(c) 2023 am|dev

(A) :: As outras palavras de António Lobo Antunes

As outras palavras de António Lobo Antunes

Mudou várias vezes de opinião – sobre os outros, sobre os seus livros, sobre o país, sobre os seus projectos, sobre a literatura – mas houve algo que nunca se alterou: o compromisso com a sua arte.

Bruno Vieira Amaral
text

António Lobo Antunes morreu esta quinta-feira, 5 de março, aos 83 anos.

Pode conhecer-se um escritor através das entrevistas que dá? Quem é que se deixa entrevistar: o homem ou o personagem? Em certa ocasião, António Lobo Antunes disse que as entrevistas revelam mais do entrevistador do que do entrevistado. Ao lermos algumas entrevistas do escritor ficamos com essa ideia até porque há uma adequação do entrevistado ao entrevistador ou, por vezes, uma indisfarçável incompreensão e animosidade.

Lobo Antunes mudou várias vezes de opinião – sobre os outros, sobre os seus livros, sobre o país, sobre os seus projectos, sobre a literatura – mas houve algo que nunca se alterou: o compromisso inegociável com a sua arte, o lugar central da literatura na sua vida, a amante que exige tudo, a religião que só se satisfaz com o sacrifício absoluto. Numa entrevista a Isabel Lucas, no Público, em 2014, dizia que, nas entrevistas, por pudor e vergonha, não falava dos livros: “falo do que me vem à cabeça, mas não falo dos livros.” A verdade é que, em quase quarenta anos de atividade literária, falou muito dos livros, dos seus e dos livros dos outros, e falou muito da vida, ao ponto de não se saber onde começam aqueles e esta acaba. Em Dezembro do mesmo ano confessou a Francisco José Viegas (revista LER) que “queria que [aquela] fosse a última e depois não houvesse mais entrevistas na [sua] vida. Em Portugal. As pessoas têm direito aos livro, mas aquilo que eu digo são banalidades.” Porém, da mesma forma que continuou a escrever depois de ter dito várias vezes que só queria escrever mais dois livros, voltou a dar entrevistas. Não será um direito do leitor, mas é um prazer.

A entrada de António Lobo Antunes na cena literária nacional, com a publicação quase simultânea de Memória de Elefante e de Os Cus de Judas foi arrasadora. Milhares de exemplares vendidos e, de repente, um autor desconhecido tornava-se na estrela mais cintilante da nova geração da literatura portuguesa. Não era uma criança – já tinha 36 anos – mas entrou com o ímpeto e a ingenuidade de quem não fazia parte do meio, desconhecia o funcionamento das editoras e estava deslumbrado pelo sucesso.

Os outros

A 18 de Outubro de 1979 deu a primeira grande entrevista, ao Diário Popular. Entrevistado por Rodrigues da Silva, Lobo Antunes confessava a alegria pueril de “passear pela Baixa, para ver o livro nas montras.” Atribuía o sucesso do livro “ao facto dele tocar um problema que é um problema actual entre as pessoas. […] a dificuldade da relação, a impossibilidade da relação, devido aos nossos núcleos narcísicos e à nossa dificuldade em partilhar.” Quase um ano depois, em entrevista a José Jorge Letria para O Diário, justificou essa proximidade com os leitores pela influência do cinema na sua escrita: “A geração anterior à nossa foi marcada pela leitura de outros escritores. A nossa tem outro tipo de influência e talvez por isso esteja mais perto das pessoas.”

Na segunda parte daquela primeira entrevista ao Diário Popular, o escritor atirava-se à literatura portuguesa: “Fala-se em masturbação intelectual, eu acho que nem é masturbação, são umas vagas festinhas na ponta do pirilau. Não tem sangue, não tem tripas, não tem aquilo a que Rilke chamava sangue, olhar e gesto. É uma literatura sem sangue e sem olhar e sem gesto, é uma sei lá, pá, é uma merda que anda à roda.” Para Lobo Antunes, os outros autores portugueses não vendiam porque os seus livros não tinham “nada que ver com a vida.” Na cabeça do escritor, os representantes dessa literatura, que nem chegava a ser masturbação, eram Agustina Bessa-Luís (“que escreve muito bem, mas que tem uma escrita paralisada, sem sangue, sem tripas, que tanto pode ser deste século como do século passado”, disse a José Jorge Letria, em Julho de 1980) e Vergílio Ferreira (“que tem sempre na testa a ruga de quem está a pensar imenso”, afirmou na mesma entrevista). Ao Diário de Notícias, em Agosto de 1981, já depois da publicação de Conhecimento do Inferno, dizia que em Portugal se fazia uma “literatura de bacharel, literatura engravatada.”

