Quando entrou em casa, num sétimo andar, levado pelo elevador, depois de vários dias internado no Hospital Amato Lusitano, em Castelo Branco – na sequência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) – Carlos Semedo percebeu que não era o mesmo. Nem queria voltar a ser. O conhecido programador cultural da região sabia, há muitos anos, que vivia na corda bamba: sem horas para comer, dormindo pouco e mal, hipertenso já diagnosticado, em permanente agitação interior.
Voltou a casa sem forças, sequer para segurar um talher na mão, quanto mais uma caneta. Logo ele, a quem as palavras sempre salvaram. Entregou-se desde a primeira semana a um trabalho de fisioterapia intensivo que viria a permitir-lhe recuperar movimentos e a superar-se, da forma que nunca imaginou. Nem ele, nem a sua coesa rede: a mulher, Helena; a filha, Patrícia; a mãe, Margarida; os amigos Carlos e Ana, mas também uma mão cheia de técnicos de saúde, com o fisioterapeuta Renato à cabeça, ou a médica internista Raquel. Todos eles contribuíram para que voltasse à vida sem (aparentes) sequelas, ao ponto de um ano depois do AVC, ter percorrido, sozinho, um dos Caminhos de Santiago. Mesmo com a perna a falhar, de quando em vez.
Esta é a história de um homem a quem uma veia entupida no cérebro ensinou como viver de outra maneira.
Helena Semedo
"Fizemos juntos um caminho de transformação”
Helena e Carlos namoram “há uma vida”. Unidos pela música casaram há 36 anos. Na sala onde recapitulam os dias que se seguiram ao AVC, há fotografias que retratam essa história de amor e cumplicidade, ao redor de um piano e de uma guitarra. Ela continua a ser professora de música no Conservatório, considera-se “um bocadinho hipocondríaca”, e já antes daquele dia 15 de setembro “passava a vida a avisar o Carlos de que era preciso ter cuidado, ir ao médico de vez em quando, não colocar o trabalho à frente de tudo”.
Naquela manhã, percebeu logo que algo de grave se passava com ele. E depois de o deixar na urgência, temeu um quadro ainda pior.
“No hospital foram todos muito cautelosos. O drama, naquele dia, era que a tensão arterial estava tão alta que a equipa médica e de enfermagem não a conseguiam baixar”, recorda, porque essa foi a única informação que inicialmente lhe transmitiram, preparando-a para o diagnóstico: um AVC isquémico. A confirmação fez Helena gelar: a mãe morrera vítima da doença, um amigo ficara bastante incapacitado.
Nos dias seguintes, viu o estado a agravar-se. “Ele ficou paralisado do lado direito todo. E durante algum tempo ainda, talvez uns três ou quatro dias. Eu tinha de lhe dar a comida na boca”, diz, resumindo tudo “numa angústia muito grande”.
Quando os médicos deram alta ao marido e entraram juntos em casa, Helena percebeu que aquela teria de ser uma transformação conjunta. “Primeiro pensei mesmo que ele iria ficar incapacitado. Depois vi como se agarrou à fisioterapia. Foi muito trabalho da parte dele, também muita resiliência e, muito importante, o apoio que tivemos”, recorda. “O carinho transformado em dedicação por parte de tanta gente – até de pessoas que aparentemente eram meio rivais dele, no meio político – foram muito importantes”, considera Helena Semedo.
Nunca mais conseguiu relaxar completamente no que toca à saúde do marido. Diz-se em permanente estado de alerta, mesmo que o tenha a seu lado, da forma como não julgou possível, (quase) recuperado.
Margarida Semedo
“Acompanhava-o nas sessões, nem que fosse à distância”
Aos 81 anos, Margarida Semedo já passou pela experiência que não julgava, a de ver o filho com mais limitações físicas do que ela. Viúva, percorreu sozinha, muitas vezes, a estrada que liga Portalegre a Castelo Branco, só para poder estar com o filho, para perceber que progressos fazia.
A mãe de Carlos foi enfermeira toda a vida e, por isso, “já tinha visto muitos casos de AVC”. Mas vê-lo no filho, foi duro. “No princípio, pelas informações que a Helena me dava, pareceu-me que fosse uma coisa mais leve. Mas quando cheguei ao pé dele, tive a noção do impacto”, conta.
“Realmente vi que havia ali coisas que não estavam funcionais. Mas eu sou uma pessoa de esperança e transmiti sempre isso ao meu filho. É uma questão de atitude perante a vida”, afirma Margarida, que desde o AVC sublinha ainda mais essa faceta.
