A doença que faz uma pessoa arrancar os próprios cabelos (e pelos). Seis respostas sobre tricotilomania
A doença ainda é mal compreendida, mas sabe-se que tem grande impacto na autoestima — e na saúde mental. O que está por detrás desta necessidade de arrancar cabelos e pelos? E como se pode tratar?

1 O que é a tricotilomania?
É uma perturbação que leva as pessoas a arrancar pelos ou cabelos, de forma recorrente e por razões não estéticas. Geralmente começa na adolescência e os cabelos ou pelos podem ser arrancados de qualquer zona do corpo, sendo que alguns dos sítios mais frequentes são o couro cabeludo ou as sobrancelhas. Habitualmente as pessoas usam as mãos ou uma pinça para esse efeito.
2 Que tipo de doença é esta?
A pergunta que tem tido várias respostas desde que, em 1987, a doença foi integrada no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM), a classificação americana de referência das perturbações psiquiátricas, que é seguida mundialmente.
“Inicialmente, foi classificada nas perturbações de controlo dos impulsos”, diz a psiquiatra Salomé Xavier. Mais tarde, outros estudos levaram “à inclusão na ‘família’ das doenças ditas do espectro obsessivo-compulsivo. No entanto, e face à contínua evolução do conhecimento, esta ligação é agora questionada porque, apesar de envolver comportamentos repetitivos, não tem na sua base obsessões.” É possível que volte a haver, no futuro, uma nova alteração no seu enquadramento.
3 A doença é muito frequente?
“Um estudo de 2020 com cerca de dez mil adultos e uma amostra representativa da população dos EUA apontou para uma prevalência de cerca de 1,7%”, diz a psiquiatra.
A maioria dos estudos mostra que é uma doença que afeta sobretudo as mulheres, “mas este mesmo estudo encontrou uma frequência de homens afetados semelhante à de mulheres, especulando que, talvez por ser mais fácil para eles ocultar as manifestações da doença, rapando a barba ou o cabelo, eles possam receber menor atenção clínica.”
Na prática clínica o número de doentes pode ser muito inferior ao reportado nos estudos, “não só pela vergonha em expor esta condição, mas também pelo não reconhecimento, por parte dos doentes e de alguns profissionais de saúde, de que se trata de um problema de saúde válido, sério e passível de tratamento.”
4 Porque é que isto acontece? E quais são as causas ou fatores de risco associados à tricotilomania?
“Parece existir um contributo genético relevante. Vários estudos familiares mostraram maior frequência de casos de tricotilomania em familiares de primeiro grau de doentes” e há alguns genes identificados que se acredita que podem estar envolvidos neste comportamento.
Por outro lado, de acordo com a médica, também estão identificadas alterações estruturais discretas em regiões ou circuitos cerebrais responsáveis pela regulação dos movimentos, controlo dos impulsos ou tomada de decisões, apesar de não ser possível estabelecer ainda conclusões sólidas sobre a importância destas observações.
“[Estes] fatores biológicos representam prováveis fatores de vulnerabilidade que, na presença de eventos adversos de vida e/ou dificuldade na regulação das emoções poderão traduzir-se no aparecimento da doença”, resume.
5 Qual é o impacto da tricotilomania na vida do doente?
Nesta doença há frequentemente um duplo estigma: o estigma da doença mental, mas também o estigma do impacto estético da falta de cabelo ou pelos, com grande impacto na autoestima. De resto, muitos doentes procuram tratamento dermatológico que disfarce este impacto estético antes ou em substituição do tratamento psiquiátrico e psicológico necessário.
Mas podem também ocorrer complicações físicas — com possibilidade de infeções ou cicatrizes —, bem como um risco superior de vir a sofrer de outras perturbações psiquiátricas, como quadros depressivos, ansiosos e de abuso de substâncias.
6 É possível tratar esta doença?
O tratamento é possível e é necessário. De acordo com a psiquiatra, a melhoria espontânea nos adultos é pouco frequente: estima-se que apenas em 14% dos casos “a coisa passe por si”. Por outro lado, “o diagnóstico precoce e o tratamento adequado podem permitir uma melhoria significativa de pelo menos metade dos doentes”.
Quanto à forma mais eficaz de tratar a doença, “nenhum medicamento tem uma aprovação universal como tratamento de inquestionável eficácia”, embora sejam conhecidos resultados positivos com alguns psicofármacos. Por outro lado, há um tipo específico de antidepressivos (os SSRI) que é usado na prática clínica, como forma de tratar os quadros depressivos e ansiosos, muitas vezes associados a esta doença.
A literatura científica demonstra claramente uma maior eficácia da psicoterapia no controlo desta doença, “nomeadamente, as intervenções de inspiração cognitivo-comportamental, (…) que visam identificar os estímulos para o comportamento e desenvolver respostas alternativas, (…) mas também terapias mais recentes, como a terapia dialética comportamental ou a terapia de aceitação e compromisso, que tentam ajudar a pessoa a compreender e regular as emoções negativas que perpetuam a doença.”