Nada é impossível. Mesmo que seja altamente improvável. Pelo menos, foi sempre assim que Jorge Jardim viveu: para contrariar todas as probabilidades. Com apenas quatro anos chegou a ser dado como clinicamente morto por uma junta médica. Uma meningite condenava-o precocemente. Os médicos fizeram-lhe uma punção numa das pernas, a criança começou a reagir e recuperou milagrosamente a consciência. Sobreviveu, e a meningite ainda iria ser usada mais tarde pelos amigos como uma desculpa para o espírito rebelde e agitado.
Mas a doença deixou-lhe mazelas. Era um homem baixo e franzino. Anos mais tarde, não iria passar na inspeção, foi reprovado no Exército. Dizem que foi a maior tragédia da vida dele até então. Que, quando chegou a casa, se fechou no quarto a chorar e a dizer que assim não servia para nada, assim não era homem. Mas esse terá sido também um momento decisivo. Muito do que vai fazer a partir daí vai ser também para provar que estavam enganados acerca dele.
Jorge Pereira Jardim nasceu em Lisboa a 13 de novembro de 1919, como o mais velho de três irmãos. O pai, Frederico, subiu a pulso na vida: chegou a ser caixeiro-viajante a acabou como um industrial do têxtil. A mãe, Odília, era uma modesta dona de casa. Foi o pai que lhe incutiu o voluntariado e duas paixões que ficariam para a vida: o escutismo e os bombeiros. Jardim acabaria por ter cargos importantes nos dois. E foi nos escuteiros que conheceu a futura mulher, Teresa.
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Mas Jorge era muito diferente do pai. Enquanto Frederico Jardim tinha uma paixão pela música, por exemplo, o filho desde cedo se aborrecia nos espetáculos de ópera do São Carlos e demonstrava mais interesse pela política, mesmo que o pai o tivesse aconselhado a não se meter nisso. E se o pai olhava com desconfiança para os primeiros anos do Estado Novo, já Jorge Jardim fazia parte de uma geração que abominava o caos recente dos anos da Primeira República e via com bons olhos a ordem e o autoritarismo trazidos por Salazar.
A ascensão foi fulgurante. Formou-se como engenheiro no Instituto Superior de Agronomia e ainda ocupou alguns cargos técnicos antes de chegar ao governo para ocupar o cargo de subsecretário de Estado do Comércio e Indústria, em 1948. Tinha na altura 29 anos, e tornava-se mesmo no mais jovem governante do Estado Novo.
Mas Jardim demonstrou, desde cedo, um desejo de ação que não se compadecia com o formalismo dos corredores governamentais do Terreiro do Paço. Conta-se até que, quando era governante, não raras vezes abandonava reuniões a meio para abraçar uma das suas grandes paixões, como recorda uma das filhas, Carmo Jardim. “O meu pai estava numa reunião bastante envolvente, mas se ouvisse um carro dos bombeiros passar ali, onde era o Ministério da Indústria e do Comércio, ele largava tudo, tinha sempre no armário o fato de bombeiro, o capacete, as botas, arranjava-se todo e partia atrás do carro dos bombeiros e ia ajudar a apagar os fogos.”
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A experiência no governo acabaria por não durar muito. Em 1952 saiu em conflito com o ministro da economia. E recebeu um convite que lhe vai mudar a vida: ir para Moçambique administrar a filial da fábrica de fibrocimentos Lusalite, do empresário Raul Abecassis.
Jardim aceita. Vai num contexto de enorme desenvolvimento nas colónias. “Exatamente numa conjuntura em que a economia dos territórios ultramarinos portugueses começa a ganhar um certo impulso, um certo dinamismo”, explica o historiador Pedro Aires Oliveira. “E havia, portanto, recursos significativos para o desenvolvimento infraestrutural de Moçambique e de Angola. Estradas, pontes, vias férreas, aeródromos. Nessa altura, no fundo, o regime colonial português sentia a necessidade de procurar novas fontes de legitimação internacional. E o desenvolvimentismo colonial, a melhoria das condições materiais de vida no ultramar para a população colona e também, em alguma medida, para os africanos era um dado importante para também mostrar em certos fóruns internacionais.”
