Sónia Santos está sentada no meio da sala, por vezes, fecha os olhos para ouvir e sentir as canções e suas letras, a intensidade e suas nuances, pela voz de Marco Oliveira, cantor e compositor com raízes no fado, e das melodias que saem das cordas da sua viola. Entende-as bem, também é fadista. Absorve os sons e as palavras de forma serena, tranquilamente, e um ligeiro sorriso nos lábios. Parece feliz, apesar da doença. “Saí fora daqui e viajei no tempo com muitas recordações na cabeça que podem ajudar a descomprimir. Há muita coisa que está cá dentro e que me deixa mais leve”, conta-nos no fim do concerto.
Às terças-feiras, semana sim, semana não, por volta do meio-dia, a sala de estar do Serviço de Oncologia Médica, no segundo piso do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, transforma-se num lugar de concertos intimistas e aconchegante para doentes internados, seus familiares, e profissionais de saúde. Arruma-se o mobiliário, colocam-se cadeiras ao centro, sofás encostados à parede, reserva-se algum espaço para camas, o palco é improvisado junto à janela encaixada na parede azul claro. O ambiente muda naquela meia hora.
“É sempre um prazer enorme voltar aqui”, anuncia Marco Oliveira que começa o concerto com um poema de Sophia de Mello Breyner que fez canção. “No fundo do mar há brancos pavores, onde as plantas são animais e os animais são flores” é o primeiro verso cantado. Segue-se um fado sobre uma menina amada de Lisboa com o azul do Tejo no olhar, a canção do Ribeirinho e da Milú do filme “O Grande Elias”, outras cantigas e outros fados. O concerto faz parte do projeto “Música em Medicina” que existe há seis anos e que já teve Camané e Cristina Branco naquela sala. Durante as músicas, Margarida Freitas desenha num bloco a plateia, o músico, e algumas caras de quem ali está.

É a primeira vez que Sushil Bhandari assiste ao concerto, no anterior ouviu alguns sons deitado na cama do quarto. Desta vez, decidiu sair, sentou-se no sofá da sala, a sua mulher também veio. Sushil é nepalês, está em Portugal há 11 anos, internado há algum tempo, tem feito ciclos de radioterapia e quimioterapia, vários exames e análises ao sangue. O cancro não lhe tem dado sossego. Esta terça-feira, está bem-disposto, entra na sala, realça as virtudes da música e o que ela lhe proporciona. “Momentos de meditação, de relaxar e de calma.” Abana ligeiramente a cabeça ao som da música, tem o telemóvel na mão. “Foi tocante, é um ambiente muito descontraído, estou mais relaxado”, diz, no fim das canções, antes de voltar ao quarto da enfermaria com 38 camas.
Rosa Maria Silva sai do quarto para assistir ao concerto pela primeira vez. Vem de cadeira de rodas, botija de oxigénio, anda com crises de falta de ar. Há 10 anos que está a ser acompanhada pelo IPO de Lisboa, são cancros em vários sítios do corpo. “Aqui é sem medos, não sou de entregas, só morro quando chegar o dia”, avisa. Mulher forte a caminho dos 80 anos, coloca-se do lado direito da sala, a poucos metros do músico Marco Oliveira. Não sai muito do quarto, confessa, gosta de fado, veio ver o ambiente. “Quando era mais nova, ouvia outro tipo de música”, lembra. Assiste ao concerto com a cara apoiada na mão direita, em silêncio, atenta. Quando as canções acabam, bate palmas. “Aqui, estragam-me com mimos, são os nossos anjos.”
A música e o seu condão de revelar e regular emoções
Graça Almeida anda pelos quartos da enfermaria sempre atenta, a ver o que é preciso. É voluntária da Liga Portuguesa Contra o Cancro a tempo inteiro, conta com 30 anos de voluntariado. Às terças-feiras de manhã, de quinze em quinze dias, anda de quarto em quarto a anunciar que há concerto, a distribuir os folhetos feitos para a ocasião com a figura de cartaz e seu currículo resumido, arranja o que é necessário para quem quer assistir, cadeiras de rodas, cadeirões, botijas portáteis de oxigénio, quem não se pode levantar, pode ir na cama de rodas. Todos são convidados, doentes e familiares, e todas as vontades são respeitadas.