Mesmo em 1985, quando já não era um novato, disparava contra os seus alvos preferidos: “Quanto à Agustina e ao Vergílio Ferreira, estou farto de Faulkners do Minho e Sartres de Fontanelas, e ainda por cima maus”, disse a Baptista-Bastos, numa entrevista ao Jornal de Letras. Um ano depois, em entrevista ao Expresso, questionado sobre se sentia ódio pelas suas personagens, o sentimento que parecia ligá-las entre si, voltou à carga: “Não sei se nos romances da Agustina não há amor, mas ela demonstrou um grande amor pelo Dr. Freitas do Amaral, é a prova de que a senhora tem amor.”

Ao longo do tempo, confessou apreço por alguns escritores portugueses como Nuno Bragança, Dinis Machado, Fernando Assis Pacheco, Almeida Faria, Cardoso Pires e… Saramago: “Falando a sério, gosto do Saramago, do Cardoso Pires. Só gosto dos meus amigos. Gosto do Almeida Faria, da Luísa Costa Gomes, da Lídia Jorge…” (entrevista ao Expresso, em 1983, conduzida por Clara Ferreira Alves). Nos primeiros tempos, e por estranho que pareça, o farol de António Lobo Antunes, várias vezes reafirmado, era (alguma) literatura norte-americana e a eficácia dos seus escritores: “romance é para contar uma história” (1979); “o que nós temos procurado é a eficácia da escrita” (1980); “Veja, por exemplo, a eficácia dos escritores americanos. E se calhar não escrevem tão bem como alguns escritores portugueses. Sabem contar uma história, não é? Sabem contar e fazer diálogos.” (1981); “Sim, fui muito educado na ideia norte-americana: contar uma história e contá-la com eficácia.” (1983); “Penso, cada vez mais, que um romance tem de contar uma boa história; boa e bem contada.” (1985)

Afinidades, pessoais e literárias, que flutuaram com o tempo, apesar de ter sido sempre mais Camões do que Pessoa, que considerava um chato (“é um heterónimo do João Gaspar Simões”, afirmou certa vez, e a célebre boutade numa entrevista recente ao El País: “Pergunto-me se um homem que nunca fodeu pode ser bom escritor”). “Mesmo temendo cair em pecado de omissão fala de amigos escritores cujas obras admira e cujo exemplo não perde de vista: José Cardoso Pires, Agustina Bessa-Luís, João de Melo, João Miguel Fernandes Jorge, Lídia Jorge, Mário Cláudio, Pedro Tamen, Egito Gonçalves e Eugénio de Andrade. Aqui fica o registo dos nomes, tal como foram mencionados, no tom afectuoso da estima e da admiração”, escreveu José Jorge Letria no Jornal de Letras, em 1990.

Dois anos depois, entrevistado por Ana Sousa Dias, como que se desculpava dos excessos iniciais: “Quando comecei… nunca quis atacar pessoas, mas sobretudo aquilo que para mim deveria ser a literatura. E houve pessoas que se sentiram atingidas por isso.” Um tom de expiação que manteve em entrevistas posteriores, nomeadamente uma a Rodrigues da Silva, em 1994: “Tu lembras-te que eu, para me afirmar, deitava tudo abaixo, convencido que pelos outros serem maus eu era melhor, o que era uma coisa completamente imbecil, uma fantasia infantil”. Num mea culpa então surpreendente dizia: “eu sempre conheci mal a literatura portuguesa. Nessa altura, então, conhecia-a profundamente mal. […] Agora o que também existe são pessoas de alta qualidade, e disso eu não me apercebia porque estava na atitude arrogante do desprezado […] Acho que era mais um menino com medo a assobiar no escuro.”