Jardim partiu sozinho para Moçambique no Verão de 1952. A mulher e os 5 filhos que já tinham até então só se vão juntar meses depois. No total, o casal vai ter 13 filhos, a grande maioria raparigas. Muitos anos mais tarde, as irmãs Jardim iriam centrar as atenções das revistas do social em Portugal. Entre elas estão Cinha, Carmo, Mituxa ou Xenica Jardim.
E é a partir de África que o engenheiro vai começar a ter uma vida secreta.
Em missão na Índia, no Congo e no Brasil (sempre de chapéu ao estilo de Nehru)
A 3 de agosto de 1952, no dia em que chegou a Moçambique, Jorge Jardim escreveu uma longa carta. Nela confessa que foi para África mais por “desilusão metropolitana do que por vocação imperial”. O destinatário era o Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar.
Seria apenas a primeira de dezenas de cartas que ambos trocariam ao longo dos próximos anos, e que revelam uma relação de proximidade. Tanto que Jardim vai tornar-se numa peça fundamental para o ditador compreender a realidade africana, explica o historiador Pedro Aires Oliveira. “O Jorge Jardim era um homem extremamente desembaraçado, gostava de viajar, de conhecer pessoas, de fazer contactos e ele torna-se realmente os olhos e os ouvidos de Salazar, não só em Moçambique, mas noutras partes de África, que ele também procurou visitar e conhecer.”
Em 1954 ofereceu-se para ir à Índia numa missão de observação, depois de a União Indiana ter invadido os enclaves de Dadrá e Nagar Aveli, numa ação que já denunciava o que estava para vir. Durante 12 dias percorreu parte do país num táxi, vestido com uma jaqueta tradicional indiana que mandou fazer num alfaiate de Nova Delhi. Para além de montar uma rede de informações que reportava para Lisboa, a aventura serviu também para trazer um amuleto que o vai passar a acompanhar para a vida: um “topi”, um chapéu indiano popularizado por Gandhi e Nehru, que Jardim vai passar a usar sempre que sai em missões.
Uma das filhas, Carmo Jardim, recorda mesmo como o “topi” atingiu um estatuto de superstição. “Ele andava sempre com esse chapéu. Em todas as missões que ele fizesse. Aliás, se por acaso se esquecia, voltava atrás com o avião para ir buscá-lo.”
E não foram poucas as missões nas quais Jardim participou, quase sempre por iniciativa própria, lembra Isabel Maria jardim, a filha mais velha, conhecida na família como “Patucha”: “Sempre com aquela teoria: ‘O doutor Salazar falou-me, nunca pediu, era uma coisa que era muito frisada, ele não me pediu para fazer nada, perguntava sempre se eu conhecia alguém ou se eu indicava alguém para poder ir fazer isto ou aquilo’. E ele oferecia-se. Lembro-me de a minha mãe dizer isso: ‘O pai oferece-se para tudo e esquece-se que tem tantos filhos e, e eu fico aqui sozinha com vocês’.”
Em julho de 1960, Jardim quase morreu numa das primeiras missões. Ofereceu-se para ir ao Congo Belga, que mais tarde seria conhecido por Zaire e que hoje tem a designação de República Democrática do Congo. O território vivia dias instáveis depois de ter conseguido a independência, e o objetivo era ajudar numa ponte aérea de evacuação de cidadãos portugueses para Angola. Numa das deslocações ao sul, a tripulação do avião onde seguia é feita refém por soldados congoleses, e fica à beira de ser fuzilada. Jardim contará mais tarde como foi salvo no último momento por uma fotografia. Mais uma vez, contra todas as probabilidades.
Em janeiro de 1961 viajou para o Brasil, para ajudar no caso do mediático sequestro do paquete Santa Maria. Vai ao ponto de se fazer passar por jornalista para entrar na embarcação que estava refém de Henrique Galvão e dos seus homens. Em março desse mesmo ano rebenta a guerra em Angola, e Jardim ofereceu-se para ir combater. Vai primeiro sozinho, e regressou um mês depois com um avião, um piloto e um grupo de homens que angariou na empresa que administrava em Moçambique.
