Nasceu e cresceu em Campos dos Goytacazes, uma cidade dos arredores do Rio de Janeiro (Brasil) demasiado pequena para que os sonhos cresçam. Paula Gicovate soube-o logo aos seis anos quando, ainda sem conseguir escrever, inventava histórias que o avô registava em pequenos cadernos. Criou um blogue antes de se mudar para o Rio de Janeiro, formar-se em Letras e trabalhar como guionista na Rede Globo. Começou a escrever cartas de amor sobre e para pessoas que não existiam e, quando tentou desviar-se desse caminho, os leitores pediram-lhe que voltasse.
Com Notas Sobre a Impermanência — publicado em Portugal pela À/Parte — foi finalista do Prémio Oceanos, em 2022, e desde essa altura que sonhava lançar o livro em Portugal. Muito porque as viagens até cá são cada vez mais frequentes, graças ao marido brasileiro, mas filho de portugueses. Foi numa dessas visitas que o Observador falou com a autora brasileira que diz escrever para se manter uma “adulta minimamente funcional”.
O romance publicado agora nasceu em Barcelona, em 2015 — mas demorou quatro anos até estar terminado. Foi lá que Gicovate se instalou para uma residência literária mas, profundamente sozinha e infeliz na cidade espanhola, não conseguiu escrever nada do que pretendia. Quando desistiu, apareceu-lhe Lia, a protagonista. Presa a uma relação proibida, é atingida por um amor que sabe ser tóxico e a rotula como amante. Fazer dela “a outra”, protagonista de um livro deixou muitas dúvidas à escritora mas, à medida que as páginas avançam, é fácil perceber que Lia é muito mais do que uma amante e que Notas Sobre a Impermanência é uma história escrita de forma simples, dura, mas bonita ao mesmo tempo, sobre o que queremos, o que achamos que queremos e o que desejamos não querer.
A mãe — que morreu há dois anos após um cancro fulminante — era sempre a sua primeira leitora. Curiosamente, antes da viagem a Lisboa para promover o romance, encontrou um email dela. “Era curto, dizia: ‘É muito bonito, é muito forte, é muito sexy, todo mundo já passou por isso, vai!”. Paula Gicovate avançou e partilhou Lia com os leitores brasileiros, primeiro, e com os portugueses, depois — sempre com algum receio da reação, como explica ao Observador.

Quem é a Lia?
A Lia tem um pouco de todas nós. Digo sempre que ser amante é um detalhe, o livro é sobre amar platonicamente alguém, desejar alguém que não pode ser nosso, sobre o frisson da paixão, o porquê de precisarmos tanto desse sintoma físico de estar apaixonado. Há também uma parte em que ela questiona: “Quantos casamentos terminam por excesso de paz”? Fala das permanências e das impermanências da paixão, do amor, porque o amor é impermanente, nunca é linear. Não sentimos a toda a hora a mesma coisa pela mesma pessoa. No dia em que entendi isso, enquanto Paula, tive muita paz. Entender que o amor não é um documento que se assina, não vamos sentir o mesmo por aquela pessoa o resto da vida.
Por isso é que esta personagem se deixa levar pelo que lhe está a acontecer?
Para mim, esta é a história de um raio que cai, um trovão. A Lia é acometida por um desejo e acho que isso acontece. O que se faz com o desejo a partir do momento em que esse trovão cai, aí já acredito que pode ser uma escolha racional. Mas o raio cai, isso não controlamos, e essa era a história que queria contar. Uma das opções de título para este livro era A História de Um Acidente porque, para mim, o desejo era como um acidente de carro, vamos na rua e acontece. A Lia nasce de uma inquietação minha de olhar para o amor e pensar: “Espera, não é só isso, não é só um casamento linear, não é a única forma de amar”.
Escreveu Notas Sobre a Impermanência em Barcelona, para onde tinha ido escrever uma coisa completamente diferente. Quando terminou o livro, sentiu que tinha alguma coisa especial entre mãos?
Sou de processos muito lentos, porque comecei a escrever em 2015 e terminei no final de 2019. Fui para Barcelona a pensar escrever uma história sobre o meu pai. Estava numa residência e via aqueles artistas e escritores a fazerem coisas o dia inteiro, enquanto eu não conseguia escrever uma linha. Aquilo começou a dar-me muita ansiedade e um dia larguei tudo e fui simplesmente andar pela cidade. Fui ver e conhecer Barcelona e aí o livro começou a chegar até mim. Tinha um vizinho da frente, porque as ruas de Grácia são muito estreitas, para quem eu olhava todos os dias. Ele estava lá todos os dias a ouvir Radiohead e comecei a ver a vida dele. E uma coisa que nunca contei a ninguém é que um dia fui à varanda e gritei “I like your songs (Gosto das tuas músicas)” [como faz a protagonista do livro]. Houve algumas coisas que roubei da minha experiência em Barcelona.
