Genial, controverso, obsessivo, profundamente angustiado. “Não sou uma pessoa muito alegre. Sou introvertido. Fechado. Cheio de dúvidas. Não me é fácil viver comigo. Parece que estou sempre em guerra civil”, afirmou António Lobo Antunes, que morreu esta quinta-feira aos 83 anos.
Romancista, cronista, ensaísta, também psiquiatra, cultor de um estilo pós-moderno que deixou lastro, às pinceladas e em repentes, foi autor de “um trabalho de desmedida ambição que levará tempo a ser entendido” – assim descreveu a própria obra.
Dono de um “enorme orgulho” de ser português, em público era quase sempre um homem fechado, com pudor em mostrar-se inteiro. Defendia a amizade “honesta e cruel”, que dizia ser, a par do amor, a única coisa que conta na vida. Construiu-se, em inúmeras entrevistas e intervenções, como uma pessoa frágil de ternura, indefesa, abalada pelas tragédias da vida dos outros, carregada de fantasmas. Sincero, tímida, por vezes vaidoso.
“As entrevistas são situações muito artificiais. É difícil que a pessoa seja realmente aquilo que é. Eu a fazer o papel de escritor que está a falar de coisas. Não é essa a imagem que eu tenho de mim para mim mesmo”, disse.

Com uma obra vasta, criou êxitos como Auto dos Danados (1985) ou Exortação aos Crocodilos (1999), viu-se transformado em moda que redundou em culto, e foi reconhecido por “processos de escrita inovadores”, como disse o júri que lhe atribuiu em 1985 o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores.
Profusamente traduzido, dizia-se que era candidato a um Nobel da Literatura que nunca lhe chegou. Lobo Antunes não tinha ilusões quanto a isso — costumava dizer que sabia que nunca ganharia, não que isso lhe interessasse: “O que me interessa nos prémios é o dinheiro”, não o prestígio, pois “o prestígio são os escritores que o dão aos prémios”.
O mau aluno que seguiu Medicina por causa do pai
António Lobo Antunes nasceu a 1 de setembro de 1942, filho de Maria Margarida Almeida Lima e João Alfredo Lobo Antunes. Mais do que lisboeta, era de Benfica, o arrabalde de passado rural a que tantas vezes se referiu. “Cresci num bairro pobre. As mães chamavam os filhos aos gritos, ouviam-se na rua. Ou maridos que voltavam bêbados e havia cenas descomunais”, recordou, em entrevista a Anabela Mota Ribeiro em 2006.
Oriundo de uma família da alta burguesia com uma “vida muito austera”, estudou no Liceu Camões, em Lisboa, na década de 50, seguiu estudos na Faculdade de Medicina de Lisboa, influenciado pelo pai, e tornou-se psiquiatra. Dizia que a Psiquiatria tinha muitas parecenças com a literatura. Mau aluno, exceção entre os seis irmãos, tinha um “comportamento transgressivo” e vivia num mundo interior muito próprio. “Éramos muitos irmãos, mas eu brincava sozinho”, contou, admitindo que gostava muito da família e que teve “muita sorte”.
“Tentaram tirar-me o menos possível. O problema da educação não é tanto o que dá, é o que tira”, admitiu. “Na minha família não se falava das coisas íntimas. Havia um grande pudor. Então acerca do sofrimento, era uma coisa em que não se falava. Talvez fosse uma forma de elegância. Mas eu sentia alguma falta disso. Apetecia-me pôr a cabeça num colo, mas nunca havia muitos colos disponíveis, nunca há.”
Lobo Antunes dizia ter herdado muitas coisas do pai, médico neurologista, homem “muito normativo” e discípulo de Egas Moniz. “Havia três coisas que o horrorizavam [o pai]: a mentira, a cobardia e a falta de rigor”, revelou à RTP, antes de relatar um episódio com o pai — uma lição “atroz” que ainda durava em si. “Tinha quatro ou cinco anos, e estava a mentir, aquelas mentiras de criança. Ele percebia perfeitamente que eu estava a mentir e disse-me: ‘Dá-me a tua palavra de honra’. E eu disse: ‘Dou a palavra de honra’. Ele levantou-se e disse: ‘Como deste a tua palavra de honra, acredito em ti’. E foi-se embora.”