Essa evolução, chamemos-lhe assim, não o impediu de ter opiniões fortes sobre outros autores e livros. Para ele, Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, era um “pastelão”, e Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, parecia “sopa de pedra”. Reformulou também a opinião sobre Nuno Bragança: “Quando li pela primeira vez, achei deslumbrante, foi uma descoberta! Depois, comecei a ler aquilo mais vezes e acho que, sem ele querer, acaba por ser responsável por muita merda que se fez depois, com uma série de indivíduos que desataram a escrever porcaria como se fossem modernos” (entrevista à LER, conduzida por Francisco José Viegas em 1997).

Em entrevista à Notícias Magazine, em 2000, disse que os “escritores de quem gostava aos trinta anos quando escrevi os primeiros livros não são aqueles de quem gosto hoje.” Afastou-se também da ideia, muito repetida no início, da eficácia dos escritores americanos: “são pessoas que escrevem bons romances mas que não trazem nada de novo à arte do romance. Como o (Saul) Bellow, por exemplo, que acho um excelente romancista mas não tem nada de novo, não mudou. Ou o (Philip) Roth… todos os discípulos do Bellow, o Roth, o Martin Amis, toda essa gente anglo-saxónica… Escrevem histórias bem contadas, mas para mim um romance não é isso.” (entrevista ao Público, em 2003).

E, ao longo dos anos, foi chamando a atenção dos leitores para talentos que começavam a aparecer como José Riço Direitinho, Alexandre Andrade, Rodrigo Guedes de Carvalho, Ana Teresa Pereira, Mafalda Ivo Cruz, Margarida Vale de Gato ou, recentemente, Ana Margarida Carvalho. Mas em 2015, ao DN, apagava tudo: “O problema é que um bom escritor é uma coisa muito rara e agora não os há. Três ou quatro no máximo no mundo inteiro. Não estava a pensar em Portugal, onde nas gerações mais recentes não há nenhum que entusiasme especialmente.”

Crítica e Prémios

A relação de António Lobo Antunes com a crítica foi sempre de notória desconfiança. O escritor considerava-se maltratado pela imprensa e pela crítica e chegou a dizer que lá fora era um sucesso de crítica enquanto em Portugal era um sucesso de público. Parece estranho para um escritor que, desde o primeiro livro, provocou reações e nunca foi ignorado. Em 1982, Fernando Dacosta, que o entrevistou, escrevia que raras “vezes se disse, na verdade tão bem e tão mal, entre nós, como se diz deste escritor.” É possível que o facto de alguma crítica não o ver da mesma maneira que ele se via a si mesmo tenha originado o longo combate de Lobo Antunes contra a crítica portuguesa.

No final de 1983, ao Expresso, dizia que em Portugal “a crítica é inexistente. Por exemplo, custava-me muito que o sr. Gaspar Simões dissesse bem de mim. Seria sinal de que eu estava a escrever coisas sinistras. A atitude da crítica portuguesa tem-me deixado perplexo, se a compararmos com a crítica que se faz noutros países. A crítica está pendurada na Universidade…” (Universidade que viria a recebê-lo de braços abertos e a acarinhá-lo como o escritor português contemporâneo mais importante.)

Na mesma entrevista, referia um aspecto que depois se tornou recorrente nas suas queixas em relação à crítica: “é feita, muitas vezes, em forma de ataque pessoal. Louvar ou denegrir um livro, não sei se é isso que interessa.” Reafirmou-o ao Expresso, em 1992: “Numa coisa estou de acordo com o Borges, a função do crítico não é dizer “isto é bestial”, mas ajudar a pessoa a ler a porcaria do livro. Anos mais tarde, em conversa com Sara Belo Luís, da Visão, mantinha-se fiel à ideia: “Penso que a crítica devia servir apenas para ajudar a ler e nunca para adjectivar e hierarquizar.” Desejo que, de acordo com a opinião do próprio em 1996, seria difícil de concretizar. O problema resultava de um equívoco: “em Portugal os escritores não sabem escrever e os críticos não sabem ler. E isso é dramático.” “Eu, desde 79, que ando a ensinar os meus críticos portugueses a ler. E eles não querem aprender. Por ignorância, por má-fé ou por qualquer outro motivo, não querem. Os estrangeiros não precisei de os ensinar a nada.” (Jornal de Letras) “Lá fora”, dizia envaidecido a Tereza Coelho em 1994, “são hiperbólicos, gostam de tudo o que eu faço.”

