(c) 2023 am|dev

(A) :: "São precisas três coisas para escrever: paciência, solidão e orgulho". 25 frases de António Lobo Antunes

"São precisas três coisas para escrever: paciência, solidão e orgulho". 25 frases de António Lobo Antunes

O Observador reuniu alguma citações do escritor português, recolhidas das várias entrevistas que deu ao longo dos anos. São confissões pessoais e provocações, duas constantes nas conversas do autor.

Observador
text

António Lobo Antunes morreu esta quinta-feira, 5 de março, aos 83 anos.

Médico de formação, sempre quis ser escritor. É em 1979 que António Lobo Antunes começa a publicar. Poucos anos depois, a arte era-lhe reconhecida pelos leitores e pela crítica. A sua obra está traduzida por todo o mundo, mas a abrangência de leitores e a unanimidade em volta dos livros de António Lobo Antunes não signifcaram sempre uma abertura pessoal nas páginas que escreveu. Na verdade, e apesar dos esforços para que não acontecesse, foi também em muitas entrevistas que revelou alguns dos detalhes mais íntimos da sua vida. Reunimos algumas das suas frases mais marcantes.

"Lembro-me dos domingos à tarde, quando era miúdo. Ia com o meu tio ao cinema, e perguntava-me: quando é que eu fui feliz? Lembro-me tão bem disso. Tão bem. Os domingos à tarde eram uma tristeza, uma angústia... Não era bem tristeza, era um aperto. Não sei explicar isto. Por exemplo: se uma pessoa escreve, fica melhor. Agora, nos intervalos dos livros, começa a ser uma aflição..."
Revista Ler, 1988
"Acho que os escritores percebem muito melhor o que escrevemos que os críticos. Os escritores têm, afinal, a mesma humildade dos leitores comuns. Os críticos raramente entendem o nosso trabalho. O Jorge Amado, numa carta que me mandou sobre o 'Fado Alexandrino' dizia, mais ou menos, que não tinha nem vocação nem pretensão de ser crítico, mas que distinguia o bom do ruim."
Conversas com Letras, novembro de 1990
"Para mim, os lançamentos e as inaugurações de exposições são sítios pouco agradáveis, cheios de conflitos... E, depois, não tenho muito a dizer às pessoas, nem muito para ouvir. Cada vez mais, essas pessoas cansam-me. Ao fim de uma ou duas horas, fico cansado e apetece-me estar sozi­nho. Aquilo que dizem não me interessa muito, e aquilo que eu Ihes digo, provavelmente, também não Ihes interessa muito a eles..."
Revista Ler, 1997
"As crónicas têm uma função muito simples para mim que é divertirem as pessoas, percebe? E um livro acho que é muito mais que isso. Quando o Vicente Jorge Silva me falou, eu pensei 'isto é para ser lido os domingos por pessoas que leem jornais e suplementos de jornais e por isso tem que ser uma coisa que as divirta, que as distraia e que não as faça pensar muito'. Apenas isso."
Fevereiro de 2000, Notícias Magazine
"Queremos abrir uma porta do livro com a nossa chave, mas temos que usar a chave do autor. Temos tendência para transformar as nossas opiniões pessoais em verdades universais e rejeitar tudo o que não encaixe na nossa grelha de valores. Penso que a crítica devia servir apenas para ajudar a ler e nunca para adjetivar e hierarquizar. O ato de ler é criativo e implica humildade."
Visão, Outubro de 2001
"Seria incapaz de dizer mal de um livro, mesmo que o livro fosse desonesto, mesmo que o livro fosse mau, não falaria sobre ele. Portanto, se fosse crítico literário era uma maçada porque quase não tinha sobre que escrever."
Diário de Notícias, novembro de 2003
"Um livro não está na cabeça, está na mão. Um livro não se faz com ideias. É o livro que tem de ter as ideias, não é o autor. O livro tem que ser mais inteligente que o autor. Não gosto de ler aqueles livros em que se está sempre a ver o autor a aparecer: repara como eu faço, repara nesta metáfora, nesta imagem, repara como eu arranco isto... retira a eficácia ao livro. Um livro não tem que ser bonito, tem que ser eficaz, no sentido de ser implacável. Daí não haver nenhum motivo para se ser orgulhoso... vaidoso. Uma pessoa tem que ser muito humilde. São precisas três coisas para escrever: paciência, solidão e orgulho. Isso é que faz com que escreva, e reescreva e reescreva e reescreva..."
Público, novembro de 2003
"A gente não vive em democracia, como é evidente. Não vive. Há algumas quase democracias -- a Holanda, a Bélgica, a Suíça [com] aquele arranjo [federal] complicado. A democracia implicava um constante referendar pelo povo das decisões do poder. Não existe."
Novembro de 2004, Público
"Nunca me senti frustrado a escrever, a vida tem sido generosa comigo. Tenho estes momentos de alegria tão intensos. Há alturas em que, quando as palavras são aquelas, está-se a escrever e a chorar ao mesmo tempo. Já me aconteceu."
Verão de 2006, Selecções Reader's Digest
"É claro que me zango com Deus porque permite o sofrimento, mas talvez os seus desígnios tenham tais profundezas que não atinjo. O sofrimento sempre me foi incompreensível porque nascemos para a alegria. A minha atitude em relação à religião é essa, não estou a falar de igrejas, estou a falar em relação a Deus e não acredito quando as pessoas dizem que são agnósticas ou ateias. Não estou a dizer que a pessoa não esteja a ser sincera, mas dentro dela e em qualquer ponto há algo... Uma vez perguntaram ao Hemingway se acreditava em Deus e a resposta foi 'às vezes, à noite'."
