Ao entrar na sala de estar saltam logo à vista os dois quadros com retratos de crianças indígenas, pendurados em cima da televisão. “Foram os primeiros brasileiros com quem a Amélia conviveu”, recorda Cláudia Thomé Witte, a dona da casa, apesar de não se ver uma única fotografia sua nas paredes. Pelo contrário, no meio de algumas decorações de borboletas e libélulas, o apartamento está tomado por quadros, pinturas a óleo e litografias que retratam personagens históricos do século XIX. Amélia de Leuchtenberg, a segunda Imperatriz do Brasil e, depois, Duquesa de Bragança, é a principal.
Sobre uma cómoda está um quadro oval que retrata a segunda mulher de D. Pedro I do Brasil, ou D. Pedro IV de Portugal. Terá sido pintado em 1890 por Ludwig Fischler, bisneto de D. Pedro IV por parte da amante, a Duquesa de Santos, uma cópia de um retrato original pintado por Friedrich Dürck entre 1838 e 1839, que ficava no palácio da família em Munique, e que se perdeu depois de um bombardeamento durante a Segunda Guerra Mundial. De acordo com Cláudia, há outras 12 cópias do retrato original. É um dos presentes que ganhou ao longo dos 20 anos de investigação sobre a vida de Amélia. “Se houver um terramoto, a primeira coisa que vou pegar é isto!”, diz-nos, ao mostrar a carta que terá sido escrita por D. Pedro I quando abdicou do trono brasileiro, em 1831. “Quero que em algum momento vá para um arquivo. Portanto não é meu”, justifica. A investigadora diz que ganhou este item como pagamento pelo trabalho de identificação de uma coleção de documentos históricos. Quanto a outros quadros e objetos históricos, a investigadora comprou-os tanto em leilões como diretamente de coleções privadas, como o conjunto de medalhas da Ordem da Rosa. Na estante de livros ainda tem vários objetos que terão pertencido à própria Amélia: dois livros que levam o brasão A na capa de pele, uma molheira em porcelana, pequenas folhas secas emolduradas que a imperatriz terá colhido do jardim de casa para enviar em correspondências à mãe ou às irmãs e ainda aquele que para Cláudia será o mais significativo.
A investigadora abre o armário cheio de livros e documentos e apanha uma fita que foi emoldurada. “Está escrito: ‘altura da minha filha em março de 1846′”, diz Cláudia. “Naquela época não havia um sistema de medição padronizado. Então quando se queria contar a alguém que ‘a minha filha está super alta’, pegava-se uma fita, media-se, embrulhava e escrevia: ‘olha, essa é a altura da minha filha!’ E a pessoa esticava a fita e sabia”. Será um objeto com maior valor sentimental do que histórico. “Foi uma coisa que foi dela, que ela mediu a filha, com a letrinha dela, mandou para uma pessoa querida, e eu ganhei de presente”, justifica a escritora.
Uma vida com Amélia
Pode parecer curioso que Cláudia tenha até mais retratos de Amélia do que da própria filha pendurados nas paredes da sala de casa. Mas a verdade é que a investigadora já estuda sobre a vida da Imperatriz há mais de 20 anos. E cruzou-se pela primeira vez com esta personagem quando era ainda criança. “Tinha 9 para 10 anos, na escola no Brasil, e a professora de português levou vários exemplos de cartas. Um telegrama, uma carta comercial, uma carta de amor, e entre elas tinha uma carta escrita pela Amélia na despedida, quando D. Pedro I abdicou do trono brasileiro. É uma carta para D. Pedro II, muito emotiva, muito política até, que hoje eu até não acredito que tenha sido ela que escreveu, acho que aquilo foi uma peça de propaganda. E em que ela então falava sobre essa despedida dessas crianças que não eram filhos dela e eu falava: ‘mas quem é essa pessoa? Do que ela está falando?‘”
Cláudia terá procurado mais sobre Amélia na biblioteca da escola, onde encontrou dois livros a contar parte da vida da Duquesa de Bragança. “O que eu percebi logo de caras foi que o que existia sobre ela era muito restrito a esse um ano e meio em que ela viveu no Brasil como imperatriz, e que na verdade era uma pessoa que viveu 60 anos”. Alguns anos mais tarde voltou a encontrar Amélia num museu. “Vi um quadro que está na Fundação Maria Luísa e Oscar Americano em São Paulo, que tem uma coleção de peças de Brasil Império fenomenal, e eu vi o quadro e falei: ‘nossa, ela escrevia bem, era bonita e ninguém sabe quem era‘”.




