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(A) :: Da solidão ao ódio pelas mulheres. A história de um ex-incel, os celibatários involuntários (muitos deles violentos)

Da solidão ao ódio pelas mulheres. A história de um ex-incel, os celibatários involuntários (muitos deles violentos)

Diogo (nome fictício) encontrou uma rede de apoio em fóruns que promovem a violência contra as mulheres. Psicólogos pedem formação e alertam para conteúdos destinados a jovens nas redes sociais.

Martim Andrade
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“A sensação de estar numa comunidade era enorme. Cheguei a passar dias inteiros [online]”, relata Diogo (nome fictício). Aos 17 anos e a lidar com um desgosto amoroso, juntou-se a fóruns de incel, ou celibatários involuntários, e encontrou no conforto do seu computador um ouvido para os seus desabafos e acima de tudo, um grupo que lhe dizia tudo o que queria ouvir. Nestes sites, centenas de milhar de jovens adultos responsabilizam a alegada promiscuidade das mulheres pelo seu insucesso a nível sexual e romântico. Muitos promovem comportamentos violentos contra elas. 

Os incel consideram-se “um pouco diferentes” dos outros, com maiores dificuldades em socializar e têm sérios complexos com a sua aparência física. Na sua solidão, entregam-se à “incelosfera“, sites onde reina a ideologia “black pill” e a misoginia. “As mulheres sofreram uma lavagem cerebral pelo feminismo para abandonarem (e desprezarem) o seu lugar na unidade familiar — a não ser que sejas rico e musculado”, lê-se num dos fóruns consultados pelo Observador. A uma escala mais alargada, que se estende além dos incels, existe uma rede extensa de plataformas — a “manosfera” — em que se promove o discurso “contra os direitos das mulheres” e a ideia de que “o feminismo foi longe demais”, explica a psicóloga Ana Luísa Abreu.

Enquanto que na “incelosfera” existem apenas incels, a “manosfera” é todo um mundo digital onde homens se juntam para “reivindicar os seus direitos” e rejeitar as conceções atuais de igualdade de género. Além dos incels, vivem também nesta comunidade os MRA (Men’s Rights Activists), que apelam a uma mudança jurídica e política das dinâmicas entre homens e mulheres, os MGTOW (Men Going Their Own Way), que promovem a retirada dos homens das relações com mulheres, e os Pick Up Artists, que divulgam técnicas de engate ou sedução através da manipulação e violência psicológica.

Na manosfera, crê-se que “os homens são as vítimas da sociedade e que as mulheres controlam o sistema de justiça, que infernizam a vida masculina e que são mentirosas”, adianta a psicóloga, que co-coordenou um projeto sobre a masculinidade em Portugal. Quem vê as mulheres desta forma aderiu à “red pill”, conceito adotado do filme The Matrix e a que corresponde a “visão alternativa e verdadeira” da realidade, em oposição à “blue pill”. 

Os incels definem-se como “homens que têm dificuldades ou não conseguem estabelecer relações românticas com mulheres, apesar de tentarem”, aponta a especialista. No entanto, psicólogos contactados pelo Observador sublinham que o conceito não pode estar desassociado da comunidade online em que se inserem, nem da narrativa de objetificação e desumanização da mulher que predomina na discussão. Curiosamente, o termo incel foi cunhado por uma mulher. Tudo começou em 1997 quando Alana, uma jovem canadiana na casa dos 20 anos, decidiu criar uma página para outros jovens que se sentissem sozinhos e que quisessem encontrar amor. Foi aqui que surgiu, pela primeira vez, o termo de INvoluntary CELibates, ou celibatários involuntários, num espaço “amigável e solidário”, relatou Alana em entrevista à BBC.

Hoje, incel aplica-se a “homens que, no fundo, se sentem rejeitados pelas mulheres e injustiçados pela própria genética e pela sociedade. Acreditam que as mulheres estão a privá-los de um direito universal — o direito a ter sexo”, explica uma das coordenadoras do projeto MaRvel (Masculinidades Reveladas), que organizou inúmeras sessões de intervenção junto de jovens em lares de acolhimento, escolas e câmaras municipais em todo o país, com o objetivo de alertar esta população masculina aos problemas associados a estes temas.

