru the Dark. Era o “rapaz do futebol”.

A grave depressão e uma tentativa de suicídio

Instalou-se em Londres nessa fase e a mudança foi um choque. Com 20 e poucos anos tentou enforcar-se, só não morreu porque a corda cedeu. Na altura, sofria de uma grave depressão causada pela mudança para a capital inglesa, onde se sentia sozinho e isolado e se dedicava a duras técnicas de representação que o incitavam a remexer em traumas pessoais para tornar as atuações mais credíveis. “Hoje, consigo mergulhar nessas emoções e usá-las”, garantiu ao The New York Times, mas naquela altura foi bem diferente.

“Tive um esgotamento por causa de todas as coisas traumáticas que tinham acontecido no final da minha adolescência. O meu irmão acabara de nascer. Os meus pais tinham perdido um bebé rapaz [à nascença] três anos antes. A minha avó tinha morrido quando eu tinha 14 anos”, contou ao The Sunday Times em 2019. Quando voltou a casa, após a tentativa de suicídio, tentou esconder dos pais o que se passava. “Vesti uma camisola de gola alta, uma daquelas com fecho. A minha mãe viu e perguntou: ‘O que é isso?’ Aí, tudo veio à superfície e eu disse: ‘Não sei como lidar com isto’”, explicou no programa Desert Island Discs da BBC.

Pouco depois, começou a namorar com a também atriz, e agora mulher, Hannah Walters (que faz uma breve aparição como professora em Adolescência). Juntos, têm dois filhos. Sofre de dislexia e ainda hoje é a mulher que lhe lê os manuscritos que lhe chegam para que seja mais rápido e fácil perceber se é ou não um projeto que lhe interessa. Quando avança, também trabalha o triplo. “Tenho de ler e ler e ler e depois fazer parecer que é a primeira vez que estou a dizê-lo.”

Em 2001 foi Mike Ranney na minissérie Irmãos de Armas (produção da HBO, agora disponível na Netflix) sobre um batalhão de paraquedistas a combater na Segunda Guerra Mundial. Foi aí que se cruzou com Philip Barantini, realizador e argumentista conhecido pelas suas filmagens de um só take. Foi assim que fizeram juntos Ponto de Ebulição (2021) e Adolescência, onde cada episódio é um take único, em tempo real.

Os papéis mais exigentes têm deixado marcas em Graham. Quando interpretou um skinhead no filme This is England, em 2006, refugiou-se no álcool. Chegava a casa e desmoronava a chorar e a beber após filmar as cenas mais intensas. O racismo e a agressividade da história deixaram-lhe tantas marcas que pensou deixar a representação. “Depois de This is England não conseguia arranjar trabalho. Durante cerca de oito meses não consegui fazer uma audição. Quase desisti de tudo. Ia trabalhar com jovens”, confessou no programa Desert Islands Discs.

Acabaria por manter-se na representação mas, para ajudar jovens talentos oriundos de meios desfavorecidos, criou a Matriarch Productions, que gere com a mulher (a empresa é uma das produtoras de Adolescência, juntamente com a Plan B Entertainment, de Brad Pitt). Depois de Adolescência, a primeira coisa que todos querem saber é: quem é Stephen Graham. A segunda é: o que podemos mais ver dele em Portugal? Já respondemos à primeira pergunta e resolvemos agora a segunda com algumas das melhores interpretações do britânico de 51 anos.

“Ponto de Ebulição” — Max e Filmin

https://www.youtube.com/watch?v=UBUfCL_tvro&pp=ygUcYm9pbGluZyBwb2ludCBzdGVwaGVuIGdyYWhhbQ%3D%3D

A forma como os episódios de Adolescência foram filmados, com um único take, foi a mesma usada no filme de 2021, Ponto de Ebulição. Por detrás da câmara, o mesmo nome: Philip Barantini. Aos comandos do elenco, idem: Stephen Graham. É um chef que nos guia pelo stress infernal dos bastidores de um prestigiado restaurante na noite mais movimentada do ano. Quem já viu The Bear poderá reconhecer o mesmo de tipo de caos numa cozinha, mas aqui acontece tudo em tempo real, com as lentes em cima dos atores durante cerca de hora e meia.

Como foi produzido durante a pandemia, houve apenas dois dias de filmagens, que resultaram em quatro takes. O terceiro foi usado como versão final. Antes, em 2019, tinham feito uma curta-metragem de 22 minutos chamada Boiling Point e há também uma série de quatro episódios, uma sequela criada em 2023.

