Na estante que ladeia a minha secretária tenho a coleção dos chamados “livros de especialidade”. RAP, Bruno Nogueira, João Quadros, Mário de Carvalho, Woody Allen, Steve Martin, Seinfeld, John Cleese, Eric Idle… E entre estes dois últimos autores, tenho uma obra muito especial, publicada pelas Edições Asa em janeiro de 2001, cujo título reza assim: Tás a ver? Big Brother Antes, Durante e Depois. O autor é Big Mário (se não acreditam que foi assim que ele assinou o livro, pesquisem no Google, mas digo já que vos fica mal). Foi um presente de Natal, há uns dois anos, do meu querido filho, que sabe bem como me aquecer o coração.
E perguntam: “Mas porque é que colocaste o Big Mário entre dois dos maiores nomes da comédia internacional? Ele tem assim tanta graça?”. De todo. Quer dizer, estive cerca de três dias a folheá-lo e a rir-me, mas sou uma menina especial. Só que colocar entre os Monty Python a biografia do jovem de São Mamede Infesta, que concorreu à primeira edição nacional do Big Brother, é hilariante para mim. E às vezes preciso disso no meu dia. Também tenho o Foi sem querer que te quis do Raul Minh’alma entre o Trevor Noah e o Almodóvar. Nunca li, mas faz-me feliz sempre que lhe olho para a lombada.
Lembro isto porque esta semana começou uma nova edição do maior reality show do mundo, que se estreou há um quarto de século em Portugal — mais precisamente, os concorrentes entraram n’A Casa da Venda do Pinheiro pela primeira vez no dia 3 de setembro. É o momento certo para reconhecer o impacto que a produção teve (e continua a ter) na televisão portuguesa, abrindo espaço para o mercado dos reality shows, que não mais parou de procurar a reinvenção, mais ou menos conseguida. E é também a ocasião certa para fazer uma pequena retrospetiva da vida do Big Brother entre nós, porque é sempre divertido e dá uma certa gravitas ao tema.
[o Big Brother é o tema em destaque deste episódio do Pop Up:]
https://observador.pt/programas/pop-up/25-anos-depois-o-que-e-que-o-big-brother-nos-fez/
Big Brother 1
Setembro de 2000
A televisão mudou, a Teresa Guilherme mudou o formato à sua medida, o Marco Borges mudou o peito da Sónia com o pontapé que lhe deu e o Telmo mudou para sempre a maneira como eu digo fait divers. No fim, ganhou o Zé Maria, que foi entrevistado no Jornal da Noite e foi de helicóptero para Barrancos, onde foi recebido por uma turba em êxtase. Esta edição é muito citada por não-amantes de realities como “só vi o primeiro, porque eles não sabiam ao que iam”. São daqueles que dão mais valor a quem tem boa nota sem estudar.
Big Brother 2
Janeiro de 2001
No ano em que as torres caíram, a Elsa mandou beijinhos para toda a gente, mas não ganhou. O Sérgio e a Verónica fizeram ondular o edredon e casaram na casa, em direto, mas também não ganharam. Quem ganhou foi um ex-seminarista, o Icas. Mais uma vitória da inocência. Quando o Icas saiu, tornou-se amigo do seu antecessor no pódio do BB, Zé Maria, juntos abriram um restaurante, juntos foram burlados e juntos perderam o negócio. O que só comprova que eles “foram lá dentro o que são cá fora”: inocentes. O que não lhes serviu de atenuante e tiveram mesmo que usar o prémio para pagar as dívidas ao Fisco.

Big Brother 3
Setembro de 2001
Esta foi uma edição de primeiras vezes. O primeiro concorrente a assumir a sua homossexualidade, Ricardo. A primeira vez que vimos Liliana Aguiar, que acabou por conseguir um espaço na televisão, como apresentadora e comentadora, sabe Deus porquê. E depois, passou a ser presença assídua no “Extremamente Desagradável” e não faltam razões para isso. Foi a primeira edição ganha por uma mulher, a açoriana Catarina. Nunca mais ninguém ouviu falar dela e, provavelmente, foi a melhor coisa que fez. Ao que se sabe, não foi burlada por ninguém.
