Passou pelas mãos de Sara, Inês e está agora nas de Mónica, que, quando terminar, o passará a Madalena. O livro está em rotação no grupo de colegas do escritório. Também não é difícil vislumbrar a capa azul com letras brancas nos transportes públicos, na rua, nas redes sociais. Na redação do Observador, os olhares curiosos multiplicam-se sobre o exemplar pousado sobre a mesa. Leitores mais ou menos devotos, já quase todos ouviram falar d’A Cicatriz.
Não é para menos. A obra da escritora Maria Francisca Gama tem estado no top de vendas de várias livrarias, ao lado da americana Freida McFadden ou do português José Rodrigues dos Santos. Na cadeia de livrarias Bertrand chegou a figurar na lista de “Livros de que todos falam” — e não apenas os clientes. Para a Almedina, “este livro é uma sugestão dos nossos livreiros”. Numa Fnac no centro de Lisboa, uma vendedora destacava como “Maria Francisca Gama prende-nos desde o primeiro momento numa ficção que podia ser real”.
Podia, mas não é. A história de um jovem casal que vai de férias para o Rio de Janeiro é um produto de ficção que rapidamente se tornou um bestseller português. O livro vai na 9.ª edição, com mais de 30 mil exemplares vendidos, segundo dados fornecidos pela Penguin Random House, grupo editorial que detém a Suma de Letras, chancela que publicou a obra. A GFK, entidade responsável por auditar as vendas de livros em Portugal, remeteu a divulgação dos dados de vendas de 2025 para breve, mas, em 2024, A Cicatriz ficou entre os 10 títulos mais vendidos de autores portugueses. E foi há poucas semanas que a Rede de Bibliotecas de Lisboa revelou que, em 2025, foi este o livro em formato digital mais requisitado nos equipamentos municipais.
Maria Francisca Gama, 28 anos, é a responsável. É graças a ela que, nas redes sociais, se multiplicam testemunhos de leitores que não desistiram até descobrir o que acontece ao casal apaixonado na Cidade Maravilhosa.
Da autopublicação ao fenómeno: como nasce uma escritora-sensação
Maria Francisca Gama nasceu a 6 de outubro de 1997, em Leiria, filha de pais professores, numa casa em que os livros abundavam. Ali cresceu e viveu, até aos 17 anos ter ingressado na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Várias entrevistas dão conta de como trabalhou num escritório de advogados, “no entanto, a prática da advocacia acabou por revelar-se incompatível com a dedicação que a escrita exigia e, por isso, Maria Francisca optou por seguir exclusivamente a literatura” (jornal Sol, 2024). Mais tarde, “estudou Rádio, Televisão e Escrita para os meios audiovisuais”, trabalhou numa agência de comunicação e estagiou numa rádio nacional, segundo a biografia disponibilizada no site da editora.
Mas a escrita, hoje apresentada como a sua grande paixão, começou muito antes. “Apesar de, como a maioria das crianças, ter passado por variações na minha vontade, a coisa que quis ser durante mais tempo e há mais tempo é escritora”, garante ao Observador. “Tenho memória de estar na primária e de a minha professora primária perguntar o que é que queríamos ser. Sempre respondi: escritora.”
Desde miúda, conta, deixava cartinhas aos pais debaixo da porta, lia incansavelmente. No início da adolescência, criou o blog “Coisas do Coração”, onde partilhava desabafos e reflexões. Aos 15 anos, publicou o seu primeiro livro, Em Troca de Nada, “sobre uma jovem na idade escolar que é vítima de bullying”. Aos 17, o segundo, Madalena, uma homenagem ao pai. “Não naturalmente por ele se chamar Madalena, mas porque era o nome que os meus pais dariam se tivessem uma terceira filha. O meu pai infelizmente faleceu há 10 anos, foi na altura em que escrevi o livro, passado uns meses”, diz. Sentada nos escritórios da Penguin, no centro de Lisboa, Maria Francisca articula cada resposta com a cadência de uma oradora treinada, como se o discurso tivesse sido ensaiado — e, de certa forma, foi. “Ambas as histórias permitiram-me, na altura e até hoje, dar muitas palestras em escolas de norte a sul de Portugal, e foram muito importantes para desenvolver o meu gosto por falar publicamente.”
Explica como foram os pais que, na altura, trataram da publicação do primeiro livro. “Era muito nova, sei que enviámos o livro para várias editoras e que a maioria não respondeu, naturalmente. Tinha 15 anos, creio que isso devia estar indicado no corpo do e-mail e, automaticamente, afastou os grandes grupos editoriais.”