“O meu pai organizava combates de boxe entre nós [irmãos] na casa de banho, com a porta fechada à chave para a minha mãe não entrar… Éramos miúdos”, disse ao Expresso, em 2017. “Por um lado, dava-nos desporto, por outro incutia-nos respeito e admiração por um livro, um autor, um poeta, e ao mesmo tempo o horror à homossexualidade.”




Em 1970, o Exército recrutou-o para combater na Guerra Colonial em Angola e o medo e o horror da experiência marcaram-no profundamente e também à sua obra literária, de raiz autobiográfica. Na mesma entrevista a Anabela Mota Ribeiro, disse que sonhava com a guerra. Os sonhos voltaram depois de um almoço com antigos camaradas, o que era “muito desagradável”. “Tenho tanta coisa dentro de mim…”
As cartas de amor que trocou com a mulher, Maria José Xavier da Fonseca e Costa, foram publicadas pelas filhas em 2005 e deram origem ao filme “Cartas da Guerra”, de Ivo M. Ferreira e Edgar Medina, em 2016. Lobo Antunes nunca quis ver o filme para não se emocionar. Comentou apenas: “Eu era bonito que me fartava, bolas! As mulheres da idade da minha mãe metiam conversa comigo na rua. Era um assédio! Agora sou um monstro.”
[O trailer de “Cartas de Guerra” (2016):]
https://www.youtube.com/watch?v=4Ignbi811V0
Dois anos após ter embarcado para Angola, em 1971, Lobo Antunes regressou a Portugal. Estreou-se no mundo da literatura no final dessa mesma década, com os romances Memória de Elefante e Os Cus de Judas, este último um grande sucesso em Portugal e no estrangeiro. Um ano depois, em 1980, lançou Conhecimento do Inferno, conclusão da trilogia marcadamente biográfica e ligada ao contexto da Guerra Colonial que descrevia uma descida aos infernos.
Foi no início da década de 1980 que casou com a segunda mulher, Maria João Espírito Santo Bustorff Silva, com quem teve uma filha. É pai de outras duas filhas, fruto do seu primeiro casamento. Lobo Antunes casou uma terceira vez, com Cristina Ferreira de Almeida, em 2010.
A vontade de escrever e o medo “permanente” de que se acabe
Em 1985, passou a dedicar-se apenas à escrita, deixando o Hospital Miguel Bombarda, onde exercia Psiquiatria. “Sempre quis escrever”, confessou. “Era muito evidente desde os cinco, seis, sete anos. Comecei a escrever com essa idade, tudo o resto não me interessava”. No discurso de agradecimento do Prémio Vida e Obra da Sociedade Portuguesa de Autores, que lhe foi entregue em março de 2017, contou, com humor, como os seus pais se preocupavam com o seu futuro e como tudo acabou por correr bem:
“O meu pai dizia-me: ‘Com o que é que pensas que vais ganhar dinheiro?’. Ele estava a ver o meu futuro a vender pensos rápidos nas pastelarias e a abrir Bordas d’Água. Acabei por ter uma carreira hospitalar, gostei de ser médico. É engraçado, porque um chefe de serviço tem uma reforma de dois mil e tal euros, o que dá vontade de rir. Quer dizer, afinal é possível viver dos livros, pelo menos no meu caso, porque sou bem pago. Às vezes, teria vontade de dizer à minha mãe, se ela ainda cá estivesse: ‘Está a ver? Se eu tivesse sido só médico andava agora a vender pensos rápidos'”.
Não gostava de “ir a bares”, de “estar com muita gente”. Se deixasse de escrever, o que é que podia fazer para ocupar o seu tempo? Podia ler. “Às vezes nos intervalos dos livros, são três, quatro meses; a gente lê oito horas por dia, mas ao fim de uma semana já está um bocado farta desse ritmo. Mesmo que só se leia o que se goste”, admitiu, atirando uma farpa à literatura em Portugal: “Porque é que a literatura portuguesa é tão má?”.
“Não vou a bares. Nunca apanhei uma bebedeira na vida, nunca tomei drogas”, afirmou ao Expresso. Homem simples, e que apreciava essa mesma simplicidade, gostava de comer em tascas, de andar “com o dinheiro nos bolsos, como os ciganos”, de trabalhar 12 horas por dia numa garagem por cima de um bar de alterne sem telemóvel nem computador, revelou em 2008 numa conferência.