Amélia era filha de Eugène de Beauharnais e da princesa Augusta da Bavaria. O seu pai era filho de Josefina de Beauharnais, mulher de Napoleão Bonaparte, e foi adotado como filho pelo imperador francês quando tinha 23 anos, pelo que Amélia tornou-se também neta de Bonaparte. Aos 17 anos casou-se com D. Pedro IV, que na altura era o primeiro imperador do Brasil, e que tinha ficado viúvo há pouco tempo, depois da morte de D. Leopoldina. Amélia foi a esposa que esteve ao lado de D. Pedro IV quando este abdicou do trono brasileiro e regressou a Portugal. E que ficou viúva cinco anos depois do casamento, vivendo até os 60 anos de idade a usar preto. “Assume o papel de viúva do libertador e passa a ter então uma posição em que vai financiar monumentos que são feitos em homenagem a ele e envolve-se para que as leis que ele queria fossem implementadas”.
Em 1834 D. Pedro IV fundou o Asilo da Infância Desvalida, uma causa que Amélia assumiu depois da morte do marido. “Pega uma instituição que atende 80 crianças e transforma numa que atende quase 4 mil no final da vida dela. E não é uma coisa assistencialista, ela transforma aquilo em escolas profissionalizantes. Os meninos e as meninas saem dali com uma possibilidade de futuro”, destaca a escritora. Não terá sido a única ação social da Duquesa de Bragança. “Quando a filha morre de tuberculose, assim como o marido já tinha morrido, ela então decide construir esse hospital na Ilha da Madeira.” Trata-se do Hospício D. Maria Amélia, hospital que existe até hoje no Funchal. “Ela tem uma visão realmente moderna porque percebe que as pessoas que tinham condições, da Europa toda, iam para a Madeira para se tratar da tuberculose só que a população que atendia essas pessoas, fosse como funcionários, enfermeiros ou vendendo coisas para eles, muitas vezes se contaminavam e não recebiam assistência nenhuma. Então ela constrói essa instituição, para oferecer condições para que essa população carente da Madeira, contaminada, pudesse ter uma chance de se curar.” Na Alemanha, Amélia terá deixado “um dinheiro que está aplicado até hoje e que os juros dão todos os anos para pagar bolsas para que duas meninas possam estudar”.
Cláudia começou a investigar a história de Amélia em 2001. Em 2018 mudou-se com a família para Lisboa, onde continuou a investigação. Em 2023 lançou a biografia Amélia de Leuchtenberg: Imperatriz do Brasil, Duquesa de Bragança, fruto do trabalho das últimas duas décadas (publicado em Portugal pela By The Book). Em dezembro de 2024 foi reconhecida pela Academia Portuguesa da História com o Prémio Dr. João Lobo – História.

Uma viagem “ao passado” e a invasão do palacete
O percurso profissional de Cláudia não fazia prever o que viria. Licenciou-se em administração e depois formou-se professora de alemão no Instituto Goethe, vivendo alguns anos na Alemanha. Estudar línguas foi um primeiro passo para poder começar a pesquisar sobre a vida de Amélia. “Comecei por ler tudo o que eu consegui encontrar em alemão, em francês, em português, em todas as línguas possíveis sobre ela, sobre a família, sobre o período”, conta. Foi quando recebeu uma parte da herança da avó que viu a oportunidade de levar a investigação adiante. “Resolvi pegar esse dinheiro e fazer uma viagem de pesquisa sobre a Amélia durante dois meses pela Europa, por todos os arquivos, todos os palácios, todos os lugares que eu pudesse. Passei um ano e meio preparando essa viagem, escrevi para todos os arquivos, tive 100% de respostas nas minhas cartas, e foram quase 50 arquivos”, diz a investigadora. Uma coisa levou à outra e, rapidamente, Cláudia já tinha conhecido mais pessoas envolvidas na história de Amélia e do primeiro império brasileiro. “Consegui uma autorização da Família Real Sueca para pesquisar lá dentro do palácio, com uma recomendação também do Museu Imperial em Petrópolis. Fui recebida pelos responsáveis, curadores e arquivistas, e passei vários dias vendo milhares de coisas. Chegou um momento em que eu não precisava mais pedir para ver. Os funcionários pediam para que eu visse as várias coisas que não estavam identificadas. Eram retratos de D. Maria II, D. João VI, D. Miguel, eram personagens que para nós são super conhecidos.”