Os dois livros acabaram publicados pela Chiado Editora, editora fundada por Gonçalo Martins cujo modelo de negócio passa por serem os autores a pagar para publicar os próprios livros. O exemplo mais bem-sucedido é Pedro Chagas Freitas, o autor de Guimarães que se tornou um dos maiores fenómenos de vendas nacionais. Também no caso da jovem de Leiria, a autopublicação acabaria por colher frutos. Os indícios de sucesso comercial já lá estavam. O livro de estreia, Em Troca de Nada, editado em 2013, e então assinado por Maria Francisca Almeida Gama [só ao terceiro livro a escritora deixou para trás um dos apelidos], “esgotou em seis meses”, segundo a editora, levando a uma segunda edição.
Adolescente, Maria Francisca destacava-se no meio escolar e procurava palcos onde pudesse testar a palavra. Por sorte ou acaso, em vários concursos de língua portuguesa cruzou-se com o escritor João Tordo, o que podia ser casual, mas se revelou determinante. “Conheci o João Tordo quando tinha 13 ou 14 anos: já na altura queria ser escritora, e olhava para ele com admiração”, recordou a escritora há meses numa publicação na rede social Linkedin.
Em 2022, deu o primeiro grande passo rumo ao circuito principal, ao assinar contrato com um dos maiores grupos editoriais do país para a publicação do livro seguinte. A notícia mereceu destaque na imprensa regional. “Uma escritora de Leiria na Penguin concretiza a profecia de João Tordo”, titulava o Jornal de Leiria. A Profeta, o terceiro livro da rebatizada Maria Francisca Gama, seria publicado pela Suma de Letras, chancela da Penguin Random House. O autor de As Três Vidas (Prémio José Saramago 2009) fora, contudo, mais do que um profeta, já que foi o próprio que enviou o manuscrito para a editora, que até já tinha recebido a obra, mas não tinha demonstrado interesse. É a escritora quem relata o episódio, em entrevista à CNN, em 2024. “Foi um golpe de sorte e de generosidade de um escritor português, o João Tordo, que leu o livro que lhe enviei, gostou e enviou para a Penguin — o mesmo livro que eu tinha enviado meses antes e que ninguém tinha aberto e gostaram e quiseram publicar-me”. Já Tordo diz que teve “a certeza de que ela ia ser uma voz forte no nosso panorama literário”, lembrou numa publicação nas redes sociais, em 2024.

A dificuldade de existir num mercado saturado
A Profeta chegou às livrarias em junho de 2022. O livro, sobre uma mulher que ajuda os outros a fazer justiça pelas próprias mãos, é o ponto de partida para uma reflexão sobre fé, religião, o certo e o errado. Na capa, as palavras de João Tordo exaltam “uma escritora promissora e um livro intrigante”. Ainda assim, a obra passou praticamente despercebida.
“Ser escritora não tem a ver com vender muitos ou poucos livros, tenho a certeza absoluta, mas realmente querendo fazer disto profissão é imprescindível que as pessoas saibam que escrevo livros”, reflete Maria Francisca Gama, ao Observador. “Aquilo que percebi quando A Profeta saiu foi que não era que as pessoas não gostassem do livro, as pessoas não sabiam que o livro existia”, continua. Com dezenas de novos títulos a chegar às lojas todos os dias, a rotação dificulta a visibilidade de uma autora em início de percurso. “A coisa que mais me entristecia era ir a algum sítio, jantar com os meus amigos e as pessoas perguntarem: então e tu, o que é que fazes? Eu dizia que era escritora e as pessoas respondiam-me: a sério, nunca ouvi falar.”
No lançamento seguinte estava determinada a não deixar o livro nas sombras. E para isso a comunicação — e um definido plano de marketing — seria chave. “Aproveitei a minha juventude e a minha facilidade com redes sociais”, começa por dizer. No espaço de meses, duplicou os seguidores nas redes sociais. “Esse trabalho foi feito partilhando, única e exclusivamente, coisas relacionadas com a minha profissão”, sublinha. “Os livros que ia lendo, uma rubrica que criei de vizinhança literária.” Hoje o seu feed revela algumas fotografias pessoais, do casamento, do marido e da filha, mas a maioria das publicações para os seus 17 mil seguidores continua centrada nos livros.
O timing foi decisivo: o Bookstagram e o BookTok (contas dedicadas à literatura, respetivamente, no Instagram e no TikTok) explodiam em popularidade. O terreno fora preparado para A Cicatriz chegar. “Comecei a partilhar que o meu livro ia sair, em que sítios é que eu ia estar a apresentá-lo, a mostrar que o meu livro era adequado para homens e mulheres a partir dos 18, 19 anos. Acho que à boleia do BookTok e do BookTuber acabou por chegar a muitas pessoas.”