Ana Luísa Abreu refere que uma grande percentagem dos jovens portugueses presentes nas palestras estavam já familiarizados com os vários termos utilizados na “manosfera”. “Mesmo que muitas vezes os jovens não se auto-determinem como incel ou como membros destas outras comunidades, é evidente que consomem estes conteúdos pelo tipo de narrativa que têm e pelo tipo de linguagem que usam”, continua, admitindo ouvir, em diferentes instâncias, a utilização destes conceitos no contexto escolar. Alerta que os professores, na grande maioria dos casos, não conheciam o significado dos termos, mas reconheciam-nos de conversas entre estudantes. A partir da partilha de vídeos do TikTok e de publicações no Instagram, chegam às escolas portuguesas os termos que aparecem exclusivamente na “incelosfera”.

Um deles é “black pill“, que sustenta que o fator mais importante para mulheres escolherem um parceiro sexual é o aspeto físico de um homem e não a personalidade. O homem ideal, aquele que tem “sucesso com o público feminino”, é o “Chad“: alto, musculado e rico. Para os incel, 80% das mulheres sentem-se atraídas por 20% dos homens — a regra 80/20 — sendo estes 20% os tais “Chads“. É uma ideia chave da hipergamia, conceito que se refere à escolha de um parceiro com um estatuto socioeconómico mais elevado. Neste contexto, não se trata apenas da realidade financeira e social, mas também do aspeto físico. Ao “black pill” associa-se a ideia de que certos homens têm o seu destino pré-determinado, que nada existe que possam fazer para alterar “a sua condição” e que mais vale “lie down and rot” (“deitar-se e apodrecer”, na sua tradução literal).

Isolamento social, desgostos amorosos e a “masculinidade”. Como começa o caminho de um incel?

Não existe um evento isolado que leve um homem até à “incelosfera”, aponta Diana Ribeiro da Silva, investigadora em psicologia clínica forense no Centro de Investigação Neuropsicológica e Intervenção Cognitivo-comportamental da Universidade de Coimbra. É um fenómeno “multifatorial”, ou seja, a acumulação de frustração e raiva que não é libertada em vários momentos, leva à procura de uma comunidade ou um local onde possam fazê-lo. É nestes locais, descritos como uma “bolha de feedback negativo“, que as pessoas acabam por ficar retidas devido à inexistência de contradição às suas ideias. “Se estes assuntos não são conversados em família, na escola, na sociedade, gera o seu efeito de grupo, ou seja, parece que são coisas normais”, explica a especialista, acrescentando que estas plataformas na “manosfera” servem apenas para “confirmar as crenças”.

Diogo começou no Reddit em 2017, porque queria uma plataforma para falar com “pessoas parecidas” e com gostos semelhantes. “Durante uma conversa sobre solidão, alguém mencionou uma comunidade onde se falava sobre dificuldades em formar ou manter relações. Na altura tinha interesse numa colega e andava bastante deprimido”, recorda o jovem ao Observador. Nota, porém, que o fórum “ForeverAlone”, a que se juntou, não era incel e que era “mesmo proibido” usar expressões específicas desta ideologia. Apesar de ser um ambiente onde existia abertura para falar sobre os seus problemas e cheio de pessoas que “entendiam as suas dificuldades”, “estar rodeado de pessoas desesperadas e deprimidas desenvolveu um padrão negativo de pensamento constante”, conta.

“Enquanto eu e os outros homens sentíamos que tínhamos um problema crónico e zero escolhas, a grande maioria das mulheres da comunidade admitiam já ter tido namorados, e que raramente ficavam muito tempo solteiras”, recorda o jovem, que começou a “reclamar” sobre as publicações de mulheres na comunidade, resultando na sua expulsão. “Foi este momento que desencadeou o pensamento através das lentes de guerra entre géneros“, continua, referindo ter “inveja“, porque seria muito “mais fácil ter nascido mulher”. E não foi difícil encontrar fóruns abertamente incel no Reddit.

Neste fóruns, quando se fala de mulheres, utilizam-se os termos "foids" ou "femoids", uma abreviatura de "criaturas semi-humanóides que apenas gostam de Chads". Classificam estas "foids" como estando num patamar inferior aos homens na hierarquia social, e que o seu papel é "limpar, cozinhar e fazer trabalho doméstico para o seu homem, que a utiliza para relações sexuais".