Numa entrevista dada em 1997, celebrava a qualidade dos críticos alemães: “De todos os críticos literários aprecio mais os alemães: são honestos e procuram perceber o romance. E penso que actualmente na Alemanha os críticos literários são melhor que os romancistas.” No mesmo ano, à LER, reforçava: “os jornais alemães têm óptimos suplementos literários, excelentes, bem feitos, as críticas são bem feitas… Não é como as pessoas que escrevem sobre livros em Portugal.”

Aqui, “faz-se mais recensões de livros do que verdadeiras tentativas de os entender, e aquilo que me parece é compreender em vez de julgar.” Se o julgamento era mais frequente do que a tentativa de compreensão isso devia-se à juventude dos críticos: “as pessoas que fazem recensões de livros são muito jovens e com uma imensa necessidade de afirmação [um pouco a exemplo do que ele, enquanto escritor, fizera no início da carreira]. Se alguém desanca um tipo mais conhecido ou mais velho, evidencia-se. É infantilidade.” (entrevista à Visão, em 1996).

Todas estas opiniões são de um homem que, em 2004, afirmava o seguinte ao DN: “Devo ser dos poucos autores que não lêem as críticas, sejam boas ou más. O que faço ainda é cedo para ser compreendido.” No entanto, por ocasião do lançamento de Exortação aos Crocodilos, em 1999, Lobo Antunes sentiu uma mudança na opinião sobre a sua obra. Começou a falar de unanimidade. “Agora até há uma unanimidade à minha volta”, disse a Rodrigues da Silva. Meses depois, em entrevista à Notícias Magazine, afirmou que era “inevitável que mais tarde ou mais cedo houvesse a unanimidade que havia no estrangeiro.” Uma unanimidade ainda assim “inquietante”, como confessou à Visão em 2001, e para a qual “foram precisos anos” (Público, 2004).

Na ressaca da conquista do prémio APE com o Auto dos Danados, em 1986, dizia que “não há críticos literários a sério.” No entanto, salientava a importância do prémio: “Apesar de tudo, penso que o meu prémio é importante porque marca o reconhecimento de uma nova geração na literatura.” A alegria era proporcional à desilusão de não ter ganhado o prémio com Fado Alexandrino: “Se a gente não ganha fica chateado e eu fiquei de facto muito chateado quando não ganhei com o Fado Alexandrino. Quando se ganha, é uma alegria… (Expresso, 1986). Era, ao mesmo tempo, “uma espécie de viragem, sempre pensei que ele era dado por idades.”

Lobo Antunes foi o quarto escritor a ganhar o prémio, depois de José Cardoso Pires, Agustina Bessa-Luís e Mário Cláudio. Mais tarde, também o seu olhar sobre o prémio mais importante da literatura portuguesa iria mudar. “Todos os medíocres o ganharam com livros de qualidade inferior. Até eu o ganhei, mas tive a sorte de nessa altura ele ainda ser dado com dignidade”, afirmou em 1996 (Jornal de Letras). Três anos mais tarde, foi ainda mais contundente, considerando o APE “aquele prémio que todos os maus escritores ganham.”

A possibilidade futura de um bem mais apetecível e chorudo Nobel começara a desenhar-se muito cedo. “Daqui a dez ou quinze anos você ganha o Nobel”, ter-lhe-á dito Jorge Amado, como confidenciou a Inês Pedrosa, em entrevista de 1986. Seis anos depois, com nove livros publicados e traduções na Suécia, o Nobel não parecia uma miragem. “Os jornais falam todos disso”, dizia ao Jornal de Letras. “Mas a gente não pode dramatizar muito isso, senão acabamos por ficar presos a essa coisa. E o Prémio Nobel é, em primeiro lugar, um prémio político, claramente. Mas também é idiota dizer isto, porque no fundo, secretamente, toda a gente o quer ganhar, mesmo que diga que não.”

Nos anos seguintes, o Nobel tornou-se um tema recorrente nas entrevistas. A postura de Lobo Antunes era de cautela ansiosa. Sim, era uma possibilidade, mas declará-lo abertamente podia dar azar. “Ficarei triste se não o ganhar, até porque se não o ganhar muita gente ficará triste, mas não trabalho para o Nobel. E nem sei bem se vale a pena viver para isso.” E acrescentava, cautelosamente: “Todos os grandes escritores tiveram o Nobel. Alguns escritores de segunda também o tiveram, é verdade, mas os grandes tiveram-no todos.”