Big Brother Famosos 1
Setembro de 2002
Estreia-se o formato com “famosos”, uns com mais ou menos aspas. Prefiro sempre elencos de anónimos, mas vai-se a ver e eu não mando nada. Entrou a Sónia do primeiro Big Brother, que era famosa por ter entrado no primeiro Big Brother. A Cinha Jardim que era famosa por ter namorado com o Santana Lopes e com a sua bandana (se não sabem do que estou a falar, procurem a icónica capa da Caras e não digam que vão daqui). Foi o primeiro reality de Nuno Homem de Sá, que conseguiu a proeza de ser insuportável em todos. Ganhou o Ricky, ex-membro da irrelevante boy band Milénio. E de bónus sacou uma ex-atriz da Globo, Daniela Faria, com quem continua casado. Estão a ver? Não era jogo, seus cínicos!
Big Brother Famosos 2
Novembro de 2002
Vocês atentem nalguns dos participantes deste elenco de luxo: Lena D’Água, Rita Ribeiro, Gustavo Santos, Melão, Axel, Gisela Serrano (o furacão do Masterplan), Cláudio Ramos, Ruth Marlene e o vencedor, Vítor Norte. Não acham que devíamos fazer um remake e metê-los todos numa casa outra vez? Ou então só o Gustavo Santos. E deitávamos fora a chave. E nem é preciso pôr câmaras. Mas acho importante confiná-lo algures. É só uma ideia.
Big Brother 4
Agosto de 2003
Esta edição passou-me um bocadinho ao lado, não vou mentir. Lembro-me que o vencedor Fernando era mecânico e tinha um cabelo inenarrável. Mas não foi só a mim que a edição passou ao lado, tanto que o formato entrou em pousio e só viria a voltar passados 10 anos. Não sei se foi o casting que falhou (não era brilhante), se o formato estava desgastado ou se foi um questão de concorrência. Porque é por esta altura que se estreia a primeira edição do talent show Ídolos, um sucesso de audiências que deu a conhecer Nuno Norte, que faz pelo menos um concerto por ano na Gala dos Dragões de Ouro. Foi também neste momento que os portugueses abaixo de Aveiro conheceram a expressão “azeiteiro” e fazia falta.

Big Brother VIP
Abril de 2013
O formato volta, mas volta com VIPs. Nem a produção estava convicta que podia usar o termo famosos para descrever estes concorrentes, portanto vai VIP, que é como quem diz que são pessoas que entrariam sem pagar na Kadok, em Albufeira. Entrou Tino de Rans, que dois anos antes tinha entrado no Último a Sair. E se isto não vos põe um sorriso na cara, é porque estão mortos por dentro. Entrou o Zé-Zé Camarinha… E se isto não vos dá vontade de terraplanar uma gelataria na Praia da Rocha, é porque estão mortos por dentro. A Mafalda Teixeira e o Jorge Kapinha entraram, conheceram-se e apaixonaram-se. E se isto não prova que esta edição estava amaldiçoada, não sei que mais vos diga. Ganhou o Pedro Guedes. Procurem o “Extremamente Desagradável” protagonizado por ele. Fim.
Big Brother 2020
Abril de 2020
A melhor edição da “era moderna”, a primeira edição apresentada por Cláudio Ramos, a edição da pandemia. Isto é uma coisa horrível de se dizer, mas a Covid-19 foi um jackpot de audiências para os realities. As pessoas estavam fechadas em casa, muitas delas sozinhas. Nunca aquele canal 24 horas teve tanta audiência e cá em casa não foi diferente. Foi a primeira vez que consegui pôr o meu marido a ver o Big Brother comigo, por isso terei sempre um carinho especial por esta edição. O elenco era, de facto, muito bom e inovou do concorrente-padrão do Secret Story: bombado-tatuado, quitada-barraqueira. Que é um género divertido, não vou mentir, mas ninguém aguenta tantos fritos tanto tempo. A edição da Noéééélia, dos Sensatos, do Pedro Soá e da Teresa, da Yuri Mellany e do Bombeiro de Valongo. A edição ganha pela Soraia é a edição em que volta a ganhar a inocência. Num momento em que se acreditava que íamos sair pessoas melhores disto. Curioso, não? Mas não posso deixar de referir o melhor momento do “vinte vinte” que declamo diversas vezes em reuniões de família, saraus ou quando a sala de espera do centro de saúde precisa de animação. Vitó (ler Bitó) queria pedir a sua Sónia, que está dentro da casa, em casamento. Cláudio permite a conversa. Sónia, vendedora ambulante no Cais de Gaia, está no confessionário muito emocionada. Segue-se este diálogo éipico (*trocar os vês pelos bês):
Vitó: “Vida, sabes porque é que eu te chamo vida?”