Foi também em 1985 que publicou Auto dos Danados, sobre uma família portuguesa e 1976. O romance foi galardoado com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Cinco anos depois, lançou Tratado das Paixões da Alma, onde refletiu sobre as relações humanas, e, em 1994, A Morte de Carlos Gardel, uma visão pessimista da vida. Em 1999, Exortação dos Crocodilos, que saiu nesse ano, foi proposto para o Prémio Nobel da Literatura.




Em 2021, Lobo Antunes doou o seu espólio literário à cidade de Lisboa. Este será acomodado numa nova biblioteca no bairro onde cresceu, Benfica, e que ostentará o seu nome. O presidente da Junta de Freguesia de Benfica, Ricardo Marques, disse à agência Lusa que o espólio do escritor é constituído “por mais de 20 mil volumes, alguns textos originais de obras do autor e os seus diversos prémios literários e diplomas de condecorações”. A biblioteca tem data prevista para abrir em 2026, depois de sucessivos adiamentos.
Um ano antes da doação, em outubro de 2020, Lobo Antunes publicou Diccionario da Linguagem das Flores, protagonizado pelo comunista Júlio Fogaça, que esteve preso no Tarrafal. Em 2022, também em outubro, saiu O Tamanho do Mundo. Com mais de 40 anos de carreira, o autor deixou uma extensa bibliografia, composta por cerca de 40 romances e livros de crónicas.
Lobo Antunes descreveu toda a sua obra como um “Livro Total”, publicado em tomos ao longo das décadas. Nos últimos anos, esse “Livro Total”, tornou evidente no escritor “a tentativa de chegar o mais perto possível da linguagem enquanto modo de expressar um interior que lhe escapa sempre”, classificou a jornalista Isabel Lucas, no Público, em 2016.
“As condecorações são talvez a mais perigosa doença da vida”
Lobo Antunes somou muitos prémios literários, distinções e comendas ao longo da vida, reconhecimentos públicos da sua obra e importância para as letras. Foi Prémio Jerusalém, Prémio Literário Juan Rulfo, Prémio José Donoso, Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores e Prémio Internacional União Latina, entre outros.
Foi condecorado em Portugal com o Grande-Colar da Ordem Militar Santiago da Espada e com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade e em França foi feito Comendador da Ordem das Artes e das Letras. Em 2008, comentou: “Os prémios, as homenagens, as condecorações são talvez a mais perigosa doença da vida, e a mais mortal, porque corremos o risco de ficar satisfeitos com o nosso trabalho”.
O importante crítico e ensaísta George Steiner considerou-o “o maior escritor português da atualidade, um gigante” que “devia ter ganhado o Nobel há já algum tempo”, o que não aconteceu “por causa de Saramago”. Lobo Antunes nunca teve boas coisas para dizer sobre o Nobel português, admitindo, no entanto, que nunca teve nada “contra ele”:
“Ele tinha-me um pó. Uma inveja. Nunca percebi porquê.. O Saramago achava-se mesmo um grande escritor. Eu sempre achei aquilo uma merda, ainda não o conhecia. Sempre teve mulheres de direita enquanto se afirmava comunista. Nunca correu riscos. Nunca foi preso. Nunca tive uma conversa com ele sobre livros. Nunca tive uma conversa com ele mas também não me interessava muito”, afirmou em entrevista ao Expresso, em 2017.
Não foram também positivas as suas declarações sobre o Prémio Nobel da Literatura, que considerava ser apenas mais um prémio literário. Em 2018, admitiu ao Diário de Notícias que estava farto de ouvir falar do Nobel, em que as últimas pessoas que tinham ganho não lhe agradavam. “Se formos ver, os vencedores dos últimos anos não interessam. Estou a ser totalmente sincero, pois acho que se dá excessiva importância a isto”, confessou. “Quem é que se lembra dos prémios Jerusalém, que tem vencedores muito bons ao contrário do Nobel e de outros.”