Em 1962 regressou à Índia, depois da ocupação dos territórios de Goa, Damão e Diu.
Tem como missão negociar a libertação de mais de quatro mil soldados portugueses que tinham ficado retidos em campos de prisioneiros. Adriano Moreira, na altura ministro do Ultramar, acabaria por admitir que Jardim foi decisivo para chegar a um acordo. E o sucesso da operação ajudou a cimentar-lhe a reputação como uma espécie de agente não oficial do regime.
Jardim tinha mesmo um exemplo, confirma a filha mais velha. “Ele copiava, do princípio ao fim, o James Bond. Normalmente, o meu pai não tinha tempo de ir ao cinema porque a vida dele era toda muito a correr. Mas não perdia um filme do James Bond. Tinha as mesmas pastas do James Bond. Se o James Bond tinha um certo casaco meu pai comprava o casaco. Ele adorava!”
Tinha ainda outras engenhocas, como uma máquina fotográfica “Minox” muito fininha, usada pelos agentes secretos para fotografar documentos de forma discreta. Mas o mais surpreendente era uma caneta que um dia os empregados da limpeza encontraram num fato que foi para lavar. E que, viriam a descobrir por acidente, também disparava micro-balas.
O verdadeiro governador de Moçambique
As comparações com James Bond são comuns, mas Jorge Jardim era muito mais do que um mero agente secreto que agia de forma individual. As atividades secretas eram exercidas sob a capa de um homem poderoso, e com uma enorme dimensão pública no Moçambique dos anos 50 e 60.
Jardim chegou ao território para administrar a filial da Lusalite, mas a sua influência nunca parou de crescer. Passados alguns anos já era também administrador da “Sonap”, a empresa de Manuel Boullosa responsável pela distribuição de combustíveis em Moçambique e países vizinhos. Para além disso, foi também o presidente e o grande dinamizador do Aeroclube da Beira, presidente da Associação Comercial e do Clube Naútico, dono e diretor do influente jornal “Notícias da Beira” e de outras publicações. E foi ainda duas vezes deputado por Moçambique à Assembleia Nacional Portuguesa.
Em 2024, o escritor moçambicano Adelino Timóteo publicou o livro “Jorge Jardim, o ano do adeus ao ultramar”, que resultou de uma investigação de cinco anos. Afirma que “Jorge Jardim poderia ser o Berlusconi de hoje, não é? Só para dar uma imagem da dimensão, da visão que ele tinha, não é? Sobre negócios e sobre fazer política.”
Desde criança que o escritor ouvia histórias sobre Jorge Jardim. E interessou-se por contar a vida daquele homem que, durante anos, não foi esquecido em Moçambique, e em especial na região da Beira. “O aparecimento de Jorge Jardim era celebrado, em função de ser uma personalidade bastante influente. E mesmo que aparecesse por uns 20, 30 minutos, ainda que fosse fortuito, estava ali um pequeno Deus, entre aspas. Um pequeno Deus.”
Jardim sempre recusou cargos políticos no território, mas isso não quer dizer que não tivesse influência política, garante o general Pedro Pezarat Correia. “Eu considero que ele era, em muitos sentidos, o verdadeiro governador de Moçambique. Naquela altura não havia nenhuma alta entidade que fosse nomeada, fosse para governador, para governador de Distrito, etc., em que o Jardim não fosse ouvido aqui pelo Salazar.”
No início dos anos 60, Pezarat Correia ocupava o cargo de comandante distrital da PSP da Beira. Colaborou com Jardim numa operação secreta de transporte de armas para o Malawi, com o objetivo de armar e treinar a guarda pessoal do presidente do país, Hastings Kamuzu Banda. Operações que eram sempre feitas com o conhecimento, mas também com o financiamento, do poder central. “Ele não faz nada que não tenha a cobertura do poder. E as verbas com que ele atuava eram verbas do Ministério da Defesa. Bastava chegar à Beira, bastava dizer ‘Quanto é que gastou?’; ‘Gastei tanto’. Ele passava ali o cheque imediatamente e aquilo eram verbas confidenciais”.