Ia e vinha sem fazer contas aos quilómetros para “estar com ele o máximo de tempo possível. Ficava no meu canto enquanto ele fazia fisioterapia ou terapia da fala. Acompanhei sempre tudo, mesmo que, por vezes, fosse à distância. Uma mãe nunca está distante do filho”.
Patrícia Semedo
“Quando a minha mãe me ligou, apanhei o primeiro avião que consegui e voei para Portugal”
Patrícia Semedo, 28 anos, é a única filha de Carlos e Helena. Desde a pandemia que se mudara para Cardiff, no País de Gales, onde é violoncelista numa orquestra e trabalha num colégio interno.
“Quando a minha mãe me ligou apanhei o primeiro avião que consegui e voei para Portugal”, conta, numa videochamada. Fez a viagem com o coração nas mãos, com a imagem do pai na cama do hospital, que a mãe lhe mostrara ao telefone. Quando chegou, foi serenando. “Depois, quando ele saiu do hospital, percebi que ele conseguiria recuperar, não totalmente, mas em larga medida”.
O pai sublinha como a filha foi fundamental nos primeiros tempos. Ela, que o acompanhava “nas primeiras caminhadas”. “Ao início era difícil porque ele cansava-se muito. Depois tive de voltar para Cardiff, mas continuei a acompanhá-lo assim, em videochamada. Penso que só o facto de me ouvir falar já o ajudava”.
Patrícia, que mantém uma ligação quase direta com os pais, orgulha-se do caminho que o pai fez depois do AVC, nomeadamente “da consciência que tomou relativamente à saúde e ao trabalho”.
Ana Leão
“O meu papel foi estar presente”
Na noite de 15 de setembro de 2023, Ana Leão (Nucha, para os amigos), levou a amiga-irmã Helena para sua casa e dormiu a segurar-lhe na mão. É uma amizade de muitos anos, que se estende para laços de família: Ana é madrinha da filha de Carlos e Helena. No dia do AVC largou tudo para apoiar os compadres. E nos dias seguintes também.
Dirigiu-se ao hospital. “Foi complicado vê-lo ali, sem conseguir articular as palavras, a enfermeira a tentar levantá-lo e ele sem conseguir andar”, recorda. Olhando para trás, considera que o seu papel “foi sobretudo estar presente, fazer companhia, conversar. Sempre que podia estava em casa deles”.
Ao princípio, nas visitas ao hospital, a amiga temeu pelas sequelas. “Mas, depois, quando vi a força dele e a forma como se esforçava na fisioterapia, convenci-me de que ficaria bem”.
Rebobinando esse filme, Ana Leão acredita que o seu papel na rede de Carlos incidiu sobre o apoio à mulher, Helena, a tal amiga-irmã. “Quando saíamos as duas eu tentava que ela exteriorizasse comigo aquilo que não podia fazer na frente do Carlos: os receios de que não voltasse a andar normalmente, não voltasse ao emprego, não voltasse a ser o mesmo”. Relativizava, aligeirava, na arte de trazer leveza ao que era, por si, “uma situação pesada”.
Carlos Matos
“Incentivei-o a fazer o caminho de Santiago”
Carlos Matos não consegue precisar há quantos anos dura a amizade com Carlos Semedo. Trabalharam juntos num projeto cultural – a Fábrica da Criatividade – em Castelo Branco, durante cerca de quatro anos, conhecem-se muito bem. “A primeira coisa que pensei quando soube do AVC foi que a causa teria sido a vida tão intensa que ele levava. E então, olhei para a minha biblioteca, peguei num livro do Tintin, fui vê-lo ao hospital e disse-lhe: Meu amigo, é para leres uma coisa simples e leve”.
Nos dias que se seguiram, Carlos Matos conversou muito com as amigas Helena e Ana, até para perceberem como cada um deles poderia ajudar na recuperação, como poderiam funcionar em rede. E foi ele, afinal, quem motivou Carlos a fazer os caminhos de Santiago, pois é um caminheiro experiente. “A recuperação de um processo destes é feita com muito trabalho e disciplina, e o caminho traria ainda mais empenho à recuperação. O caminho é cansativo, não é fácil, e obriga-nos a olhar para o horizonte. Eu sabia que para ele teria também essa dimensão, a de olhar para o futuro”.
Renato Silveira
“O Carlos foi das pessoas que acompanhei com mais força de vontade”
Renato Silveira é fisioterapeuta há 20 anos. Quando encontrou Carlos Semedo, já a recuperação física ia avançada. Conhecia-o da cidade, do seu envolvimento na cultura local, mas nunca lhe falara, até ao dia em que recebeu uma chamada. “Nessa altura eu não sabia o estado em que ele estava. Quando chegou às minhas mãos já se encontrava naquilo a que chamamos de um estado pós-agudo e a entrar na cronicidade do AVC, já era perfeitamente autónomo”, recorda ao OBSERVADOR. Enaltece todo o trabalho anterior que as colegas fizeram com ele, “permitindo-lhe passar de uma fase quase de uma dependência total para uma autonomia”.