Em 2007, recebeu o Prémio Camões, o mais importante galardão literário da língua portuguesa. O júri enalteceu na altura “a mestria em lidar com a língua portuguesa, aliada à mestria em descortinar os recessos mais inconfessáveis dos homens”. O próprio tinha dito, anos antes, à RTP:
“Não quero nem que me compreendam nem que me discutam. Quero que apanhem os livros como quem apanha uma febre. Até porque eu saio dos livros como quem sai de uma doença. Acabar um livro é como convalescer de uma doença, é complicado. Não quero que leiam os meus livros como quem lê uma intriga, uma história, não tem nada que ver com isso. As personagens funcionam como símbolos de sentimentos íntimos. Um livro não conta, não explica, um livro é. Quando era adolescente, nos cineclubes, as pessoas diziam ‘vamos discutir o filme’. Sempre me fez a maior confusão. Nunca percebi que se pudesse discutir um filme, discutir um livro, porque aquilo que recebo, enquanto espectador, leitor, ouvinte, é uma série de emoções que me custa muito vertebrar imediatamente em palavras. Aquilo tem de fazer um caminho interior em mim, que às vezes demora meses. E então [a pessoa] não entende, fica habitada por ele, como uma pedra fica habitada por fantasmas. À volta disto há aquilo a que chamam os intelectuais, que tentam aplicar às obras alheias uma grelha própria, racional ou intelectual ou intelectiva, que nada tem que ver com a obra em si”.
Irreverente e polémico, Lobo Antunes acumulou, ao longo da vida, declarações sonantes, dizem uns que por absoluta liberdade de espírito, outros que em busca de holofotes. “A maior parte dos escritores deste país são castrados (…) fala-se em masturbação intelectual mas eu acho que nem é masturbação, são umas vagas festinhas na ponta do pirilau”, afirmou em 1979, no Diário Popular. “Pergunto-me se um homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor”, disse sobre Fernando Pessoa no El País, em 2015, declaração que gerou polémica em Portugal.
Negando quase sempre admirar os mais populares e elogiados autores portugueses, confessou em 2018 que também não partilhava do “amor por Eça de Queiroz”, de quem gostava muito até aos 17 anos. “Depois comecei a escrever mais a sério e a minha admiração foi diminuindo. Não quero entrar em linguagem técnica, mas é a maneira como repete as personagens. São sempre as mesmas”, afirmou. Para Lobo Antunes, a classificação de autores como estando em primeiro ou segundo lugar não se aplicava à arte.

“Os livros bons são maiores do que a vida. Se lermos Os Possessos de Dostoievski perguntamo-nos como é que aquele homem conseguia encher os livros de grandes trevas vivas? Se o escritor não as tem não é bom…”
“A ideia da minha morte começa a parecer-se com a minha morte”
Num conhecido texto, saído na revista Visão de agosto de 2016 – à época considerado uma despedida em vida, o que não era verdade, revelando um autor a ficcionar a verdade do próprio ocaso – partilhou uma espécie de testamento e encimou uma frase lapidar: “A ideia da minha morte começa a parecer-se com a minha morte”.
Semanas antes, tinha assinado na revista um pressentimento do fim: “Vida, vida, quanto tempo duras tu de facto? Prolongas-te por abril, maio, junho, julho, agosto, até ao setembro dos meus anos?” Em 2007, tinha tornado pública a doença: cancro no intestino. À Sábado diria, em 2017, que lhe tinham sido diagnosticados outros dois cancros, nos pulmões. Por “sorte”, sobreviveu — e continuou a fumar, um dos seus maiores prazeres.
Afirmou na primeira crónica acima mencionada, intitulada “Até que as pedras se tornem mais leves que a água“, que fazia planos para mais cinco livros. Na altura, disse ter já prontos A Última Porta Antes da Noite, a publicar em outubro de 2016 — sairia, ao invés, em 2018 —, e Para Aquela que Está Sentada no Escuro à Minha Espera, no fim de 2017 — publicado, na verdade, nesse ano de 2016. “Ficam a faltar três, que desejo que Deus me dê vida e saúde para fazer e depois calo-me para sempre”, declarou.
Acrescentou não querer uma reedição dos livros de crónicas, nem a compilação destes seus textos, nunca juntos num volume — vontade essa que não foi respeitada, sendo publicadas várias coleções. “Tudo o que quero que permaneça são apenas os livros [romances], nos quais joguei a minha vida, a minha saúde e a minha esperança”, disse, prevendo que o último romance seria publicado em 2020. “Depois, se continuar vivo, irei extinguir-me como quando, em criança, comecei: a escrever poemas que desaparecerão no cesto dos papéis”, vaticinou.