As cartas e os diários
Para tentar descrever o ambiente e os pormenores dos acontecimentos que se passaram há mais de 200 anos, Cláudia baseou-se muito em documentos históricos. Alguns dos mais valiosos são as correspondências entre as personagens desta história. É através delas que sabemos as impressões da comitiva alemã ao chegar em terras brasileiras, quando Amélia de Leuchtenberg desembarcou para a sua nova vida como Imperatriz do Brasil. Mas que a escritora faz a ressalva: “Não podemos esquecer que as cartas eram censuradas. Todas as cartas eram lidas. Então, as pessoas escreviam para alguém sabendo que outra pessoa a ia ler“. Um exemplo são as cartas de Amélia com a família, como o irmão Augusto ou a mãe Augusta. “Tinham cartas em que eles escreviam normal. Mas alguns trechos da carta que eram mais íntimos eles escreviam em Sütterlin, que é o alemão em caligrafia cursiva, muito difícil de ler e que não era todo mundo na época que lia”.
Além disso, Cláudia destaca que as cartas podiam ser usadas para manchar a imagem das famílias da época. “Napoleão costumava dizer que os diplomatas eram, na verdade, espiões bem vestidos, porque estavam a passar informações o tempo todo. Então, se a pessoa dizia que não gostava da comida, por exemplo, podia repercutir na Europa inteira. No caso da Amélia, ela não queria preocupar a mãe e que esta fosse criticada por ter permitido o casamento dela.” Para a investigadora, é um pouco do motivo pelo qual Amélia parece sempre “tão apaixonada e feliz com a vida no Brasil”. Entretanto, Cláudia apoiou-se muito noutro tipo de relato para compor os detalhes do livro: os diários.
“Infelizmente, não temos diários da Amélia. Tenho a notícia de que ela começou um diário em algum momento, mas nunca consegui achar e muita coisa provavelmente foi destruído quando ela morreu. Mas eu tenho os diários da mãe dela que são cadernos e cadernos e que estão na Suécia, com microfilmes deles da década de 1940 na Alemanha. Eu não consegui consultar tudo nesses dias que passei na Suécia, mas depois numa outra viagem que fiz para a Alemanha só para isso, fui ao porão na única máquina disponível, com um técnico para me ajudar a mexer naquilo, e aí consegui estudar todos os diários da mãe. E ali, então, temos algo um pouco mais sincero.”

Além do diário de Augusta, Cláudia estudou também outros dois diários, de um nobre alemão e de um membro da corte, que revelam as impressões exteriores da vida no palácio brasileiro. “O conde Spreti, que é um nobre alemão que acompanha a comitiva para o Brasil, deixa um relato fascinante com muitos detalhes e essa documentação é muito interessante porque traz o olhar de fora.” É quando Cláudia destaca algumas das diferenças entre a cultura no Brasil e na Europa naquela altura. “Temos o estranhamento de outro tempo. Achámos engraçado que eles no geral não tomavam banho todos os dias, ou a forma de comer, que era carne de porco ou frango logo pela manhã”, diz a escritora. “E para o conde Spreti, o Brasil era muito diferente da Baviera, onde ele tinha vivido a vida toda. Ele comenta que na Alemanha as pessoas não tomavam banho todos os dias. E esse ‘imperador maluco’, cada lugar que chega tem que ter uma banheira. A primeira coisa que ele faz é tomar banho, todos os dias, às vezes mais de uma vez por dia.”
Já para saber melhor qual era o olhar dos súbditos em relação à realeza, Cláudia destaca o diário de Seweloh, “que é um militar que fica muito próximo de uma das damas dela e conta tudo o que se comentava na rua. Ele tem esse trânsito entre o palácio e a rua. E ele conta o que se falava, o que acontecia, o que se sabia. Mas, como ele era muito próximo da dama que acompanhava ela no quarto, a dama contava para ele o que se passava, como as interações entre ela e o marido, que normalmente são coisas que ninguém nunca teria acesso“.