Setembro de 2007, Diário de Notícias
"Eu continuo a aprender. Tenho muito que aprender, ainda. Acho que tenho uma noção parcial daquilo que estou a fazer. É muito cedo ainda para se perceber o que eu trouxe ou não trouxe. No meu entender isto não são romances. Os primeiros, sim, são obviamente romances. Acho que a partir de 'O Esplendor de Portugal' deixaram de ser romances."
Revista Ler, maio de 2008
"Se estou realmente a escrever um livro, ele sabe como se organizar. Aos poucos, começa a ficar autónomo, com a sua fisionomia e estrutura. e tenho de ir atrás dele. A cabeça tem de estar vigilante, sobretudo para as correções. Num primeiro momento, há muitas parvoíces, redundâncias, toda a espécie de erros. Mas o livro já lá está, debaixo daquele amontoado de palavras. Enterrado ali em baixo. Só é preciso limpar."
Outubro de 2009, Jornal de Letras
"Com os primeiros livros, sentia: 'Ainda não é isto, ainda não é isto, ainda não é isto.' Devia ter começado a publicar só a partir de "O Esplendor de Portugal": a partir daí, os livros tornam-se mais parecidos com o que para mim deve ser um romance."
Outubro de 2010, Expresso
"Não tenho o menor respeito pelas resenhas de jornal sobre livros. Não me interessam nada, nem aquele sistema de estrelinhas, que é completamente imbecil. Se os livros fossem publicados anonimamente, resolvia-se muita coisa. Claro que tenho orgulho no que fiz, e se me perguntarem 'acha que alguém escreve como você?', eu seria hipócrita se dissesse que achava que havia."
DN, outubro de 2011
"A voz tornou-se mais presente, clara, nítida e forte. Se eu tirar o aparelho não oiço nada. E, mesmo quando o uso, não é mais que um amplificador. Não escolhe sons como o cérebro faz. O barulho de um talher num prato é, para mim, uma explosão, tal como estar com muitas pessoas à mesa. Sozinho, sem aparelho, as vozes que existem dentro de todos nós fazem-se ouvir. O Beethoven falava neste aspeto também. Que, com a surdez, passou a ouvir melhor as composições na sua cabeça. No meu caso, comecei a conseguir chegar mais fundo. Ensurdecer foi socialmente uma chatice e literariamente uma bênção."
2011, setembro, Jornal de Letras
"Eu gosto da parte masculina das mulheres, mas não gosto da parte feminina dos homens. Como mulheres, os homens deixam muito a desejar... "
Dezembro de 2013, Visão
"Gosto muito de ler, sempre foi um prazer enorme. Há livros bons de que a gente não gosta e outros de que gostamos e não são tão bons. Por exemplo, o Thomas Mann é bom mas não gosto, chateia-me. O Musil é bom, mas não gosto. O Broch já gosto, o primeiro capítulo de 'A Morte de Virgílio' é espantoso."
Público, novembro de 2014
"Quando comecei 'Explicação dos Pássaros' estava a escrever na Alemanha em casa da minha tradutora, em Bad Homburg, ao pé de Frankfurt. Comecei em 1980, o livro saiu em 1981. E ela disse: “Leio três linhas e vejo logo que és tu.” E era um dos primeiros livros, eu fiquei ofendidíssimo com aquilo, queria que ela percebesse que era uma coisa completamente nova. Eu julgo que este é um dos problemas. É que eu tenho uma maneira de dizer muito marcada, percebe-se logo."
Outubro de 2014, revista Estante
"Não quero magoar. É claro que me agradaria escrever um livro com estas pessoas... E não me seria difícil. Ou, por exemplo, um livro sobre políticos. Também não seria difícil, mas são tão reles que me enojam. Tinha de tomar banho após escrever. Não consigo conceber uma pessoa que toma decisões irrevogáveis e que não as cumpre. Isto é um exemplo. Podia multiplicá-los."
Dezembro de 2015, DN
"Acha que eu falo mal das mulheres? Deus me livre. Isso era dantes, não era? Eu devo tanto às mulheres, à minha avó, à minha mãe… Estava aqui sozinho, a escrever, e de repente sai-me, sem eu dar conta, um berro: "Quero a minha mãe!" Todos os homens quando estão aflitos querem a mãe, tenham a idade que tiverem. Vi morrer tanta gente nos hospitais e nunca vi um homem chamar pelo pai. É espantoso. Velhos e doentes com mais de cem anos: "quero a minha mãezinha". Com mais de cem anos continuam a chamar pela mãe. É extraordinário."
Visão, dezembro de 2015
"Não sou uma pessoa muito alegre. Sou introvertido. Fechado. Cheio de dúvidas. Não me é fácil viver comigo. Parece que estou sempre em guerra civil"
Expresso, fevereiro de 2017
"Sempre gostei de estar com o que chamam "pessoas humildes". Foi com essas que aprendi mais. As classes altas não me interessam. Nunca fui snob. Costumo comer numa tasca e vou ouvindo"
Público, outubro de 2018
"Não me venham falar em nóbeis, quero que o Nobel se foda - ponha mesmo assim -, ou na grandeza de uma obra de tantos grandes escritores no mundo depois de Tolstoi. Tenho uma inveja dos poetas que me dano todo, gostava de ser capaz, mas não tenho talento"
Diário de Notícias, outubro de 2018
"Não estou à procura de nada. A gente não procura, encontra. Uma das coisas que me agrada na vida é a imprevisibilidade do futuro. Claro que é aborrecido se o futuro for desagradável. Mas enquanto houver futuro, a nossa vida tem um sentido, e uma razão"
Agência Lusa, outubro de 2018
"Tive sempre a sensação que um livro é um organismo vivo que nos escapa. Não tenho nenhum plano escrito, nunca. Escrevo à mão, não tenho computador, não tenho telemóvel, não tenho carro”
TVI, abril de 2020