“Hoje disse-lhes que íamos ter fado ao vivo. Falo do projeto, que temos música de quinze em quinze dias, é uma forma de saírem daquele quadrado que é o quarto.” Nota-se que faz o que faz com gosto, dedicação, entrega. Ali, todos lhe reconhecem esse trabalho de formiguinha. Desde o primeiro momento que abraçou e se envolveu no projeto da música e dos desenhos. “Há aqui qualquer coisa que mexe, a música é muito terapêutica, tem muita importância num doente que está com dor.” “E não é só a música, ficam muito encantados com os desenhos, é um projeto realmente fantástico”, acrescenta Graça Almeida que vê e sente os efeitos dos concertos, na vontade de voltar e repetir, nas conversas sobre as músicas com os familiares e as visitas, quando mostram os desenhos. “Há pessoas que perguntam quando é o próximo, vão muito mais satisfeitas, com um sorriso, com um espírito diferente. O sorriso é o maior prémio.”
Nuno Santos ficou com esse sorriso depois do concerto. “Estou mais relaxado, feliz. A música também nos transporta para outras latitudes”, confessa já no quarto. Aquela meia hora fez todo o sentido. “É uma iniciativa maravilhosa. As pessoas que estão aqui não estão nas melhores condições, cada um com o seu tratamento específico.” Quando anunciaram que havia fado, não pensou duas vezes. Levantou-se, foi para a sala, sentou-se no sofá, acompanhado pela família. “A minha esposa e a filhota também sentiram que eu estava bem.” E essa sensação foi bastante reconfortante para si.

Desta vez, não ficará muito tempo internado. Tratamento, mais uma fase de quimioterapia, uma ou duas noites e Nuno Santos voltará a casa. Desconhecia o projeto, não o apanhou da última vez que ali esteve. “É uma mais-valia, transmite uma energia positiva, dá-nos mais força”, elogia. E garante que vai seguir o músico Marco Oliveira e adicioná-lo à sua playlist.
João Graça, médico psiquiatra, um dos responsáveis pelo projeto, faz as honras da casa, ou seja, do concerto, explica resumidamente a iniciativa, avisa que os desenhos que serão feitos pela artista Margarida Freitas estarão expostos depois da música acabar. “Música em Medicina” tem cumprido os seus propósitos como iniciativa que promove a humanização dos cuidados, que olha para a pessoa como um todo. O impacto emocional é visível. “A música é um catalisador de emoções. O som, pelas suas propriedades físicas, entra no nosso corpo e consoante os contextos, as histórias de vida, as memórias, pode ou não mobilizar emoções – habitualmente são emoções que estão escondidas, recalcadas, mas podem ser emoções boas, há aqui uma componente de memória. A música tem este condão de, como por magia, chegar às emoções e ajudar a regulá-las”, sublinha. Os doentes têm contado sensações de relaxamento, pausa, abstração da doença.
“Durante o tempo em que estão no concerto, param de pensar na doença, pode ser uma música, pode ser o concerto inteiro. Esse tempo é uma fonte de grande vitalidade neste contexto, para refletir, imaginar, sair daqui. A música também é vista como um espaço seguro, ou seja, um espaço onde se pode estar, onde se pode chorar, onde se pode sentir o que for para sentir de uma forma íntima”, adianta. Alguns doentes falam de esperança, para aquilo que há de vir. Há outros ganhos como facilitar a saída de um estado depressivo ou auxiliar um processo de reabilitação motora.
O projeto arrancou em janeiro de 2019 com um concerto por mês, agora são dois, esteve suspenso durante a pandemia. Durante um período, contou com a participação dos Urban Sketchers na parte dos desenhos que continuam a ser feitos por outros artistas. “Há pessoas que têm grandes deformações, ou por cirurgia ou pelo próprio tumor, massas no pescoço, na face, em outras partes do corpo, e o desenho tem o papel de integrar essas mudanças de uma forma benéfica, de gostaram do que vêem apesar das transformações que o cancro provocou”, explica João Graça. Esses desenhos são retratos e memórias físicas. Até ao momento, foram realizados 78 concertos a que assistiram 960 doentes (não há números de familiares e profissionais de saúde). Desde o ano passado, que também há concertos na Unidade de Transplante de Medula no IPO, uma vez por mês.


