Durante muitos anos, nem os 13 filhos souberam o que Jorge Jardim fazia quando não estava no Dondo, em Moçambique, para onde a família se mudou em 1952.
O pai era administrador de uma fábrica de fibrocimentos. Viajava muito e algumas dessas viagens não estavam isentas de perigo. Nessas ocasiões, a prole chegava mesmo a ser convocada pela mãe e pela avó, para, em conjunto, rezarem por ele. Mas a conversa acabava aí, as crianças não tinham direito a mais informação.
“Nós não percebíamos nada sobre em que é que o meu pai trabalhava, sabíamos que era o administrador da Lusalite e isso não nos interessava nada. Também não sabíamos o que é que os outros pais faziam, não é? Só sabíamos que os outros pais estavam em casa sempre e o nosso pai não estava”, recorda Isabel Maria Jardim, conhecida na família como “Patucha”, a mais velha de 10 raparigas e 3 rapazes.
Na verdade, sob a capa de respeitável homem de negócios e deputado à Assembleia Nacional Portuguesa por Moçambique, Jorge Jardim escondia uma vida dupla: era uma espécie de agente secreto, com uma linha direta para António Oliveira Salazar, financiamento do Estado Português e uma folha de missões arriscadas.
Quando finalmente tiveram idade para isso, as filhas, que na zona da Beira já causavam sensação pela desinibição e coragem — quando faziam 17 anos, todas se estreavam a saltar de paraquedas e uma delas chegou mesmo a dar instrução aos militares das forças especiais de paraquedistas locais —, são postas ao corrente da outra vida do pai. E algumas delas vão mesmo chegar a embarcar com ele nas arriscadas missões secretas que empreendia em África e não só.
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Qual James Bond, de quem era fã, Jorge Jardim viajava por todo o mundo, muitas vezes aos comandos do seu próprio avião, munido de gadgets como canetas que disparavam balas e protegido por uma rede de influências — de que também faziam parte os informadores e espiões que ele próprio recrutava por toda a África Austral, e em que até se incluía o mais famoso cantor romântico de Moçambique, João Maria Tudela, intérprete do clássico “Kanimambo”.
Da Índia ao Brasil, passando por todo o continente africano, e apesar de não ter qualquer cargo oficial, Jorge Pereira Jardim, nascido em Lisboa em novembro de 1919, representou os interesses do regime e interveio em alguns dos episódios mais marcantes da História recente de Portugal. Até ao momento, ainda antes do 25 de Abril de 1974, em que começou a atuar por conta própria, e se uniu a vários líderes africanos com o objetivo secreto de criar um país.
Jorge Jardim queria um Moçambique independente, multirracial e multipartidário. Tentou fazer aprovar esse plano três vezes. E, por três vezes, viu as suas ideias serem liminarmente chumbadas, mesmo depois de, no rescaldo do 25 de Abril, ter apoiado publicamente o programa do Movimento das Forças Armadas.
Com a revolução, diz Pedro Rebelo de Sousa, irmão do atual Presidente da República e filho de Baltasar Rebelo de Sousa, governador-geral de Moçambique entre 1968 e 1970 e, desde então e até abril de 1974, ministro do Ultramar, Jorge Jardim “passou a ser contagioso”.
Mas nem por isso deixou de planear as suas missões. Com um mandado de captura em seu nome e impedido de regressar a Moçambique, tornou-se um fugitivo, exilou-se em Espanha e, a partir do país vizinho, durante o Verão Quente de 1975, retaliou contra o novo governo português.
O novo Podcast Plus do Observador chama-se “O Misterioso Engenheiro Jardim” e revela toda a história de Jorge Jardim, o agente secreto que parecia um simples homem de negócios, mas liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e foi pai de um clã de mulheres aventureiras.
É uma série para ouvir em seis episódios que tem narração do ator Lourenço Ortigão e banda sonora original composta pelos HMB.
A estreia está marcada para esta terça-feira, dia 18 de março, mas já pode ouvir o trailer aqui:
https://observador.pt/programas/o-misterioso-engenheiro-jardim/trailer-o-misterioso-engenheiro-jardim-estreia-a-18-de-marco/
Como habitualmente, a cada terça-feira sai um novo episódio — mas se é assinante standard ou premium do Observador não vai ter de esperar para ouvir a série completa, que vai estar disponível já no dia de estreia, no site do jornal.
“O Misterioso Engenheiro Jardim” tem guião e entrevistas de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Mariana Sousa Aguiar e o design gráfico de Miguel Feraso Cabral.