O vizinho real que inspira a personagem do vizinho na história sabe que lançou o livro?
Como homenagem, dei-lhe o mesmo nome, Daniel. Mas não nos aconteceu nada do que aconteceu entre o vizinho e a Lia, ele simplesmente ajudou-me a ficcionalizar. Tivemos, de facto, conversas sobre música e ele levou-me ao monte Tibidabo. Outra personagem do livro, a Joan, é inspirada numa mulher mais velha, californiana, que passava a vida de residência em residência. Fiquei fascinada com aquela vida impermanente e quis colocá-la no livro porque acho que, de certa forma, ela é o espelho da Lia.
Como é que o livro começou a nascer na sua cabeça?
Com as cartas de Lia para o Otto. Eu pensava nesta mulher que estava noutro país a falar dessa paixão por um tipo que ficou lá [no Brasil] enquanto, na verdade, ela estava a viver outras coisas. Porque a Lia, a dado momento, também não é uma personagem confiável. Quando ela vai para Barcelona, escreve-lhe, mas tem outra vida a acontecer ali. Ela tem esse momento de sofrimento em que se sente quase claustrofóbica, sendo o terceiro elemento. Chega um momento em que ela rompe com isso, portanto acho que os papéis se invertem um pouco.
Disse há pouco que é de processos lentos. Demorou quatro anos a escrever este livro?
Terminei o livro no final de 2019, mandei à minha agente e uma editora grande pegou logo nele e leu-o num mês, o que é raro. Chamaram-me para uma reunião e eu, toda emocionada, até fui à casa de banho chorar. Eles disseram-me: “Você é a voz sobre o amor de que estávamos à procura nos últimos anos. Só queríamos que aumentasse um pouco o livro”. Questionei sobre a garantia de publicação se aumentasse o livro. A editora disse que era a palavra dela, mas depois veio a pandemia. Terminei o livro em março, mandei em abril. Veio maio, junho, julho e nada. Quando a minha agente foi à editora confirmar, explicaram que tinham cancelado todas as publicações desse ano. Passei de ser “a voz de uma geração” para não ser nada. Nesse momento, começámos tudo do zero, com o livro a rodar pelas várias editoras. Depois encontrei uma editora super gentil. O editor olhou para o livro e disse que estava pronto, não era preciso mexer.
O próprio processo do livro, como a construção da Lia, foi uma montanha russa?
Exatamente. Fui ao céu e ao inferno várias vezes com ele. E hoje a Lia trouxe-me para Portugal, onde eu queria muito publicar, portanto não é uma jornada nada linear. Há momentos em que discordo completamente dela, outros em que a entendo, mas não quero separar-me dela.
Se nunca se separa delas, como é que as personagens vivem dentro de si?
Acho que é através de pequenos recados que me vão deixando. Em alguns momentos da minha vida, principalmente depois da morte da minha mãe e nesses dois anos de luto intenso, comecei a olhar para a vida e a sentir de novo uma pulsão e uma libido, não estou a falar de libido sexual, mas libido de viver. A Lia sabe isso e está ali, era eu a dizer lá atrás: “É importante desejar coisas ou pessoas ou trabalhos”. Agora estou a escrever outras coisas e tenho medo, porque o lugar do relacionamento e do desejo é o meu lugar.
A Lia tem um ponto de viragem. Vive de certa forma acomodada com aquela relação proibida, até que de repente dá um murro na mesa e parte para Barcelona.
Sim, é um murro na mesa, é o limite dela. Mas ela não consegue logo descolar-se do Otto, continua a mandar-lhe emails.
[Já saiu o terceiro episódio de “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]

Não consegue ou também não quer?
Ela não quer porque tudo o que se concretiza pode acabar. Uma amizade, um casamento, etc. Eu sabia exatamente qual seria o final do livro [que não reproduzimos para evitar spoilers]. O platónico é o lugar onde as coisas não terminam e, ao mesmo tempo, é preciso coragem para viver uma relação, justamente porque ela pode acabar. Pode ser por causa do tal trovão que cai, por nos apaixonamos por outra pessoa, pode ser por uma coisa mais grave. A minha mãe viveu um relacionamento lindo com o meu padrasto durante 19 anos. Acabou de repente, foi muito doloroso, mas viveu. Não viver por medo é cobarde. Mas a Lia é um pouco cobarde nesse sentido. A Lia sempre disse ao Otto que não queria que ele deixasse a mulher e, quando ele vai a Barcelona (e é a única vez em que ele fala no livro), ele diz-lhe que ela nunca lhe pediu para ficar. O objetivo dela não era terminar aquele casamento. Aliás, ela diz “eu sou a Amélia da infidelidade, a rainha das amantes, não vou esquecer-me dos óculos no teu carro, não vou ligar de madrugada”, apesar de ser apaixonada por ele.