Em Portugal, é entre os jovens dos 15 aos 24 anos que o aumento da leitura é mais evidente, segundo um estudo promovido pela APEL — a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, divulgado em setembro, que aponta que, entre as razões para o crescimento do mercado do livro em Portugal, as redes sociais, que conseguiram trazer para a leitura gerações mais novas.

Maria Francisca admite ao Observador que tinha algum desconforto com o assunto. Temia que a exposição constante nas redes sociais a afastasse da legitimidade literária e do reconhecimento dos pares. “Neste momento, estou pacificada com isso, no início tinha vergonha de fazer os vídeos. Não só por me estar a ver no meu telemóvel a falar sozinha, que não era uma coisa com a qual estava habituada, mas também por aquilo que podia ser a perceção dos outros… Este receio de que o facto de me expor nas redes sociais falando, repito, de livros, que é isso que eu abordo nas minhas redes, pudesse tirar credibilidade ao meu trabalho…”
Com o tempo, a hesitação deu lugar a uma leitura mais pragmática da exposição pública. “Percebi que vai haver sempre quem acha que isso tira credibilidade. Por outro lado, há muitas pessoas que acham que é assim que se deve fazer hoje em dia. Nessa dicotomia entre o que se deve ou não deve [fazer], vou fazendo aquilo que acho que devo…” Do ponto de vista puramente comercial, a decisão revelou-se vantajosa. No Goodreads, a maior rede social dedicada aos livros, A Cicatriz acumula quase 15 mil avaliações e 2.300 reviews, um valor impressionante para um título em português. No TikTok, perde-se a conta aos vídeos de leitoras a falar sobre o livro — ou a chorar com o livro. O fenómeno não é novo, sucedeu com títulos como Uma Pequena Vida, de Hanya Yanagihara (Editorial Presença, 2022). Em 2021, o New York Times escrevia: “Como chorar no TikTok vende livros”. Maria Francisca diz que ficou surpreendida. “Não fui eu que criei essa trend”, frisa. “Não escrevo a pensar naquilo que os outros vão sentir, escrevo aquilo que acho que devo escrever.”
Ler as críticas? “Não é profícuo para quem tem a certeza que vai escrever muito mais livros”
N’A Cicatriz, escreve sobre um casal que passa “dias encantadores, banhados pelo sol e pelo espírito leve e sempre em festa carioca”, até que, numa noite após o jantar, decidem ir a pé para o hotel. “Não se recordam se o caminho mais perto é pela esquerda ou pela direita. Como é que a vida pode mudar tanto, apenas assim, por uma escolha irrisória?”, antecipa a sinopse. A escolha conduz a um episódio de violência sexual sobre a protagonista.

“Não me esforcei para embelezar aquilo que me parece horrível e feio”, explicou Maria Francisca Gama, aquando do lançamento. “Sei que isso choca, porque li muitos livros e a grande maioria não tinha uma descrição tão visual e direta da violência sexual. Percebo que isso pode perturbar pessoas mais sensíveis.” Em entrevistas na altura, fez referência à pesquisa de testemunhos de agressores sexuais. “Não é fruto exclusivo da minha imaginação”, disse à SIC Notícias.
Na carta aos leitores, após o último capítulo e antes dos “Agradecimentos”, a escritora diz que chegou a ter de se “afastar” do livro, para poder “seguir” com a “vida afetiva e sexual”. “Dei por mim a achar que tinha mesmo sido violada. O que não aconteceu”, escreve.
“Não quero ser uma hater”, diz Sílvia, 34 anos, que devorou o livro nas férias no último verão. “Já refleti sobre isto, mas este final de dizer que foi tudo inventado, mas que eu senti como aconteceu. É um tema pesado, mas que merece respeito. Sou super apologista de trazer estes temas, não é sobre o tema em si, mas é como se faz as coisas.”