Porém, era uma fase igualmente delicada, em que todos tinham de jogar com a parte psicológica da pessoa. “Porque é a fase em que temos, não só de afinar os pormenores que faltavam – as questões do equilíbrio e o andar, que não estavam bem – como pequenos vícios que ele ganhou com o AVC durante aquela recuperação, que era preciso trabalhar, reverter. E nunca se reverte totalmente”, afirma. “O meu papel passou também por mentalizá-lo de que a vida não volta a ser como era antes e não poderia ficar à espera disso. Mas ele sempre demonstrou uma força de vontade impressionante.”
Renato conta que já trabalhou com muitos casos de AVC ao longo da vida profissional e, por isso, tem (muito) termo de comparação: “O Carlos foi das pessoas que acompanhei com mais força de vontade para superar as limitações. Enquanto há muitas pessoas, em que é preciso estar sempre a puxar por elas, no caso dele era o contrário, era preciso resfriá-lo”, diz o fisioterapeuta, que se tornou amigo.
Afligiu-se quando ele lhe contou a intenção de fazer o caminho de Santiago. “Pus as mãos à cabeça, achei que se calhar era cedo mais. Conversámos muito. Foi nessa altura que começámos a delinear um plano de treinos mais adaptado. Depois, durante a caminhada, fomos sempre trocando mensagens.” Atualmente as sessões acontecem mensalmente. Renato foi sempre de grande franqueza com Carlos e dizia-lhe: “Vai haver sempre limitações, mas isto não é limitativo para ter uma vida normal”.
Raquel David
"É um doente que me traz um desafio acrescido”
A médica Raquel David conheceu Carlos Semedo no decorrer do processo, quando o AVC estava na chamada “fase isodensa”, ou seja, depois de passarem várias horas, de haver sintomas, mas ainda não era possível ter uma imagem definida das veias. Durante o internamento, naqueles cinco ou seis dias, percebeu que tinha naquele doente um desafio acrescido. “Como médica internista numa cidade do interior, a maior parte dos meus doentes são pessoas muito idosas, e a maioria com baixa escolaridade. O Carlos é o contrário disso tudo e representa um desafio acrescido. Significativamente mais jovem, com uma cultura geral e um nível literato muito mais desenvolvido, muito acima da média. E isso foi favorável à sua recuperação, mas era preciso estar à altura de o saber esclarecer.”
Volvido este tempo, Raquel David considera que “o Carlos compreendeu muito bem as alterações que teria de fazer no seu estilo de vida. Mostrou grande humildade em todo o processo. E isso hoje vê-se muito bem, quer do ponto de vista físico, como também nas outras ferramentas que temos para avaliar a qualidade da saúde”.
“Tal como o nome indica, o AVC tem uma afetação cerebral, mas não é uma doença puramente neurológica, porque resulta da afetação dos vasos sanguíneos por diferentes mecanismos. É evidente que a neurologia é essencial, embora correndo o risco de ser facciosa, porque o AVC é uma doença sistémica, de alguma forma”, explica, para que possamos compreender a (sua) especialidade aplicada a estes doentes. “Porque o que estagna os vasos sanguíneos no cérebro também afeta outras partes do corpo”.
As consultas no Hospital de Castelo Branco ocorrem agora mais espaçadas. Carlos não é um dos doentes mais jovens da consulta desta internista, que ainda assim considera ter sido “um AVC ainda em idade jovem”. Os AVC “acontecem desde bebés a idosos”, e “como é óbvio, as causas são bastantes diferentes”. É, por isso, que Raquel David não se cansa de apelar à prevenção, incutindo na população hábitos de vida saudáveis.
Carlos Semedo
"A responsabilidade do meu AVC é minha”
A 15 de setembro de 2023, Carlos Semedo, então com 57 anos, acordou estranho. “Como se tivesse bebido duas garrafas de vinho”. E com um braço dormente. A seu lado, temendo tratar-se daquilo que viria a confirmar-se, a mulher insistiu para o levar à urgência do Hospital Amato Lusitano, em Castelo Branco, a cidade onde a família mora e é bem conhecida. Carlos é um respeitado programador cultural com trabalho feito, não apenas nos espaços geridos pelo município, como também no Conservatório local, ou no Centro de Belgais, da pianista Maria João Pires.