À Visão, em 1996, dizia que “não merecemos o Nobel” e que o único escritor de língua portuguesa do século XX a quem daria o Nobel era Carlos Drummond de Andrade. No final desse ano, António Tavares Teles perguntava-lhe directamente se ficaria despeitado se José Saramago ganhasse o Nobel. Resposta: “Julgo que não, embora me esteja a lembrar de um escritor irlandês que disse que o problema de ganhar o Nobel era ficar depois com o ódio de todos os escritores do seu país. […] Em todo o caso, o facto de se ter falado tanto no meu nome, para mim foi bom, porque fez subir os contratos e multiplicar as traduções.”

Entretanto, Saramago recebeu o Nobel em 1998. Um ano depois, ao JL, Lobo Antunes reflectia sobre os prémios (“um prémio literário (estou à vontade: já ganhei vários) não melhora a tua literatura) e protegia-se da desilusão: “As pessoas por quem me daria alegria receber todas as honrarias do Mundo já morreram quase todas.” Disse o mesmo à Visão, em 2001: “[o que significaria para ele o Nobel] Agora, nada. Porque as pessoas que se alegrariam com isso já cá não estão. Teria significado há três ou quatro anos.”

Contrariava também a ideia de que os grandes escritores tinham todos recebido o Nobel: “Os escritores de quem mais gosto nunca ganharam nada. Aqueles que penso que são os grandes romancistas deste século nunca foram reconhecidos – Tolstoi, se havia alguém que o merecia era ele, Conrad, Thomas Hardy, Tcheckov. […] Hoje, o Nobel ser-me-ia indiferente.” Em 2004, foi sincero com Adelino Gomes: “Quer que eu seja sincero ou quer uma resposta de entrevistado? Claro que me dava prazer. Dá prazer a qualquer pessoa. Mas depois posso defender-me pensando: o Tolstoi nunca o ganhou. A lista não é boa. A lista não é boa. Agora é evidente que gostava.”

Em 2007, entrevistado por Sara Belo Luís, jogava novamente à defesa: “Tenho a certeza de que os meus livros são muito mais importantes do que qualquer Nobel que me possam dar. Mas não me queria alongar sobre esse assunto, porque me parece que se dá excessiva importância a um prémio literário. Tolstoi e Conrad nunca o tiveram. E eles é que são os meus colegas.”

Ao El País, em 2015, disse que tinha a certeza de que não iria receber o Nobel: “Não, nunca o ganharei, embora esteja sempre nas apostas, como os cavalos. Ganhei quase todos os prémios, mas o que me interessa dos prémios é o dinheiro.” Para Lobo Antunes, são os escritores que prestigiam os prémios e não o contrário. Disse-o também à Visão, em 2013: “Aliás, o que é um prémio literário? Um prémio não honra um escritor, os escritores é que honram os prémios. Devíamos dar os parabéns ao Nobel por alguns grandes escritores o terem ganho.”

Lobo Antunes e a política

Apesar de ter integrado as listas da APU (Aliança Povo Unido) nas eleições legislativas de 1980, Lobo Antunes afastou-se rapidamente da política e manteve um olhar distanciado e crítico sobre os protagonistas políticos.

Contudo, em 1985, declarou o seu apoio à candidatura de Maria de Lourdes Pintasilgo à Presidência da República, por “uma convicção íntima e sincera dos valores que a APU e a engenheira Maria de Lourdes Pintasilgo (embora diferentes) defendem.” De onde vinha a adesão a estes valores? Do “sentimento de culpabilidade ou o reflexo de má consciência do menino burguês.” Confessou mais tarde que o Maio de 68 passou por ele “como água por um pato” e que só a experiência da Guerra Colonial o despertara para aqueles valores.