Foi aí que Diogo se envolveu de forma intensa em discussões online, com o objetivo de defender e tentar desmistificar algumas perceções habituais em torno dos incels. “Esse período foi o mais negativo da minha vida, passava noites em que mal dormia a tentar ter conversas honestas com uma audiência motivada por entretenimento e por partilhar o pior dos piores comentários que incels fazem”, adianta. Diogo conta que foi nesta época que registou o primeiro episódio de auto-agressão, com “murros na cabeça”. O jovem admitiu também “procurar de propósito comentários agressivos ou abusivos” sobre ele próprio para alimentar a sua deterioração psicológica.

Diogo identificava-se como incel e acredita que, tal como ele, muitos outros sofreram uma grande dificuldade em socializar nas idades mais jovens, algo que se agravou na vida adulta. O efeito verifica-se particularmente no caso de jovens que enfrentam” situações de particular vulnerabilidade, isolamento social e experiências que colocam em causa a sua ‘masculinidade‘”, avisa a psicóloga Ana Luísa Abreu, aludindo para momentos de gozo pelo grupo de pares devido à aparência física ou ausência de uma parceira sexual. Assim, a exposição a conteúdos que promovem o ódio e a violência surge como fator de risco para a adesão da manosfera, como procura de “um sentido de comunidade” que se “une pela expressão da raiva, vontade de vingança, e discurso de ódio e violência” enquanto motores de recuperação da perceção da “masculinidade perdida”.

“Os jovens que estão deprimidos, os que passam muito tempo fechados em casa a jogar computador e a ver pornografia” acabam por ser, tendencialmente, os que mais se isolam e se tornam mais vulneráveis à adesão aos discursos destes fóruns. É na procura de uma rede de apoio, continua a psicóloga, que encontram esta comunidade que os faz sentir menos sozinhos ao “ter alguém que escuta e se revê na sua frustração”.

[Já saiu o segundo episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio]

Inseguranças e misoginia: uma viagem ao centro da “incelosfera”

Era então no Reddit que Diogo passava a grande parte do seu tempo, até os grupos — ou subreddits, como são referidos no site — dedicados a incels terem sido banidos, por consequência dos casos de violência associados ao movimento. O maior fórum foi banido em 2017. O então adolescente passou a frequentar o Incels, um site onde os vários membros da comunidade incel poderiam falar sem quaisquer restrições. Deste modo, o discurso passou da “partilha de experiências com relações e memes” para “o essencialismo de género, homofobia, algum racismo e misoginia”, lamenta hoje em dia.

Com um número de opções limitado, as comunidades ativas de incels concentram-se na maioria em três locais. No Reddit, onde estes espaços surgem disfarçados e, por vezes, com moderação para garantir que não são banidos da plataforma; no 4chan, não em formato de fórum, mas com um local onde os utilizadores partilham estes valores de uma forma anónima e, por fim, o Incels.

"Ela ter-me-ia amado de volta se eu tivesse uma voz mais profunda e atraente, se eu fosse atraente e lhe mostrasse o meu rosto, se eu não fosse autista e com um padrão de comunicação estranho".
Utilizador anónimo do fórum Incels

Em todos estes espaços, existem termos universais exclusivos à “incelosfera” — além da filosofia “black pill“. Quando se fala de mulheres utiliza-se “foids” ou “femoids, uma abreviatura de “criaturas semi-humanóides que apenas gostam de Chads” e que subalterniza as mulheres relativamente aos homens. De acordo com um glossário dedicado a esta ideologia, os incels são “incapazes de encontrar amor, intimidade e sexo” nas “femoids“, que “são apenas controladas pelos Chads”. Outra forma de se referirem a mulheres é através do termo “Stacy”. A “Stacy” é a parceira do “Chad”, mas é também a mulher idealizada pelos incels: atraente, magra e, por norma, inatingível. As restantes mulheres incluídas nos 80% da regra 80/20 são as “Becky”, que “são inferiores à Stacy”, mas que mesmo assim ignoram todos os homens que não sejam “Chad”.

Uma ideia chave e frequente nas cadeias de respostas que surgem a uma publicação é que as mulheres só são solteiras porque são “picuinhas” e por escolha própria, enquanto que os homens estão sozinhos porque “não são Chad”.