Em conversa com o Observador, é notório que Maria Francisca fica aborrecida por falar sobre as críticas que lhe são feitas. “Escrevi A Cicatriz com o maior respeito e empatia para com todas as vítimas”, diz. Acrescenta que o Rio de Janeiro é “amplamente elogiado ao longo do livro” e que é uma das suas cidades favoritas, por oposição à crítica sobre a perpetuação de estereótipos sobre o perigo e violência na cidade. “O ter posto no Brasil uma situação de violência sexual… Podia ter posto noutro sítio qualquer, porque infelizmente, e esse é o ponto, a violência sexual acontece um pouco por todo o mundo. E acontece também no Brasil. Não consigo conceber o porquê disto poder ser ofensivo, porque realmente os dados comprovam que existe violência sexual no Brasil, tal como existe em qualquer outro lado do mundo. Esta questão de ser portuguesa e por isso haver quem ache que não possa escrever sobre uma coisa que se passa em todo o mundo… Não percebo. Estamos no campo da ficção e acima de tudo estamos no campo da liberdade. Nada do que escrevi foi ofensivo. E se por acaso fosse, continuávamos no campo da liberdade. Mas não é.”
Joana, 42 anos, admite que gostou “muito” do livro e concorda com a autora. “Ofereci o livro a uma amiga que também adorou. Já estive no Rio. Foi onde passámos a lua de mel há 13 anos. Sei que é muito perigoso e compreendo que algumas pessoas percam a vontade de visitar. Nesse aspeto, tenho pena que o livro contribua para o medo, mas não mente em nada.”
“Bom ou mau, o importante é que falem” tornou-se um lema popular na área do marketing, mas, para um escritor, lidar com opiniões desfavoráveis nem sempre é simples. “É muito fácil elogiar e criticar. Talvez criticar seja um pouco mais. Descobriremos um dia porquê. Parece-me por vezes que tem a ver com a popularidade das coisas. Às vezes até é um problema muita gente gostar. Para muitos, se muita gente gosta, então já não gosto nada e de certeza que é uma porcaria”.
Com o tempo, Maria Francisca optou por fazer jus à expressão “longe da vista, longe do coração”. “Não leio mesmo [críticas], estou a ser honesta. Naturalmente, se lesse ia ficar triste, magoada, insegura e isso não é profícuo para quem tem a certeza que vai escrever muito mais livros.”
Na imprensa, A Cicatriz teve apenas duas recensões: uma de Miguel Real (pseudónimo literário de Luís Martins), no Jornal de Letras, e outra de Isabel Lobo, no semanário Novo. No espaço digital, porém, o livro foi alvo de outras leituras e análises, disseminadas em múltiplos formatos, ampliando o debate muito para lá da crítica literária tradicional. “Vi algumas coisas que não gostei especialmente, mas acima de tudo foi por conselho de pessoas que têm profissões com muita visibilidade e que me explicaram que a única hipótese de não nos sentirmos afetados com aquilo que dizem sobre o nosso trabalho é não vê-lo”, justifica.
Algumas críticas, no entanto, tiveram consequências concretas. “Tão cedo não me meto a escrever sobre política”, admite ao Observador. “Foi um aborrecimento.”
Refere-se às leituras que fizeram dos vários apontamentos políticos que constam n’A Cicatriz. A protagonista, que é descrita como sendo “uma das primeiras militantes da Iniciativa Liberal”, diz a dada altura, en passant: “Enquanto o Partido Socialista continuasse a governar com maioria absoluta, duvidava ser possível para os jovens como nós. Vítimas da Troika; das trapalhadas do BES (…) da pandemia covid-19 e da inflação galopante, resultante da invasão da Rússia à (…) e também aos grandes grupos económicos que, nessa onda, e muito ‘à portuguesa’, se tinham aproveitado.”
Houve também quem fizesse uma interpretação menos literal de um momento definidor da narrativa: perante a possibilidade de escolher entre o caminho da direita e o da esquerda para regressar ao hotel, a autora desenha dois momentos. Num deles, fictício, o casal de personagens vai pela direita e tudo corre bem. No outro, o real, o casal vai pela esquerda e dá-se a tragédia prometida desde as primeiras páginas.
Há quem leia a passagem como uma metáfora de que virar à esquerda, num sentido amplo, precipita a tragédia. Ao Observador, a autora rejeita qualquer simbologia ou politização da decisão que leva à violação da personagem principal. “Quanto à parte do virar à esquerda ou à direita, devo dizer que foi provavelmente a coisa que mais me surpreendeu depois de o livro ter saído, porque fui eu que o escrevi e não o escrevi com esse intuito. Surpreendeu-me e até me fez pensar que é curioso, realmente, porque para mim o livro não é sobre isso, ainda que para alguns o livro parece ter sido exclusivamente sobre isso. Também é a beleza da arte, as várias interpretações que pode ter.”