Em 1988, com o cavaquismo em alta, entrevistado por Miguel Sousa Tavares, queixava-se da “ausência de democracia, da autocracia, do autoritarismo do partido que está no Governo” e “da arrogância da falta de diálogo.” Além disso, afirmava que após uma fase inicial da APU, “completamente ultrapassada”, tinha votado sempre no PS. O Independente entrevistou o escritor em Janeiro de 1991, pouco antes das eleições presidenciais em que Mário Soares foi reeleito, e aí o diagnóstico fazia um diagnóstico mais impiedoso: “dá-me a ideia de que as pessoas que pertencem ao Partido Comunista Português pertencem a um delírio coletivo, a qualquer coisa que já não existe.” O doutor Mário Soares, “que não é de esquerda nem de direita”, estava “muito velho” e dizia “generalidades, lugares-comuns aterradores, de uma superficialidade tremenda”. Para Lobo Antunes, era terrível viver num país onde, apesar de tudo, o melhor político ainda era Soares, porque Cavaco Silva não merecia palavras brandas do escritor: “não é social-democrata nem liberal. Não é nada. É gestor de uma firma, com pequenas tricas, maldades e com agressividade, porque a militância dos laranjas é muito agressiva.”

Reconhecia coerência no discurso de Basílio Horta, mas havia um senão: “não gosto do sorriso dele.” Num registo mais blasé justificava assim o apoio a Maria de Lourdes Pintasilgo nas eleições de 1986: “Gosto dessa senhora, tenho a certeza que, se eu lhe tirar a roupa, ela é bordada a missanga. É como as almofadas. Isso atrai-me.” E explicava o envolvimento com os comunistas logo no início da sua carreira literária: “Acho que foi por reconhecimento, porque, quando os meus primeiros livros começaram a aparecer, os comunistas foram muito simpáticos comigo. Isso fez-me sentir muito agradecido. Por outro lado, tinha a ver com a culpabilização que já referi. Mas, depois, aqueles comícios eram aflitivos, as bocas enormes, abertas, os punhos no ar. Fazia muita impressão, parecia aqueles quadros das santas, o martírio das santas.”

Em 1996, fazia uma avaliação de duas décadas de democracia (“Substituiu-se a aristocracia dinheiro por outra que tem piores modos à mesa.”) e mostrava-se desiludido com os partidos. Por isso, não votava e nem sequer aceitou um convite de António Guterres, na altura primeiro-ministro, para um encontro com escritores (“não tenho nada contra Guterres, mas, desde o 25 de Abril, não sei o que é que o Estado tem feito pela cultura.”) Três anos mais tarde, ainda justificava essa ausência: “O primeiro-ministro, seja qual for, não é o meu país. E há duas categorias que me repugnam: os pedófilos e os políticos. Eu aprendi a não gostar de políticos quando ouvi o sr. Mitterrand a comparar-se com De Gaulle, dizendo que teve o azar de lhe faltar uma guerra. Eu estive numa guerra, não vale a pena comentar mais.” (Jornal de Letras)

Em entrevista a João Céu e Silva, em 2007, comparava as opções políticas à afectividade das opções clubísticas: “Há pessoas de direita mais democratas que as de esquerda, há partidos de esquerda mais conservadores, as ideologias foram-se dissolvendo e a maior parte dos partidos são frentes e aqueles que ainda têm ideologia, ela está caduca. O único partido que vejo com corpo ideológico mais ou menos coerente é o Partido Comunista, mas é de um tempo que já não existe. As conquistas de Abril, onde estão?”

Ao longo de anos e anos de entrevistas, Lobo Antunes foi sempre Lobo Antunes. As contradições, os aborrecimentos, as boutades geniais, a fanfarronice, o valor da amizade, a Guerra Colonial e as lições que lhe ficaram para a vida, o amor complexo pelo país, as sucessivas ameaças de ir para o estrangeiro e a conclusão repetida de que não podia viver lá fora (falou na alegria de chegar à Portela e ver pessoas a cuspir para o chão), a menorização das suas próprias crónicas, o afecto pelos subúrbios (os da sua infância em Benfica e os subúrbios do Portugal democrático: “Vivemos todos em Corroios”), os ódios, os desgostos, a doença, a morte dos que lhe eram próximos – em tudo isso transparece uma certeza de que o próprio Lobo Antunes nem sempre parece consciente, mas que a partir de certa altura domina o seu discurso: a de que o jogo a sério e a batalha pela revelação dos pensamentos mais profundos e dos sentimentos mais íntimos não se disputam no campo das entrevistas, mas na arena solitária e implacável da escrita e dos livros: “onde jogo a minha vida é nos livros” (Visão, 2013).

As entrevistas dadas pelo autor entre 1979-2007 foram reunidas num volume com edição de Ana Paula Arnaut, em 2008 (Entrevistas com António Lobo Antunes, 1979-2007, Confissões do Trapeiro, Almedina).