“Por favor, escreva um diário”. E a exumação de Amélia
Cláudia reconhece que um diário de Amélia é mesmo o documento que faltava para o seu trabalho. Mas assume que com o que sabe da história da imperatriz, ficaria feliz em poder voltar no tempo para lhe oferecer alguns presentes. “Ia levar aspirina, dipirona ou algum medicamento, porque ela tinha dores de cabeça todos os meses. Tinha crises de enxaqueca que ela quase morria. Ficava no escuro, passava super mal”, explica. “Levaria medicamentos para tuberculose, para salvar a vida da filha. Porque é uma tristeza, uma menina de 21 anos, praticamente noiva, depois de ter terminado um curso de física, astronomia, que era o sonho dela. Super instruída. Pintava, desenhava, tocava piano. E aí, de repente, pega tuberculose e morre. Como tantas pessoas naquela época. Então, se eu pudesse salvar a vida da Maria Amélia, eu teria levado remédio contra a tuberculose.”
Depois, Cláudia revela o que levaria para facilitar o trabalho dos historiadores. “Teria levado muito papel de carta. Porque eles escreviam dos dois lados, e depois começavam a escrever na borda, em volta. E às vezes, para economizar mais papel ainda, eles escreviam de um lado e depois escreviam na diagonal, por cima.” E, por fim, o presente mais especial. “Por favor, escreva um diário“, teria dito Cláudia a Amélia.
Se Cláudia nunca vai poder falar com Amélia, a investigadora chegou literalmente o mais perto que pôde da imperatriz. Em 1982 o corpo da Duquesa de Bragança foi trasladado de Portugal para o Brasil, para ser colocado no Mausoléu do Parque da Independência, em São Paulo, onde estão os outros dois imperadores. Na altura da primeira exumação já chamou a atenção o estado de conservação do corpo de Amélia. E em 2012, quando um grupo de arqueólogos iniciou um trabalho de exumação para melhorar as condições de conservação dos corpos dos imperadores, Cláudia comprovou-o com os próprios olhos.
A arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel liderou os trabalhos e o investigador Paulo Rezutti prestou consultoria histórica. Foi nesta equipa multidisciplinar que Cláudia também participou. “Foi feito um estudo de medicina nuclear e de imagens para poder saber, afinal, do que é que eles morreram, sobre os ossos, sobre as doenças que eles podem ter tido, como que eles estavam sepultados. Todas as partes histórica e médica foram examinadas”.
No dia em que se abriu a urna com a imperatriz mumificada, Cláudia assume que se sentiu “emocionada”. Vestida com uma roupa protetora — que se parece com um uniforme de astronauta — Cláudia diz que o corpo exalava um cheiro muito forte de “cânfora misturado com alguma coisa que parece naftalina e aquele cheiro de coisa fechada há muito tempo. Mesmo com a máscara dava para sentir.” Sobre o estado do corpo, a escritora faz o relato: “Vê-se a unha, a sobrancelha, o pelinho na mão. Os dentes que ela ainda tinha… O cabelo castanho, com um ou outro fiozinho branco. Ela tinha 60 anos, tinha bem poucos fios de cabelo brancos ainda. É uma coisa muito impressionante, porque você tem realmente a pessoa ali na sua frente.”
E por que Amélia foi embalsamada? “Isso é uma história complexa. Por muito tempo, não sabíamos exatamente como que ela tinha sido embalsamada e virado uma múmia, porque, a princípio, a ideia não era essa. Então, tinha várias hipóteses”, explica Cláudia. “A filha dela, quando morreu, com 21 anos, foi embalsamada a pedido dela por um médico, que foi depois o mesmo médico que a embalsamou a ela. Pensávamos que o médico decidiu fazer o que ela tinha pedido para fazer à filha. Faria sentido. Então encontrámos um documento que diz que ela não queria ser embalsamada”.
Depois, a escritora dá uma segunda versão. “Foi sem querer que ela foi embalsamada. Colocaram muito produto para a conservação, porque os enterros demoravam dias para acontecer. Ela acabou sofrendo um processo químico e ficando embalsamada sem querer. Essa era a segunda hipótese”. Entretanto, com o livro praticamente pronto, outra possibilidade ainda surgiu.
“Um colega pesquisador mandou-me uma notícia que tinha descoberto nos jornais antigos de Pernambuco que falava sobre a morte dela. E Pernambuco era sempre o primeiro estado do Brasil que recebia as notícias de Lisboa, pela proximidade. E ali comentava sobre a história da morte dela e falava que, num dos últimos momentos de vida, ela falou para um amigo que aceitava ser embalsamada pelo novo sistema, que era um sistema que dava injeção só na jugular. Então, provavelmente foi isso que o levou a instruir o médico para fazer o embalsamento.”