Se para alguns a política vem a despropósito na história, Maria Francisca Gama elucida: “Os apontamentos políticos no livro têm a ver com o facto de me parecer que uma jovem adulta que está a escrever sobre a sua vida — e aqui a jovem adulta não sou eu, é a personagem principal — e está a partilhar aquilo porque passou, fala de coisas felizes e de coisas tristes e parece-me que isso engloba também as coisas em que acredita ou deixa de acreditar”. Sobre as crenças políticas, diz: “Quando escrevi a primeira versão, os partidos e as coisas eram outras e depois alterei para também se distanciar daquilo que sou e daquilo em que eu acredito, porque não quero que os leitores me conheçam como a minha família me conhece”. A escritora remata o assunto: “Não me identifico politicamente com a personagem d’A Cicatriz, por inteiro, identifico-me em algumas coisas e noutras não”. Afinal, como escreve numa das últimas páginas do livro, “o escritor não deve a verdade a quem o lê”.
“A palavra, ‘comercial’ significa ser apreciada por muitos, não é?”
É esse, de resto, o motor da escritora para cada nova obra. Filha da Louca, o mais recente livro, publicado em 2025 pela mesma chancela, Suma de Letras, versa sobre outro território para si até então desconhecido. “Gosto de escrever sobre quem é diferente”, reconhece a autora.
Foi através de uma reportagem do Observador sobre perturbação borderline que Maria Francisca partiu para o romance seguinte, revela. A autora decidiu retratar uma pessoa com esta doença mental, mas através dos olhos de uma filha em crescimento. “Esta é a história de uma família: de um pai e marido que não sabia ser melhor, de uma filha que se esforçava por cumprir todos os papéis e de uma mãe e mulher que, aos olhos de todos, era louca”, lê-se na sinopse.
Os elogios à obra chegaram, mas também as críticas, as últimas sobre a forma como a personagem que sofre com esta doença mental, muito estigmatizada, é retratada. “Como alguém que sofre com a doença relatada no livro, achei por bem deixar uma opinião. Pareceu-me muito pouco sensível a abordagem do borderline… O objetivo do livro era supostamente desrotular e contrariar o preconceito da doença mental, no entanto passamos o tempo todo a ver a personagem doente como uma maluca”, lê-se numa review recente no Goodreads. Questionada sobre eventuais abordagens por parte de quem sofre de perturbação borderline, a autora responde: “Não exatamente, mas famílias de pessoas que têm borderline sim”. Ainda assim, esclarece, o livro “não é para ser lido em grupos de apoio”.

Críticas boas ou más, o certo é que o livro vai já na segunda edição, com 10 mil exemplares vendidos, segundo a editora. “Nos meus sonhos mais ambiciosos, chegar a um público tão abrangente não constava”, admite a escritora. “Até porque não tinha motivos para achar que seria possível chegar a uma 8.ª edição. A Profeta, que é o meu terceiro livro, o primeiro publicado aqui na Penguin, saiu em 2022, e só chegou à 2.ª edição mais tarde, alavancado pel’A Cicatriz“.
“Quando dizia que queria ser escritora, não sabia o que é que isso implicava e muitas das coisas que implica estou hoje a descobrir. Algumas agradam-me, outras nem por isso…”, solta. “É normal que um crítico mais velho, que só lê russos, não goste dos meus livros, se calhar a sobrinha gosta”, diz com humor, apontando para a importância da renovação geracional não só de escritores, mas de críticos também.
Consciente do significado simbólico da sua visibilidade enquanto mulher jovem, Maria Francisca Gama rejeita, ainda assim, o estatuto de porta-voz geracional. Mas não há dúvidas que tem contribuído para chamar uma nova camada de leitores. “Faço parte de uma geração que não repudia tanto quanto outras o comercial”, afirma. “Se desdobrarmos a palavra, ‘comercial’ significa ser apreciada por muitos, não é?”.
Apesar da voracidade do digital que a fez nascer — ou antes, renascer como escritora —, a jovem de Leiria escolhe, paradoxalmente, não escrever ao mesmo ritmo. Está a trabalhar em novos livros, mas sem pressa, resistindo à lógica de produção acelerada de alguns autores que publicam a um ritmo anual.
O reconhecimento do público é-lhe caro, visível nos e-mails e mensagens que recebe. Ainda assim, “o melhor”, assegura, continua a ser escrever. “Estar sozinha em frente ao computador a escrever e ter a oportunidade de ler e reler, apagar e procurar as palavras perfeitas. E fazer aquele exercício de chegar a uma altura em que percebo que, por mais que continue, aquilo é o melhor que consigo fazer. Nos dias de hoje, em que tudo é tão competitivo, aceitar que aquilo é o melhor, pelo menos para mim, e estar em paz com isso, acho muito bonito.”