“A responsabilidade do meu AVC é minha. Tenho essa consciência”, afirma, um ano e meio depois daquela sexta-feira em que acordou “estranho”. “Dormia pouco e mal, trabalhava aos fins de semana, à noite, fora de horas, por vezes esquecia-me de comer”, descreve ao Observador.
Quando Helena o deixou à porta da urgência geral do hospital, tanto ela como ele já suspeitavam que fosse um AVC. Ainda assim, não era claro. “Ainda hoje, os médicos não sabem dizer quando aconteceu, com precisão”. Carlos mantinha coerência no discurso, entrou pelo próprio pé. Porém, à medida que o tempo passava, os sinais tornavam-se mais nítidos. Os testes neurológicos também haveriam de ditar o diagnóstico. Uma vez deitado naquela cama do hospital, com cada vez menos força no braço, os sons e imagens alterados entre si, percebeu, num fio de clarividência, que “precisava de sair dali, de recuperar”.
Mal chegou a casa, e se deu conta das limitações [físicas, sobretudo], teve consciência de que não podia esperar por vagas ou prazos para iniciar a fisioterapia. “Eu saí do hospital com força zero no braço e na mão. Não encostava o mindinho ao indicador”, exemplifica, sentado na mesma cadeira onde a primeira fisioterapeuta o colocou, nos dias seguintes, junto à janela da sala. Os serviços de saúde ainda lhe propuseram que o fizesse em ambiente de reabilitação, em Vila de Rei. Mas Carlos e a família optaram pelo domicílio, com toda a disciplina que conseguiram.
Primeiro, mudou a alimentação. Mais tarde, acrescentou aos tratamentos de fisioterapia e terapia da fala, pequenas caminhadas. Já se sabe que todas começam com um pequeno passo. “Ia desde a entrada do prédio até às palmeiras que ficam ali adiante, primeiro uma, depois outra, até conseguir fazer distâncias maiores. Ao princípio era um sofrimento”.
Aos poucos, com muito trabalho, foi recuperando a sensibilidade, a motricidade. Hoje caminha todos os dias à volta de seis quilómetros, ao nascer do dia. As caminhadas tornaram-se uma demanda do quotidiano. Até que as conversas com o amigo Carlos Matos [um entusiasta dos caminhos de Santiago] lhe serviram de gatilho: haveria de conseguir chegar a Santiago de Compostela sozinho, quase como um renascimento, um ano depois.
A notícia foi recebida pela família, amigos, e sobretudo pelo fisioterapeuta atual, Renato Silveira, com preocupação. Todos encararam o desafio como um projeto comum e, à distância, foram monitorizando. Carlos preparou-se muito, sobretudo internamente. Ele, que nunca fora religioso, mas que no período de convalescença descobriu as Confissões de Santo Agostinho, através de uma conferência de Tolentino Mendonça, e aí se inspirou.
Fez-se ao caminho, munido de tudo o que lhe indicaram (cremes, meias, calçado…), percorreu 124 km, de Valença a Santiago. Chegou lá no dia 13 de setembro, dois dias antes de completar o primeiro ano depois do AVC.
Os dias correm agora muito mais devagar para Carlos. A mulher diz que até o timbre de voz mudou, o riso também. “Passei a estar muito alerta em relação a tudo, nomeadamente a pequenos sinais que o corpo me possa dar. E eu era o contrário disso”, admite. Continua a fazer fisioterapia e a ser acompanhado pelo serviço de medicina interna do Hospital Amato Lusitano.
“A grande lição que aprendi, desde a enfermaria até à recuperação é que nós, sozinhos, não somos nada”, resume Carlos Semedo, sempre grato ao que tem sido a malha coesa da sua rede, que vai muito para além dos que aqui apresentamos. Para sempre guardará uma chamada do ator Miguel Seabra, também ele vítima de um AVC, há anos. “O Miguel telefonou-me 15 dias depois de eu estar em casa. Ele tinha estado aqui, no Cine-Teatro Avenida, com a sua peça, que retrata isso mesmo. Foram 15 minutos de conversa muito precisa e mágica”.
Carlos Semedo diz que nunca conseguirá explicar a importância daquele contacto, naquele momento. Porque Miguel é, para ele, “um exemplo de como, com muita tenacidade, muita força e muita energia, conseguiu voltar aos palcos, à sua vida. Uma das coisas que me disse foi: ‘Carlos, eu sei que tu gostas de escrever. Faz um favor a ti próprio, escreve o que te vier à cabeça. Seja o que for”. E assim foi, até hoje. Ecoam-lhe ainda as palavras: “Tu és o centro dessa revolução interior e tens de ser tu a fazê-lo”.