Outro fator muito comum nos incels é a exposição de inseguranças com a aparência física. “Ela ter-me-ia amado de volta se eu tivesse uma voz mais profunda e atraente, se eu fosse atraente e lhe mostrasse o meu rosto, se eu não fosse autista e com um padrão de comunicação estranho”, partilha um utilizador, que relata uma experiência recente que teve com uma mulher.

Quase não existe censura nos comentários, mas continuam a existir regras. No fórum Incels, “a barra para ser considerado incel era bastante alta“, conta Diogo. Não podia dizer que, em tempos, teve uma rapariga interessada em si, porque arriscava ser considerado “volcel” (celibatário voluntário) e poderia ser banido da plataforma. Porém, Diogo acabou por ser expulso do fórum por discordar de um comentário transfóbico que foi feito por um outro utilizador.

Foi criada uma outra comunidade no Reddit, a "IncelExit", para pessoas que foram "sugadas para a incelosfera, mas querem ajuda para sair". Na sua descrição, indicam que é um local para "pedir conselhos, falar com outros num ambiente calmo e contar experiências", com o objetivo de "ajudar as pessoas a retomarem o seu caminho".

Segundo os posts, “Hope, cope and rope” (“esperança, lidar e corda”, na sua tradução literal), são os três passos da vida de um incel. Hope refere a adoção de comportamentos mais saudáveis, com a esperança de melhorar as suas hipóteses de quebrar o ciclo de rejeição. Se esta primeira etapa falhar, o incel conforma-se com a situação em que vive e implementa mecanismos para lidar com as suas emoções — cope. Num último caso e mesmo em circunstâncias extremas, rope simboliza o suicídio.

É possível rebentar a bolha?

Depois de ser banido do fórum Incels, Diogo percebeu que tinha duas escolhas: continuar à procura de outra plataforma para continuar a expressar estes seus ideais, ou começar a pensar na saída da comunidade. Encontrou, no YouTube, vídeos que o ajudaram a ter uma nova perspetiva sobre o tema. “Os vídeos a que assisti deram-me esperança e positividade”, diz ao Observador. Para o jovem, o principal fator foi “ouvir estas pessoas a abordar o tema com seriedade e empatia”. Até ao momento, conta que sempre que ouvia falar sobre incels, o tom era sempre de “gozo, alarmismo e estereótipos”.

Tal como Diogo, outros milhares de jovens conseguiram rebentar a bolha e abandonar a corrente de pensamento incel, mesmo que este fenómeno não se traduza na interrupção do celibato. Foi criada uma outra comunidade no Reddit, a “IncelExit“, para pessoas que foram “sugadas para a ‘incelosfera’, mas querem ajuda para sair”. O grupo descreve-se como um local para “pedir conselhos, falar com outros num ambiente calmo e contar experiências”, com o objetivo de “ajudar as pessoas a retomarem o seu caminho”. Dizem que está na hora de largar o “cope“, e de começar a trabalhar.

Os relatos no espaço são diversificados, desde homens que já abandonaram a comunidade e exibem o seu progresso de forma a motivar os que ainda estão presos, aos que devagar procuram ajuda e dicas que os façam sair. Para Diogo, alguns ideais perduram, mesmo que já não se assuma como incel. “Algo em que continuo a acreditar é que existem partes do black pill que são simplesmente verdade. Observações que nós tentamos ignorar, porque queremos acreditar que o mundo é belo e justo”. Outras pessoas cortam com todas as ideias.

Fora do mundo digital, a psicóloga Ana Luísa Abreu apela a uma maior mobilização de esforços externos às comunidades online. “Existem alguns países em que começam a ser criadas equipas que veem isto como uma questão de segurança interna focadas na sensibilização e prevenção, tal como na desradicalização”, afirma. A especialista alerta, no entanto, para o facto de muitos jovens “terem este discurso completamente ensaiado”, especialmente com o conceito de “red pill” — “tu é que ainda não tomaste o comprimido que faz com que consigas ver a realidade e aquilo que nós sofremos”, exemplifica.

A especialista reforça ainda a importância na formação de profissionais de saúde mental e de professores para estarem equipados com as ferramentas para poder acompanhar estes jovens, falar sobre a “questão das masculinidades” e desmistificar os vários temas que são abordados nestes fóruns.

Apoio emocional e prevenção do suicídio

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