Estas palavras não foram inteiramente verdadeiras — para lá das datas trocadas, Lobo Antunes até publicaria mais um romance do que os três prometidos: Até que as Pedras se Tornem Mais Leves que a Água, em 2017, A Outra Margem do Mar, de 2019, e os já referidos Diccionario da Linguagem das Flores (2020) e O Tamanho do Mundo (2022). Foram, no entanto, premonitórias. Perante a periodicidade com que publicava um novo título de ficção a cada outono, surpreenderam as omissões de 2021 e 2023, colmatadas com coleções de crónicas.
Ao mesmo tempo, à medida que a década de 2010 ia terminando, as aparições públicas de Lobo Antunes foram tornando-se mais esparsas, tal como as entrevistas. Numa das últimas que deu, ao Público, em 2018, foi desafiado a passar o seu legado em revista, saindo-se francamente bem para a quantidade de livros que teve de recordar, e atirando várias citações e referências literárias no decurso da conversa. No entanto, também aí, apontou para um fim que sentia aproximar-se: “agora ninguém me pressiona. Não tenho prazos para escrever. Tenho medo é que isto acabe antes de eu acabar.”
Um dos últimos casos públicos que protagonizou prendeu-se com o fim da sua colaboração com a revista Visão, para a qual escreveu crónicas durante 19 anos, em 2019. A rutura foi caracterizada por uma dura guerra de palavras, com Lobo Antunes a afirmar-se indignado pela publicação ter alegadamente utilizado a sua imagem em materiais promocionais sem autorização e a justificar assim o fim da sua colaboração. Perante “uma falta de educação e prepotência absoluta”, exigiu ao grupo Trust in News, detentor da revista, uma indemnização de “umas boas centenas de milhares de euros”, destinada aos serviços de oncologia do Hospital de Santa Maria. A direção da Visão desmentiu-o, acusando-o de “cansaço e acidez” no trabalho que apresentava. “Concentremo-nos por ora nas boas memórias e na admiração que temos pela obra e pelo escritor, esqueçamos os tropeços do homem”, afirmou.
O calar de uma voz
“António Lobo Antunes, o escritor que não queria ser deste mundo e já não é”. Foi com este título de uma notícia do Expresso publicada em setembro de 2024 que o país ficou a saber que, aos 82 anos, António Lobo Antunes se encontrava retirado da vida pública por sofrer de demência. Com a chegada da covid-19, em 2020, o escritor deixara de ser visto em público — mas passada a pandemia, também não retomara a vida normal, mesmo sob um maior resguardo imposto pela idade.
Tal revelação confirmou os piores temores que atormentaram Lobo Antunes ao longo da vida, que tinha o medo constante de perder o ‘dom’ da escrita, admitindo em 2006 que era hábito “ficar cheio de medo de não ser capaz de fazer mais nada, de escrever mais nada”. Numa outra entrevista, em 2014, voltou a repetir a mesma ideia: “Tenho um medo permanente de isto ter acabado. Se isto seca é uma gaita. O que é que eu faço?”
A descoberta trouxe à memória Agustina Bessa-Luís, também votada à reclusão nos seus últimos anos de vida devido a um AVC, com a diferença de que, ao contrário da autora de A Sibila, o seu estado de saúde não foi divulgado com o aval da família. Ao invés, o “exílio da realidade” para onde se retirou Lobo Antunes foi tornado público devido à reedição de Uma longa viagem com António Lobo Antunes, do jornalista e escritor João Céu e Silva, livro que sintetiza dezenas de entrevistas e textos, entretanto atualizado com o quadro clínico do seu protagonista.
As opiniões dividiram-se quanto à forma como um tema tão sensível foi divulgado — Céu e Silva defenderia em entrevista que não podia guardar para si tal informação quanto tentou contactar Lobo Antunes durante a pandemia e deparou-se com alguém “irreconhecível”. No entanto, tal ato mereceu condenação de figuras como o também jornalista e escritor Rodrigo Guedes de Carvalho. “É pena que António Lobo Antunes não possa reagir aos que lhe querem roer já os ossos. E que prepararam isto andando sempre de volta dele”, escreveu na sua conta de Facebook, criticando o ato de “publicitar aos quatro ventos o que era uma informação do mais privado foro familiar, decoro respeitado pela editora de sempre de Lobo Antunes”.
Finda a sua vida, só há uma certeza do que Lobo Antunes fará se houver vida depois da morte — e foi o próprio que o revelou após uma conversa com o seu amigo frei Bento Domingues. “Ó Bento, se eu morrer o que faço? E ele respondia: ‘Continuas a escrever. Descansa que te vão ler e que vais encontrar temas.’”