Jardim vai também desenvolver uma relação pessoal e de intimidade com o Presidente Banda. Mais tarde, vai mesmo afirmar que essa relação teve um papel fundamental na forma como mudou a sua visão sobre África.
Os planos para criar um novo país a partir de Lusaka
A partir de 1970, Jardim expandiu a rede de espiões e informadores com uma “contratação” de peso: João Maria Tudela, cantor romântico que começava por ser conhecido em Moçambique e que acabava de alcançar fama tanto na metrópole como nas colónias. Tudela não tinha qualquer experiência como agente secreto, mas a proposta que o engenheiro lhe fez atraiu-o de imediato.
Para além disso, tinha o perfil certo para o que Jardim precisava, afirma o filho, João Maria Carreira. “O meu pai tinha a vantagem de viajar muito, e esse acabou por ser, salvo erro, o mote que levou o engenheiro Jorge Jardim — como o meu pai dizia, o homem mais inteligente que já tinha conhecido até então, e conheceu na vida toda — a fazer-lhe um convite, aproveitando-se também de ele ser uma figura pública. Essa facilidade de se deslocar com um pretexto artístico poderia ser interessante para outros tipos de atividades mais secretas”.
A partir daí, Tudela passou mesmo a ser uma espécie de braço direito de Jardim. E um homem que vai desempenhar um papel ativo num novo plano de promoção internacional de Moçambique. Para isso, o engenheiro Jardim apostou também nos concursos de misses, que foram recuperados no início da década de 70.
Organizou o primeiro concurso de miss Moçambique, com o objetivo de enviar depois as vencedoras a Lisboa para participar no certame da Miss Portugal. As misses das colónias fizeram sensação na metrópole, e Moçambique conseguiu mesmo a coroa em dois anos consecutivos. Tudela trabalhava nos bastidores para promover as misses. E em novembro de 1971 viajou para Londres com uma mala cheia de dinheiro e uma missão: colocar a miss Ana Paula Almeida entre as primeiras classificadas do concurso Miss Mundo.
Ao mesmo tempo, Jardim financiava campanhas internacionais de promoção de Moçambique como destino turístico de eleição. Mas o interesse não era puramente comercial, existia um objetivo político por trás.
Por essa altura, o império colonial português era o único que restava em África, e Lisboa estava há anos sob pressão da comunidade internacional. Jorge Jardim leu os sinais dos tempos, e percebeu que a descolonização era inevitável. O homem que nos anos 50 foi para África como um grande defensor da ideologia do Estado Novo de um “Portugal de Minho a Timor” vai passar a defender a independência de Moçambique.
No Verão de 1973 é convidado para se deslocar a Lusaka, capital da Zâmbia, para ajudar a resolver problemas no abastecimento do país. Mas o Presidente, Kenneth Kaunda, acaba por o confrontar com um plano: um roteiro para a independência de Moçambicana, que seria negociado com o apoio dos países vizinhos, e que viria a ficar conhecido como “Programa de Lusaka”. Um roteiro que, segundo garantem a Jardim em Lusaka, teria também o conhecimento e o apoio da FRELIMO, o movimento que lutava há anos pela independência do território.
O objetivo seria caminhar para um Estado multirracial e multipartidário, em que a convocação de eleições iria determinar que partidos governariam o país, e em que que a minoria branca e a maioria negra pudessem conviver pacificamente.
Jardim faz várias viagens a Lusaka durante o ano de 1973 para negociar os contornos do programa. “Era uma tentativa, de alguma maneira, de perspetivar um futuro político para Moçambique que não conduzisse a uma completa também expulsão, erradicação dos elementos de origem europeia no território. Que, no fundo, acautelasse uma transição mais gradual, menos brusca”, explica o historiador Pedro Aires de Oliveira.
O roteiro ficou fechado em setembro desse ano, mas Jardim nunca revelou nada ao governo central em Lisboa, E, na verdade, o programa nunca chegaria a sair da gaveta.
