O que é a psicogeriatria? 7 perguntas sobre o impacto do envelhecimento na saúde mental
As mortes, mudanças e doenças da terceira idade têm um grande impacto na saúde mental. A psicogeriatria pode ajudar a prevenir e tratar problemas como depressão e demência.

1 O que é a psicogeriatria?
A geriatria é o ramo da medicina que se dedica ao estudo, prevenção e tratamento das doenças associadas ao envelhecimento, sendo em Portugal uma área de competência em medicina.
Já a psicogeriatria, “dedica-se ao estudo, prevenção e tratamento dos aspetos emocionais, psicológicos e comportamentais, bem como das alterações psiquiátricas e alterações cognitivas, que estão ligadas ao envelhecimento”, explica Lia Fernandes, médica psiquiatra do Centro Hospitalar Universitário de São João e Coordenadora do Curso de Especialização em Geriatria Clínica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e com competência em Geriatria, sendo atualmente a presidente deste Colégio na Ordem dos Médicos (OM).
A especialista refere que há ainda outro termo idêntico, a gerontopsiquiatria, que é uma subespecialização da psiquiatria, que se dedica às doenças neuropsiquiátricas dos idosos, que incluem as alterações comportamentais das demências, as perturbações afetivas, psicóticas e as alterações emocionais desta faixa etária.
2 Quais são as doenças mentais mais comuns na terceira idade?
De acordo com a especialista, são as mesmas que noutras faixas etárias: a ansiedade, a depressão e as alterações do sono, entre outras. Um estudo de 2021 do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS) concluí que um em cada quatro idosos, ou seja, cerca de 22% da população portuguesa com 65 anos ou mais, tem sentimentos de solidão e sintomas depressivos.
Além disso, nesta fase da vida, podem ocorrer também algumas doenças neuropsiquiátricas, como as demências, nomeadamente doença de Alzheimer, demência vascular, doença de Parkinson, entre outras, que também afetam a cognição e o comportamento, levando frequentemente a sintomas psiquiátricos, além dos sintomas neurológicos.
3 Mas os idosos têm mais risco de desenvolver doença mental?
Não necessariamente. Depende, sobretudo, das suas condições de vida. Até porque, frisa a médica psiquiatra, apesar de haver algumas particularidades desta fase da vida que podem oferecer maior risco, também há alguns fatores protetores. “À medida que envelhecem, as pessoas vão relativizando mais as contrariedades, as perdas e outros eventos negativos, não tendo tantos fatores de pressão e de stress como tinham durante a vida profissional ativa. Muitas vezes, não sentem essas emoções de forma tão intensa, são mais resilientes, tendo aquilo a que frequentemente se chama ‘maior sabedoria’.”
4 A depressão dos idosos é diferente da dos jovens ou adultos?
Os sintomas de depressão podem variar muito entre indivíduos e até mesmo entre vários episódios de depressão na mesma pessoa. Lia Fernandes refere que há sintomas de depressão mais específicos da pessoa idosa, como sentimento de menos valia, sentir que se é um estorvo para os outros, medo da morte ou da pobreza, perda de esperança, perda do interesse e lentificação ou autonegligência.
Por outro lado, acontece ainda com frequência que os sintomas típicos sejam desvalorizados. “A sociedade ainda acha normal que as pessoas se tornem mais apáticas e tristes na velhice, o que não é verdade, e, por isso, desvalorizam estes sintomas.”
5 Como podemos prevenir estas doenças nos idosos?
Há uma série de recomendações preventivas que são igualmente válidas para os adultos, como manter atividade cognitiva, física e vida social. Mas há outros desafios após os 65 anos que a médica defende que têm de ser abordados através de políticas sociais e de saúde, que incluem “criar condições para os idosos, se manterem, sempre que possível, em casa, em vez de serem institucionalizados; investir em equipas que façam um apoio de proximidade, como as equipas de saúde comunitárias, (…) e olhar para este assunto também do ponto de vista social”.
Ou seja, dar condições de vida adequadas às pessoas, porque a medicina não consegue dar resposta a tudo – por exemplo, olhando para problemas frequentes na terceira idade como “as carências económicas decorrentes das reformas pequenas e da falta de estruturas de apoio, como centros de dia, universidades sénior, entre outras, onde as pessoas possam estar, para combater a solidão”.
6 Quais são os principais fatores de risco para desenvolver doença mental nesta faixa etária?
As causas da doença mental raramente estão relacionadas apenas com um fator e isso também é verdade acima dos 65 anos. No entanto, nesta altura, há alguns fatores de risco mais frequentes que estão identificados, explica Lia Fernandes, nomeadamente os decorrentes de transições e perdas: “situações de dor ou doença crónica, muito frequentes nesta fase, perda da independência ou autonomia, a passagem da vida ativa à reforma, o isolamento social e as perdas de amigos ou do cônjuge”.
7 O tratamento da doença mental nos idoso é diferente?
Tem algumas particularidades, sim. Desde logo, porque habitualmente as pessoas têm uma série de outros problemas de saúde além da doença mental — como hipertensão, diabetes, doenças osteo-articulares, oncológicas, bem como a fragilidade associada ao avanço da idade, que têm de ser consideradas na altura de prescrever medicação ou na mudança do estilo de vida.
Além disso, muitas vezes já tomam medicamentos para estes problemas, o que significa que outros indicados para ansiedade, depressão ou insónias, por exemplo, implica muito mais cuidado. “Os efeitos secundários dos medicamentos têm de ser bem calculados. A prescrição e as doses têm de ser adaptadas, para evitar problemas frequentes como o aumento do risco de quedas”, explica a psiquiatra Lia Fernandes.
Além disso, deve ser dada muita atenção à gestão diária de toda a medicação, definindo outra pessoa responsável quando o idoso já tem dificuldades cognitivas: “muitas vezes o idoso esquece-se de tomar a medicação e, outras vezes, duplica a medicação sem perceber”.