“Música em Medicina” tem várias particularidades, é acessível e acontece num contexto de doença, de internamento, de sobrecarga de trabalho. A equipa está a analisar várias componentes da iniciativa através de uma investigação que avalia o impacto e benefício da arte. Já foram entrevistados 10 doentes, 12 profissionais e quatro familiares ao longo de 2023 e 2024, num estudo cujos resultados serão divulgados ainda este ano. “Foi interessante os participantes porem o que sentem em palavras”, comenta o psiquiatra João Graça. “A doença, muitas vezes, é vivida de uma forma isolada, como uma cruz que se carrega. E nesse momento, de repente, os doentes percebem que estão numa sala e que há outras pessoas que estão na mesma condição e que estão a partilhar qualquer coisa de artístico, que estão a viver um espetáculo, em comunhão com os profissionais, com a Liga, o que quebra barreiras, torna isto uma comunidade e ajuda um bocadinho a quebrar o sentimento de solidão que existe para se ultrapassar a doença.”
A ideia surgiu depois do que aconteceu com um jovem guineense com um tumor grave num estado avançado, com longos internamentos na enfermaria do IPO de Lisboa, longe do seu país, sem raízes, que não conseguia expressar emoções. João Graça, enquanto psiquiatra, foi chamado para observar o jovem que não respondia a nada, até ao dia em que um contrabaixista pediu para tocar para um familiar internado. Os médicos pediram-lhe para tocar também para o jovem. “Houve aqui uma espécie de um milagre, um acaso feliz. O concerto correu muito bem e, pela primeira vez, o jovem doente expressou emoções.” O que tinha acontecido não poderia ser desperdiçado, estava dado o mote. “Vamos experimentar, vamos pôr aqui arte. Acreditamos que a arte devia sair dos sítios convencionais, das salas de concerto, e ir para onde também é precisa. O ambiente hospitalar é um sítio duro, é uma enfermaria com doentes em cuidados paliativos, em tratamento ativo.” Com o enfermeiro Pedro Soares, do Serviço de Oncologia Médica, e Sandra Martins, música profissional, João Graça arquitetou o “Música em Medicina”.
Outros sons e outros ritmos que quebram rotinas hospitalares duras
Sandra Martins é violoncelista, faz parte da equipa desde o início, contacta os músicos para tocarem e cantarem no IPO, por vezes, atua em alguns concertos. Privilegia a qualidade dos artistas, o seu repertório, no projeto que começou em regime de voluntariado e se tornou profissional – todos os músicos são pagos, a última atuação sem caché foi de Camané em fevereiro de 2020 antes do mundo parar por causa da pandemia. Cada concerto é um momento único. “Um dos principais objetivos é tentar romper com a rotina hospitalar, que é muito pesada. É tentar levar concertos que acontecem em teatros, em auditórios, até às pessoas que estão internadas.”
Na sua maioria, os concertos são acústicos, intimistas, que se ouvem em silêncio, conversa-se no fim. “Quase todos falam da questão da leveza, ficam um pouco mais leves no resto do dia, outros dizem que se esquecem completamente da dor, que não sentem dor.” “Tem sido muito bonito e muito gratificante assistir a esta construção ao longo deste tempo, este contacto e esta proximidade que temos tido com os utentes”, realça Sandra Martins. São momentos de partilha, de sentirem que não estão sós. “Ver que estão todos na mesma situação, acaba por ajudar. A música tem muita força aí.” Há uma frase de uma senhora que lhe ficou gravada na memória. “Aqui voltei a sentir-me pessoa e não doente.”
Os profissionais de saúde não são imunes à dor, ao sofrimento. Quando tem oportunidade Pedro Meireles, médico oncologista, vai à sala onde acontecem os concertos. Sai de lá com outro ânimo para prosseguir o dia de consultas. “Conseguimos parar, desligar um bocadinho. Parece que fazemos um reset às nossas emoções e ao stress do dia a dia, saímos revitalizados com um estado de espírito diferente”, conta. O que vê e o que acontece naquele momento não o deixam indiferente. “Doentes sozinhos ou acompanhados a confraternizar. É um espaço de partilha, com um som ambiente, que traz uma grande proximidade entre nós e os doentes e os próprios doentes entre si.”

Independentemente do ritmo, da canção, é um espaço de convívio. “No fundo, está desenhado como um projeto humanista que quebra a rotina do pessoal médico e principalmente dos doentes que estão internados. Cria outros sons que são diferentes dos que se ouvem numa enfermaria de internamento”, acrescenta Pedro Meireles ao lembrar que se trata de “uma intervenção pioneira em Portugal” que dá conforto e proporciona bem-estar.
