
A frase
No Mosteiro de Alcobaça em Portugal existe uma porta de 2 metros alta e apenas 32 cm de largura, considerada a porta mais estreita do mundo. Chamada Porta Pega-gordo, o seu design curioso tinha como objetivo não permitir que monges com excesso de peso passassem.
— Utilizador de Facebook, 30 de outubro de 2024
As imagens aparentam mostrar uma porta alta, de madeira, estreita. “Esta porta pode parecer um erro de arquiteto, mas não é”, lê-se no texto que acompanha a fotografia partilhada no Facebook. “No Mosteiro de Alcobaça em Portugal, construído em 1178, existe uma porta de 2 metros alta e apenas 32 cm de largura, considerada a porta mais estreita do mundo”, continua a mesma publicação. “Chamada Porta Pega-gordo, o seu design curioso tinha como objetivo, como o nome sugere, não permitir que monges com excesso de peso passassem, porque esta porta era a única entrada para a cozinha onde a comida era servida. Portanto, para poder entrar, os monges tiveram que perder peso, era uma ordem”, prossegue o mesmo texto.

O post coleciona dezenas de gostos, partilhas, e comentários. Como este há muitos outros, já que a suposta “lenda” do monumento nacional que fica em Alcobaça, cidade do distrito de Leiria, viralizou nas redes sociais.
O Observador contactou a Museus e Monumentos de Portugal (MMP) no sentido de confirmar se, desde logo, a porta em questão existe. As imagens partilhadas correspondem a uma abertura existente no Refeitório dos Monges do Mosteiro de Alcobaça, em Alcobaça. Uma fotografia cedida a este jornal mostra a abertura. Também se confirmam as dimensões divulgadas nas redes sociais: 2 metros de altura por 32 cm de largura.

Se é um facto que a “porta” tem 2 metros de altura e 32 cm de largura, não se pode, porém, dizer que esta seja a “porta mais estreita do mundo”, como alegam alguns utilizadores nas redes sociais. Isto porque, na verdade, a abertura não é considerada sequer uma porta.
Quem o diz é Ana Pagará, diretora do Mosteiro de Alcobaça, em declarações ao Observador. “Da análise arquitetónica fica claro que não é uma porta, mas sim uma abertura adventícia, ou seja, construída a posteriori, sendo visível na cantaria o encaixe no paramento original (este picado aquando da remoção do seu revestimento)”, começa por explicar. “Após a exclaustração, em 1834, o Refeitório foi adaptado a Teatro municipal, inaugurado em 1840, por quanto sofreu obras de adaptação que levaram a alguma desfiguração da arquitetura, tendo sido desmantelado apenas em 1928-29, a par do restauro da estrutura existente. Terá sido, possivelmente, nesta altura que se procedeu ao arranjo desta abertura, criando-se a ideia de se tratar de uma porta para aferir se os monges incorriam ou não no pecado da gula, tomando como medida a dimensão das respetivas barrigas”.
Mas haverá fontes credíveis que confirmem esta ideia? Ana Pagará confirma que “corre, com efeito, uma estória local sobre esta abertura, segundo a qual esta seria uma “porta” para medir a barriga dos monges, numa alusão direta ao pecado da gula”. No entanto, “não o podemos tomar como um facto histórico, não tendo sido encontrado até ao momento, qualquer referência documental”, adverte a responsável pelo monumento.
Aliás, segundo a diretora do Mosteiro de Alcobaça, “nalguma bibliografia tem sido apontada como o passa-pratos, uma vez que a abertura comunicava com o espaço da primitiva cozinha, destruída no século XVI para dar lugar à construção do Paço abacial”. “No entanto, não só a sua largura é demasiado estreita para esta função, como logo a seguir, à esquerda, subsiste efetivamente um vão de porta original cuja tipologia corresponde à adotada noutros mosteiros cistercienses congéneres ao de Alcobaça para espaço de passa-pratos e comunicação entre a cozinha e o refeitório”.
Conclusão
Não há qualquer fonte credível que prove que a abertura em questão era uma porta que servia para não deixar passar os monges que engordavam, como confirma ao Observador a diretora do Mosteiro de Alcobaça.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ERRADO
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.