“Mil Golpes” — Disney+

https://www.youtube.com/watch?v=cCbx8wVTnc0&pp=ygUddGhvdXNhbmQgYmxvd3Mgc3RlcGhlbiBncmFoYW0%3D

Quando Steven Knight aceitou escrever Mil Golpes, Stephen Graham já fazia parte do projeto. Foi exatamente a oportunidade de poderem trabalhar juntos de novo que levou o criador de Peaky Blinders (na qual Graham interpretou Hayden Stagg) a envolver-se na série — e a aceitar fazê-lo por um valor bastante inferior ao que está habituado.

Na história — passada em Londres, em 1880 —, Graham é Sugar Goodson, um conhecido pugilista cuja carreira começa a abrandar mas que continua a mandar no bairro, juntamente com o irmão Treacle (James Nelson-Joyce), e a subornar a polícia. Para o papel precisou de seis meses de treino, sendo esta “de longe a maior transformação” da carreira dele, garantiu ao The New York Times. “Sou um tipo pequeno, tenho 1,67 m, mas para este papel queria aquela estatura de bulldog.”

A personagem só aparece no final do primeiro episódio, algo que aconteceu porque Knight sabia que bastaria a Stephen Graham uma fala para agarrar os espectadores. Para já, há seis episódios disponíveis, mas a segunda temporada foi filmada ao mesmo tempo e está, por isso, garantida.

“Snatch: Porcos e Diamantes” — Netflix

https://www.youtube.com/watch?v=6LLGyOwCzEQ&pp=ygUVc25hdGNoIHN0ZXBoZW4gZ3JhaGFt

Casas de apostas, gangsters, ladrões incompetentes e promotores de boxe desonestos — tudo misturado na corrida para encontrar um diamante roubado de valor incalculável. O filme tornou-se famoso pelo texto de Guy Ritchie e pela interpretação de Brad Pitt, mas Stephen Graham também lá está no meio do caos. É Tommy, amigo e parceiro de negócios de Turkish, a personagem de Jason Statham.

O papel caiu-lhe no colo quase sem ele querer, já que foi à audição apenas para acompanhar um amigo. “Ele [o amigo] entrou, saiu enquanto eu bebia um chá. O Guy [Ritchie] saiu e perguntou: ‘És o próximo?’ Eu disse: ‘Não, vim só com o meu amigo’.”, recordou ao site Ladbible. No entanto, o realizador insistiu para que Graham fizesse o casting. Mesmo com a dislexia a impedi-lo de ler a cena que tinha de interpretar, improvisou e ficou com o papel.

“O Irlandês” — Netflix

https://www.youtube.com/watch?v=qBx4pezGXHg

Em 2019, Martin Scorsese juntou, numa história de mafiosos, Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci, basicamente todos os ídolos de juventude e mais alguns de Stephen Graham. No filme é Anthony ‘Tony Pro’ Provenzano, um mafioso de uma das famílias.

“Foi a minha final da Liga dos Campeões. Estas são as pessoas que cresci a ver, a idolatrar e a querer imitar, portanto para um miúdo de Kirkby trabalhar com elas foi incrível. […] Improvisamos tanto. Atirei ao chão um gelado da mão do Al Pacino, coisa que ele não estava à espera. Atirei uma frase ao Bobby De Niro e ele ripostou logo com a melhor resposta. Essas cenas foram uma alegria”, recordou ao jornal The Guardian.

“Time” — Disney+

https://www.youtube.com/watch?v=_YQ7_yIVtbU

A vida no sistema prisional britânico é o mote para esta antologia de seis episódios, na qual Stephen Graham interpreta um guarda prisional e Sean Bean um homem a cumprir pena. Condições desumanas, uma ligação pouco provável e uma data de interpretações magníficas (incluindo de Bella Ramsey, uma das protagonistas de The Last of Us) fazem com que este desempenho seja mais um dos imperdíveis de Graham.

“Deliver Me From Nowhere” — nos cinemas ainda em 2025

Brevemente, no filme biográfico sobre Bruce Springsteen, interpreta o pai do músico, Douglas ‘Dutch’ Springsteen, e até recebeu uma mensagem do autor de Born to Run. “[Bruce Springsteen] enviou-me as mais incríveis mensagens que já recebi na vida porque interpreto o pai dele nos anos 80”, explicou no podcast de Edith Bowman.

Uma das mensagens, recebida após um dia de filmagens, dizia: “Melhor do que qualquer prémio que poderia receber na vida. […] Muito obrigada. Sabes, o meu pai morreu há algum tempo e senti que hoje o vi, obrigado por me dares essa memória”. O filme, protagonizado por Jeremy Allen White, chegará aos cinemas ainda este ano.