João Graça também partilha a sua experiência. “Para mim, como pessoa, como profissional, é uma lufada de ar fresco, um momento diferente, um momento de quebra da rotina, em que consigo reconectar-me, consigo parar e deixar de estar no modo tarefa.” “Saio mais cheio, mais vitalizado, com mais vontade de conectar com os próximos doentes que vou ver”, diz, confessando que é o projeto profissional que mais se orgulha de ter colocado em prática. “É um projeto fora da caixa, que dá um sentimento de sentido, que pode ser transformador, é um bom contributo para o sítio onde trabalho, onde estou.”
Alda Walker recorda aquele concerto de um grupo de miúdos ucranianos numa terça-feira de outubro de 2023. O marido estava novamente internado, dessa vez, de forma inesperada, de um dia para o outro dava entrada no IPO de Lisboa, onde era seguido há seis anos. O casal estava emocionalmente de rastos. Voluntárias da Liga Portuguesa Contra o Cancro entraram no quarto e anunciaram que havia concerto ao fim da manhã. Houve alguma resistência inicial. “Senti que ele estava muito debilitado, psicologicamente muito afetado.”
As voluntárias trataram de tudo, da cadeira de rodas, da botija de oxigénio, e levaram-no para a sala. Alda ficou atrás com outros familiares. “Durante aquele tempo, a doença ficou lá fora. Por momentos, saíram daquela escuridão, daquele desnorte. Estamos todos naquela sala e sentimos ‘estamos aqui a receber isto, não sabemos para onde vamos, mas, por momentos, estamos todos iguais.’” Foi como respirar outro ar durante aquela meia hora. “A música não cura, como é óbvio, mas por momentos, cura a alma dos que ali estão, faz essa cura por instantes.” Quando o marido regressou ao quarto, vinha curioso, quis pesquisar quem eram aqueles miúdos e as suas músicas cantadas em ucraniano, falou do concerto aos filhos e Alda partilhou com eles fotografias que tirou daquele momento. “Abstraiu-se da doença, do que estava a passar.”




Foi o que aconteceu no último concerto a Sónia Santos que canta em casas de fados de Lisboa, tinha estreia marcada para a Senhorita, não aconteceu, a doença não deixou, voltou ao IPO. Estava internada há cinco dias, não hesitou em assistir ao momento musical, mesmo depois de mais um tratamento. “Foi um momento bom neste ambiente de um hospital em que há pessoas sozinhas, que não têm uma única visita durante o dia todo. A música dá um ânimo fantástico para quem está fechado 24 horas sob 24 horas.”
O dia correrá melhor, sente. Ali, vai cantando para dentro. “A voz quando abre, já ninguém a segura”, garante. Em 2021, a doença voltou e espalhou-se, mama, axilas, fígado, ossos. Sónia não sabe quando terá alta. “Não há previsão, estão a ver com a coisa evolui, enquanto cá estou, estou a fazer o que sempre fiz.” A seguir os tratamentos, a cantar calada, a conversar com quem está internado, com os técnicos de saúde, a receber visitas da mãe, da filha, das amigas. “Sou como um pássaro que tem de sair da gaiola, não posso estar demasiado presa.”

Alda Walker passou quinze dias na enfermaria do IPO de Lisboa com o marido e o que viu e sentiu jamais esquecerá. “São profissionais de uma humanidade extrema, que encaram a morte todos os dias e que, ainda assim, não descuram os pequenos pormenores para o bem-estar dos doentes e das suas famílias.” Agradece tudo o que fizeram e fazem e considera os concertos um “projeto fantástico” que devia ser replicado em outros hospitais. “O que aquelas músicas e aqueles miúdos fizeram naquele dia, abstrair da doença, a sensação de que não estavam sozinhos naquela desgraça, a trazer um bocadinho do normal de lá de fora, porque tudo deixa de ser normal.” O marido morreu-lhe nos braços, a ouvir música, cinco dias depois do concerto.
Nesta manhã de terça-feira, Graça Almeida não parou, como de costuma, ida aos quartos, levar doentes para a sala do concerto, quando a música começa, ver se alguém quer água, a máquina do Sushil, a determinada altura, dá sinal, entra uma técnica para ver o que se passa. A voluntária vai à cama do senhor ao fundo da sala, perguntar baixinho se está bem, se precisa de alguma coisa, e ouve como resposta, também baixinho, “não fale porque se está a cantar o fado.” Graça sorri. “Hoje só saio daqui à noite com o meu coração muito mais cheio.”