Sónia, a soluçar: “Porquê, Vitó?”
Vitó: “Porque tu és a minha vida.”
Sónia: “Ai, que lindo!”

Big Brother: A Revolução
Setembro de 2020
Quando a TVI junta um subtítulo ao título do programa, quando dizem que nada vai ser ser como dantes, quando fazem promos com música ainda mais épica do que é costume, costuma dar flop. Esta edição deu-me uma única alegria: ver a noite de estreia e, finalmente, poder dizer “Olha, conheço aquele!”. Sempre sonhei ser surpreendida por uma cara conhecida a entrar para a casa. Fora isso, a edição foi péssima. Ganhou a Zena Pacheco. Ninguém quis saber.
Big Brother: Duplo Impacto
Janeiro de 2021
TVI a ser TVI. A primeira edição de 2020 foi um sucesso e quase colou com a segunda que, como disse acima, ficou aquém. Resultado: vamos continuar a espremer uma laranja que de tão seca já quase cristalizou. Misturaram parte do elenco das duas edições, mais uns quantos da Casa dos Segredos: Bernardina e a sua inevitável xaroca, Gonçalo Quinaz que vive numa prateleira da TVI com o seu stock de gel e o mais que repetente Bruno Savate, que protagonizou o plot central do reality: o romance improvável entre um maduro tauado de Gondomar e uma pita beta de Cascais. Qual Romeu e Julieta, a história não teve um final feliz e, espantem-se, o amor quebrou-se ainda dentro da casa. Mas a beta ganhou. Nem o Big Brother escapa ao privilégio de classe.
Big Brother 2021
Setembro de 2021
Segui pouco esta edição, porque ganhei ranço à concorrente que a ganhou passados 5 minutos de ela ter entrada na casa. Mas o problema pode perfeitamente ser meu. Quantas vezes não é? A Barbosa falava muito alto, esbracejava muito e atropelava toda a gente que tentava dizer um ai. Mas não era por mal, era porque era assim. Agora que vejo que ela passa a vida a comentar e a dar likes nos posts do Gustavo Santos sobre vacinas que pegam autismo a bebés, sinto-me validada. Curiosidade: Ana Barbosa faz-me lembrar imenso a Carla Caldeira, ex-miss Portugal e, para quem não se lembra, dupla de apresentação do Humberto Bernardo, naquele momento icónico em que ele trocou o nome da vencedora, Icília Berenguel, pelo da segunda dama de honor. É verdade que o nome Icília Berenguel é coisa para deixar qualquer um confuso, dou-lhe isso.
Big Brother Famosos 2022 / Big Brother Famosos 2022 (2ª edição)
Janeiro/fevereiro
Deixo aqui o dois em um, daquilo a que vou chamar os realities by Tininha “O amor vence sempre” Ferreira. A malveirense chamou a si a apresentação, quando tudo o resto que fez na TVI, na segunda boda, resultou num flop de maiores ou menores proporções. Cristina sente tudo muito, diz que protege muito os concorrentes, porque eles são de uma coragem extraordinário, enquanto o realizador faz zoom na cara deles e bota o pianinho. Na edição de janeiro, Tininha passou pano no abuso de Bruno de Carvalho dentro da casa e a seguir ainda decidiu transmitir o casamento em direto — e agradeço-lhe por isso. A edição foi ganha por Kasha dos D.A.M.A e ela ficou tão amiga dele que fez um documentário sobre o dito e a sua bandana. Ninguém a pode acusar de falta de compromisso. Já noção… Na segunda edição, Bernardo Sousa, piloto de automóveis, e Bruna Gomes, influencer digital, apaixonaram-se e a edição não deu muito mais que isso. Tininha, mais uma vez, retratou Bernardo como um anjo caído do céu “que nunca iria largar” e que agora pertencia ao grupo “dos meus”. Ick!