Há uma cena em que a Lia está num bar e vê um casal a discutir e basicamente a terminar a relação. Estas cenas têm muitos detalhes, vêm de cenas que presencia na vida real?
O meu marido tem medo que eu seja presa um dia destes. Observo tanto o que se passa ao meu lado que me esqueço que não é comigo. Uma vez, atravessei a rua e entrei no meio de uma família. De repente, a mulher diz-me “Dá licença?”. Só aí é que percebi que tinha atravessado a rua. Eu estava ali, é muito irresistível para mim.
A cena deste casal, presenciou-a?
Sim, estava na Feira do Livro de Guadalajara [México], em 2017, e vi um casal a terminar, ao ponto de a mulher se levantar e ir embora. Escrevi isso enquanto estava a acontecer e pensei: um dia vou usar isto. Porque, realmente, vermos alguém a separar-se é ver uma coisa morrer, é um país que acaba, uma linguagem que acaba e, para mim, aquilo foi muito forte. Não sei o que aconteceu depois, se reataram ou não, mas aquilo deu-me uma enorme tristeza. Sou muito fascinada por famílias — porque não venho de uma família estruturada com pai, mãe, tudo bonitinho — e no ano passado, quando fomos visitar a minha irmã à Califórnia [EUA], estava a ver uma família com duas adolescentes que estavam a falar da escala que tinham de fazer. Eu estava tão atenta que uma das meninas foi fazer queixa à mãe. E o Miguel [marido de Paula Gicovate] disse: “Isto aqui é a sério, estamos nos EUA, podes ir presa”. Então, tenho tido mais cuidado, mas se estiver a acontecer perto de mim, eu estou ligada.
Escreve para quem?
Sobretudo para mim, para me manter sã, porque preciso de uma maneira muito física de contar uma certa história. Mas agora tenho receio: “Será que os leitores vêm comigo, como é que vai ser”?
Também é guionista, foi por aí que começou. A escrita é diferente: tem de ter estrutura, determinadas cenas e arcos. Sente-se mais despida enquanto escritora?
Sim, é isso, mas também entendi que preciso de um pouco dessa disciplina enquanto escritora porque sou de processos lentos. Por exemplo, enquanto guionista, faço uma escala. Num documento, organizamos cena a cena, o que faz o arco narrativo. No livro que estou a escrever agora, já fiz essa cronologia do romance. Portanto, se enquanto estiver a viajar não escrever uma linha, volto, abro a escala e já tenho uma pista para onde tenho de ir.
Como foi crescer numa cidade pequena, do interior do Rio de Janeiro, onde sabia que não podia concretizar os seus sonhos?
Cresci numa cidade que teve cinema na época do Titanic. Passamos três meses a ir ao cinema ver o Titanic porque era o que havia. Nunca foi uma opção ficar por lá porque queria escrever, trabalhar em cinema e televisão. A minha irmã, que é cinco anos mais velha, tinha ido morar para o Rio de Janeiro aos 17, portanto esse também era o caminho natural para mim, mesmo sendo muito apegada à minha mãe. O que me salvou nessa cidade foi o blogue que criei — somos da geração dos blogues, não é? — chamado Umbigo de Paula, porque falava de mim. Comecei a escrever cartas de amor para pessoas que não existiam. Foi a primeira vez que percebi que talvez funcionasse esta coisa de querer ser escritora. Comecei a receber comentários de pessoas que não conhecia e isso foi muito poderoso para mim, saber que havia alguém do outro lado. Tinha 17 anos e só escrevia sobre amor, então tentei outra coisa, mas logo a seguir recebi uma mensagem que dizia: “Muito bom, estou a ver que está a tentar algo novo, mas por favor volte a escrever sobre amor”. Aquilo para mim era mágico, o facto de ter um interlocutor. Eu escreveria de qualquer forma, porque escrevo para mim em primeiro lugar, mas ter um leitor é o oposto da solidão.
Quando foi para o Rio de Janeiro, entrou no curso de Letras já com o intuito de vir a escrever argumentos?