Perseguido e isolado: os últimos anos de “um homem preso entre duas realidades”
“Jorge Jardim foi alguém que correu depressa demais, e chegou tarde demais”. A frase é do escritor Adelino Timóteo, e resume na perfeição o que acabaria por acontecer a Jardim e ao seu sonho de um Moçambique independente.
Nos primeiros meses de 1974 já existiam sinais de que o regime do Estado Novo estava prestes a ruir. Jorge Jardim viajou para Lisboa e apresentou o “Programa de Lusaka” a Baltasar Rebelo de Sousa, que para além de ser Ministro do Ultramar e antigo Governador de Moçambique, era amigo de Jardim desde os tempos da juventude.
Baltasar — pai de Marcelo Rebelo de Sousa — recusou a ideia. Pedro, o mais novo dos três irmãos, afirma que o pai achou que “era um programa que tinha dificuldade de ser implementado. Era difícil de vendê-lo internamente, uma vez que o regime estava, claramente, numa encruzilhada dramática.”
Numa corrida contra o tempo, Jardim ainda apresentou o programa para a independência de Moçambique a Marcello Caetano, o homem que sucedeu a Salazar, que também o recusou liminarmente. Sem saídas, fez planos para regressar a Moçambique e, no limite, promover um golpe, admite Carmo Jardim. “Só que já era tarde. Ele se tivesse tido tempo tinha feito o golpe de Estado.”
Na véspera de viajar para África, é ultrapassado pelos acontecimentos. A 25 de abril de 1974, a revolução deita abaixo a ditadura. Jardim começou por ver aí uma oportunidade. Propõe novamente o roteiro para a independência de Moçambique ao general António de Spínola, presidente da Junta de Salvação Nacional. Spínola também recusou.
Mas o novo poder revolucionário passou a ver Jorge Jardim como uma ameaça. “O Jardim era alguém com muita bagagem. Não era fácil ele reinventar-se de um momento para o outro. Era uma pessoa que estava muito conotada com o anterior regime”, afirma o historiador Pedro Aires Oliveira. Já Pedro Rebelo de Sousa diz que ele foi também vítima de todo o poder informal que acumulou ao longo de anos, e que agora se virava contra ele. “As chefias militares achavam que ele tinha poder a mais. Que era, digamos, um poder dentro do poder.” Rebelo de Sousa fala mesmo num “acertar de contas, sobretudo das Forças Armadas, com aquela personalidade que era um ser atípico e completamente fora de controlo, muitas vezes, dessas Forças Armadas.
Em maio de 1974, Jardim foi alvo de um mandado de captura com o objetivo de o impedir de regressar a Moçambique. Avisado com antecedência, refugiou-se no edifício da embaixada do Malawi, em Lisboa, onde esteve durante 23 dias.
A 7 de setembro desse ano, o Estado português acabou por assinar com a FRELIMO o “Acordo de Lusaka”, muito diferente do programa que era apoiado por Jardim. O poder foi entregue diretamente ao movimento, sem qualquer convocação de eleições ou espaço para manifestação de diferentes tendências partidárias. O território acabaria por alcançar a independência de Portugal a 25 de junho de 1975. Durante os últimos 50 anos, o poder esteve sempre nas mãos da FRELIMO.
Jorge Jardim acabaria por morrer com apenas 63 anos. Até hoje, as circunstâncias da morte nunca foram completamente esclarecidas.
Morreu sem ver concretizado o sonho de um novo país democrático, em que as várias tendências pudessem conviver pacificamente. Ao longo da vida, nunca escondeu a admiração por Thomas Edward Lawrence, o oficial britânico que durante a I Guerra Mundial combateu ao lado das tribos árabes, e que ficou conhecido como Lawrence da Arábia.
À semelhança de Lawrence, Jorge Jardim garante que se sentia um homem preso entre duas realidades. E que a experiência tinha mudado a forma de encarar o mundo. Pedro Pezarat Correia recorda que ele próprio gostava de lhe cultivar essa imagem.
“Havia pessoas que lhe chamavam o ‘Lawrence da Arábia português’. Porque o Jardim é realmente o homem que se metia em empreendimentos que não passavam pela cabeça do comum mortal. Só com essa característica: é que ele, quando se metia nas coisas, era para as levar até o fim.”
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