Big Brother 2022
Setembro de 2022
Esta edição inaugura a era “que vença o pior” e a era das “teams”. Já tinham existido em outras edições grupos organizados para votar massivamente em determinados concorrentes, mas nada como isto e escolheram como santo para pôr no altar dos realities o algarvio Miguel Vicente, o melhor jogador de sempre, o diabo louro. Desafio qualquer pessoa a ver Miguel Vicente a interagir com os seus rivais, durante não mais do que 15 minutos, e a não ficar com vontade de lhe dar um banano. E foi isso que o levou à vitória. A era dos inocentes terminou, agora a frase-chave é “ele está a jogar, isto é um jogo”. Tudo vale a pena, o que interessa é fazer barulho, fazer-se notado e fazer diferente, mesmo que não seja nada de bom. Não vos faz lembrar nada?
Big Brother 2023
Setembro de 2023
Não vi esta edição. Atingi o meu limite de exposição à Tininha por esta altura. Ganhou o Francisco Monteiro e Cristina Ferreira ganhou um namorado, o irmão do vencedor. Parece que o amor venceu mesmo e ainda bem para ela.
Big Brother 2024
Março de 2024
A Cristina finalmente percebeu que estava a dar cabo do formato e passou o leme a Cláudio Ramos. O casting foi bastante diverso e apresentava potencial, não fosse o fenómeno Catarina Miranda. A cozinheira de cruzeiros já tinha estado no Hell’s Kitchen e já tinha mostrado que era ruim como as cobras. Na Venda do Pinheiro não foi diferente. Absolutamente insuportável, com um ego só comparável à patroa “Se os Coldplay podem, porque é que eu não posso?”, conseguiu o apoio das teams e a vitória parecia decidida à segunda semana. Só não ganhou porque se passou da cabeça e partiu um copo que magoou um colega. Ganhou Inês Morais.

Então e agora? Em 2025, a TVI decidiu inovar. Colocou 4 concorrentes no UBBO, o centro comercial com maior percentagem de utilizadores de fato de treino por metro quadrado. E não estou a julgar, porque aprecio a indumentária. Não tenho é estilo suficiente para o rockar em público. Mas voltemos à inovação: uma casa/caixa de vidro no meio de um shopping, habitada por 4 jovens durante 3 dias, sujeitos à observação de quem foi ao shopping para fazer o avio do mês, comprar umas leggings ou “passear” (conceito que ultrapassa o meu entendimento de uma forma absoluta). Os 4 foram sujeitos à votação do público e apenas um entrou na casa propriamente dita, o Nuno. Como não teve direito a vídeo de apresentação, “por já ter sido apresentado aos portugueses” tenho apenas para partilhar o oráculo que escolheram para a sua entrada na casa: “Carismático, Nuno enche qualquer sala com a sua energia”. Tá certo.
Nuno juntou-se a estes 19: Mariana, Manuel Rodrigues, Ana, Lisa, Dinis, Erica, Carina, Leonardo, Gonçalo, Micael Miquelino, Inês, Tiago, Diogo, Carolina, Manuel, Tomé, Solange, Sara e Igor. A produção promete uma edição absolutamente inovadora, com dinâmicas dinâmicas, desafios desafiantes, surpresas que vão surpreender. E não se cansaram de repetir que nem tudo é o que parece. Só que é. E o que parece é que as pessoas querem ver outras a viver, para se esquecerem um pouco das suas próprias vidas. E querem ver gente com que se identificam, com quem se surpreendem, com quem nunca falariam ou até mesmo com quem andariam à lapada. Porque, como disse aqui a propósito do BBB, num reality o que interessa é o casting e, meus amigos da produção, estou solidária convosco. Mas ou bem que acertaram ou bem que não. É ver o que dá, 24 sobre 24.