Ou ia dar aulas ou ia escrever argumentos, essas eram as opções. Mas, para o projeto do final do curso fiz um livro de contos. Peguei naquilo e fui bater à porta de todas as livrarias independentes do Rio de Janeiro. Acabou por ser esse o primeiro livro que publiquei, em 2009, Sobre (o) Tudo que Transborda. Depois, só publiquei um romance em 2014 [Este é Um Livro Sobre Amor], entretanto escrevia o blogue e fui procurar trabalho numa produtora de cinema, tinha de me sustentar. Estive na Globo de 2013 a 2017 e, desde então, sou freelancer.
Hoje descreve-se como escritora ou argumentista?
Escritora. Mas, é engraçado, talvez seja a primeira vez que esteja a dizer isto.
Foi muito rápida a responder “escritora”.
Para mim, isso agora é muito importante, tenho de assumi-lo. Antes achava que se num hotel escrevesse na ficha “escritora”, as pessoas iam achar que não tinha como pagar a conta. Agora é algo que eu até digo nas minhas oficinas de escrita: temos de ser nós a autorizar-nos a ser escritores. Ninguém vai chegar aqui e validar-nos, “pronto, agora é escritor”. Isso vem de nós.
Ser finalista do Prémio Oceanos ajudou a dissipar o síndrome de impostora?
Por escrever sobre amor na primeira pessoa, achava que não era tão levada a sério. Com o Oceanos foi como repetir a sensação do blogue: “Afinal, há alguém do outro lado”. Houve mais alguém que achou que Notas Sobre a Impermanência não é só a história de uma mulher a sofrer por ser amante e isso deu-me muita validação. Mas, independentemente de qualquer prémio, sei que não viveria sem escrever. É o que me mantém uma adulta minimamente funcional.
Um bom escritor também tem de ser um leitor ávido?
Completamente. Participo em imensos clubes de leitura e os livros já me salvaram inúmeras vezes. Quando alguém escreve algo que já senti, pelo menos sei que não estou sozinha. Num clube do livro, uma senhora com 60 e poucos anos veio ter comigo no final e disse: “Sou filha de um casal que se separou porque o meu pai ficou com a amante. Até hoje, nunca tinha dito o nome dessa mulher e o nome dela é Maria. Hoje entendo o que ela viveu”. Isso para mim foi muito bonito, porque não é só uma questão de empatia.
Porque uma amante nunca é só uma amante?
A Lia não é só isso, ser amante é um detalhe. Não querendo glorificar as escolhas de cada um, há quase sempre uma história além disso.
O livro está em fase de adaptação para o cinema, certo?
Sim, os direitos foram comprados para o cinema, mas o processo no Brasil é muito lento. Pode acontecer em dois anos ou 20. O produtor está à procura de uma coprodução e eu até disse: “Se Barcelona virar Portugal, por mim, tudo certo”. Adoraria ter alguma coisa que conversasse com Lisboa, com Portugal.
Mas Barcelona também é uma espécie de personagem neste livro.
Sim, mas não foi uma viagem muito feliz a minha, em Barcelona. Estava muito sozinha, não tinha amigos, não conhecia ninguém, a cidade foi a minha companhia. Depois de 2015 não voltei a Barcelona.
Lisboa pode vir a ser uma personagem de um próximo livro.
Sem dúvida, sou muito apaixonada por Lisboa. Não sei o que se passa aqui, mas este céu não existe em mais lugar nenhum.
Os leitores portugueses são muito diferentes dos brasileiros?
Descobri que falamos a mesma língua, que é a língua do amor. Tinha medo, para ser sincera. O Brasil é um país conservador e não sabia se aqui as pessoas seriam mais conservadoras ainda. Tive receio, mas descobri que as pessoas veem a Lia muito além do rótulo de amante.
O que está a escrever agora?
Um livro de ficção que parte da história da minha mãe. A personagem perde a mãe, com um cancro terminal, e volta para a cidade do interior. Ela tem 36 anos, a avó tem 96 e são as duas únicas que sobram na família, no meio desse impacto.
Precisou de fazer o seu luto para conseguir escrever sobre o luto?
É um processo que não acaba, é como o amor, não é linear. Há dias em que posso conversar com alguém tranquilamente sobre quimioterapia, mas depois entro no supermercado, pego numa caixa de mirtilos e começo a chorar com saudades da minha mãe. É engraçado porque quando comecei a escrever este novo livro questionei-me se os leitores aceitariam porque não estou a falar de amor. Mas depois pensei: “Não, estou exatamente a falar de amor”.