A escolha libertadora de permanecer viúva e o legado da pesquisa
Cláudia confessa que não costuma falar muito sobre os detalhes da exumação, porque sente que a personagem histórica ficou mais conhecida pelo seu perfeito estado de conservação e menos por tudo aquilo que representou em vida. “Acho que ela teve uma personalidade muito forte. Percebemos isso com 16 anos, quando é a negociação do casamento e ela percebe que ela é uma mercadoria no mercado matrimonial e então põe o seu preço”, diz a investigadora. “Ela então escolhe que aceita o casamento desde que seja a favor do irmão para que ele tenha um status melhor e que melhore a situação da família dela.”
“Depois, a maneira como ela realmente assume a família e os filhos, o papel de imperatriz, a aproximação com o partido brasileiro. Era uma mulher fantástica, mas acho que ao longo da vida ela toma algumas decisões que considero difíceis, mas que a permitiram fazer aquilo em que acreditava. Manter-se viúva é a primeira e a mais importante“, afirma Cláudia, justificando que com o marido morto e sem um filho homem, Amélia podia administrar o próprio dinheiro, onde queria viver e de que forma queria criar a filha, por exemplo. “Então ela decide canalizar o tempo, a energia, o dinheiro e os contactos que ela tinha para aquilo que queria, que em determinado momento vai ser a educação da filha. A ponto de conseguir que se forme com um diploma universitário em física com especialização em astronomia”.
Em 2023 o Palácio Nacional da Ajuda adquiriu um conjunto de documentos pertencentes a descendentes de Paulo Martins de Almeida, o Guarda Joias da Coroa, que foi o homem de confiança de D. Pedro IV e o secretário pessoal de Amélia durante os anos em que viveu viúva. Uma compra que terá sido mediada por Cláudia Thomé Witte, no âmbito da investigação sobre a vida da Duquesa de Bragança.
De acordo com Cláudia, os documentos históricos foram parar às mãos da família de Almeida porque assim Amélia o quis. Um dos pedidos da duquesa em fim de vida foi de que os seus documentos fossem queimados depois da sua morte, com exceção de alguns cujo destino decidiu: “Ela separa aquilo que é importante, ou seja, os documentos que tinham a ver com a história do Brasil, do D. Pedro I, que então destina para que sejam enviados para D. Pedro II. Então, toda a documentação, até a abdicação, vai para o Brasil”, explica Cláudia. “Toda a documentação referente a Portugal fica com o secretário dela, que acaba levando essa documentação para a Alemanha.”
A investigadora diz que entrou em contacto com a família durante o período em que esteve a pesquisar a vida de Amélia. “Esses documentos ficaram num baú, guardados durante muitos anos. A família nunca teve muito interesse, porque eram documentos que estavam em português. Até que eu entrei em contacto com essa família”. Cláudia diz que teve acesso às cartas e aos documentos e usou as informações no livro. “Nesse meio tempo, a matriarca da família morreu e eles resolveram vender. A Biblioteca da Ajuda se interessou em comprar, o governo português percebeu a importância disso. E eu fiz a intermediação dessa compra.” Para Cláudia, terá sido “dos grandes legados da pesquisa”.
As bonecas “Amélias” e as fãs
No meio dos quadros e documentos históricos, estão expostas pequenas bonecas vestidas em preto. São as “Amélias” que Cláudia conta ter ganhado de pessoas que acompanham o seu trabalho através das redes sociais. Durante a pandemia de covid-19, a investigadora fez vídeos e diretos com um amigo historiador, Paulo Rezutti, biógrafo do segundo imperador brasileiro, D. Pedro II. “Os vídeos tornaram-se uma alternativa para muitas pessoas passarem o tempo, à medida que também aprendiam. E dava a sensação de que tinha alguém em casa, tinha alguém a conversar.”

Para retribuir a companhia em tempos tão conturbados, muitas pessoas quiseram oferecer presentes à escritora. “Em 2023, quando foi o lançamento do livro, que foi uma grande tourné pelo Brasil, as pessoas vinham não só pelo tema, pelo que eu ia dizer, mas também para me conhecer pessoalmente. E eu ouvia várias vezes essa história: ‘Olha, eu fiz essa boneca para você, ou eu fiz esse bordado, ou eu queria que você ficasse com esse livro antigo que eu tenho…’ Uma forma de retribuir, de agradecer a companhia e essa quebra da solidão que aconteceu durante a pandemia”. As bonecas são também companhia numa casa tão cheia de memórias de uma vida que Cláudia não viveu, mas sabe cada pormenor.